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7.12.18

Rainha da Porra Toda!

A gata Catarina, doze anos, está internada, indo embora. A internação é só para hidratação, não há mais o que fazer. Tumores espalhados em quase todos os órgãos daquele bonsai de pelos. Foi o primeiro bichinho que tivemos juntos, Bruno e eu, e como bem avisou a Fal, depois da perda de um amor a gente chora tudo de novo quando os bichinhos que tivemos juntos morrem também. Catarina ainda está aqui – ainda - mas já chorei baldes e baldes, rodeada pelo meu pequeno zoológico particular de gatos e cachorra.

Fato é que, como ela não está com dor, mantém seu temperamento habitual: Rainha da Porra Toda, Não me Misturo com a Escumalha, Essa Gentalha me Dá Enxaqueca. Então quando fui visitar a bichinha no final do dia, na gaiolinha do gatil do hospital... ela estava fe-liz. Feliz! Sensualizava no tapetinho higiênico usando a caixinha de areia como travesseiro, o rabinho balançando languida e lentamente de um lado para o outro. O pessoal do hospital não entendia nada. Eu entendi na hora: um lugar de assepsia impecável, areia limpinha, água fresca, ração balanceada só para ela, silêncio, ar condicionado levinho e, rufem os tambores, nenhum outro bicho por perto!

Catarina gosta de exclusividade, senhoras e senhores. Cês tão pensando o quê? Ela é Cleópatra, caceta! Só tem ela, só dá ela! Pica das Galáxias, Fodona do Bairro Peixoto, Rainha da Porra Toda, sim senhor! Passa fora, ralé!

Então é isso. Eu me acabando de chorar porque ela está no hospital e ela se sentindo capa de revista, usufruindo os prazeres do SPA da Ilha de Caras.


21.11.18

Volto às onze

- Mãe, tô indo pro baixo e volto às onze.
Vinte e quatro horas depois:
- Mãe, tô em Mauá, volto na sexta, beijo e tchau.
Na segunda feira seguinte, às duas da tarde:
- Mãe, perdi o ônibus. Vou ficar aqui com o Planta, o Lesma e a Dani Crazy. A gente volta amanhã, beijo e tchau.
Desligar o telefone antes da mãe ter tempo de dizer um "ai" era a arte do negócio.

- Mãe, tô indo pro baixo e volto às onze.
Doze horas depois, em pleno Carnaval, vomitada até a alma porque peguei o ônibus bêbada:
- Mãe, tô aqui nessa merda de Ouro Preto, a Lesma mentiu pra mim! É samba vinte e quatro horas por dia, no volume máximo, cada casa uma música diferente e as caixas de som nas janelas, viradas pra rua! Eu odeio esse lugar, eu odeio samba enredo, eu odeio a Lesma! E só tem ônibus para voltar amanhã de manhã. Acho que eu vou chorar. Merda. Beijo.

- Mãe vou pro baixo e...
- E se for não entra mais em casa!

Achei justo.

A criatura, à época dos acontecimentos

29.10.18

No Dia Nacional do Livro, aniversário de 208 anos da Biblioteca Nacional do Brasil

Fazer uma dedicatória e deixar um livro em algum lugar público com um bilhetinho: leia-me. Ficar horas e mais horas no Sebo lendo os livros e as dedicatórias, imaginar aquelas pessoas da dedicatória e imaginar toda uma história, diálogos, possibilidades. Encontrar aquele livro que você já nem lembrava. Comprar um livro novo, aquele cheirinho de papel... só para descobrir em casa que você já tinha um exemplar que comprou e leu há 17 anos.

As memórias afetivas que aquele livro traz. A releitura que algumas vezes te decepciona, já em outras você encontra praticamente um livro novo, com camadas e camadas de detalhes que você não tinha percebido na primeira leitura.

Ler para a irmã mais nova, para os filhos, para os alunos. Ver o outro aprendendo a ler e a decodificar os possíveis sentidos e usos para aquelas palavras ordenadas no papel.

Revisitar a História, conhecer outros pontos de vista, outras culturas. Se reconhecer. Se tornar coautor ao ler a partir das suas referências, do seu contexto, do seu entorno.


Hoje é o Dia Nacional do Livro e aniversário de 208 anos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Livros, amores, livros. Livro é amor. Dê livros, compre livros, troque livros, frequente as bibliotecas, compartilhe versos! Salve a Palavra!

Biblioteca Nacional do Brasil

Biblioteca Nacional, foto do site da Biblioteca
Biblioteca Nacional
Av. Rio Branco, 219 - Centro
Rio de Janeiro - RJ, 20040-008

Site: www.bn.gov.br

22.8.18

Poesia das Meninas - Conceição Evaristo

O prazer de descobrir uma autora e se apaixonar. E a vergonha de não ter conhecido antes. A poesia de Conceição Evaristo me arrebatou, me encantou.

Acabei de comprar seu livro Poemas da recordação e outros momentos (Editora Malê, 2017) e estou lendo apenas 3 poemas por dia, para adiar o fim da leitura. É tão bom que não quero que acabe.

Vencedora do prêmio Jabuti de 2004 com seu livro Olhos d’água, em entrevista concedida a Djamila Ribeiro para a revista CartaCapital, Conceição Evaristo aponta que "as feministas brancas usam uma máxima quando elas falam que escrever é um ato político. Para nós mulheres negras, escrever e publicar é um ato político." Sua visão crítica sobre o sistema literário (editoras, bibliotecas, críticos, livrarias, etc.) é preciso. A hegemonia do homem branco no cenário literário é clara. O que se verifica facilmente observando a formação do quadro de imortais da ABL, protegido por suas exceções. Ou, ainda, quando se constata que a edição de 2018 da Flip, evento que começou em 2003, é a que finalmente apresenta maior diversidade. Em tempo, Conceição se candidatou esse ano para a ABL. Uma boa oportunidade da Academia chegar finalmente em 2018.

Conceição vem sendo muito bem-sucedida nesse ato político de escrever e publicar. Ano passado toda sua obra foi reeditada. A Doutora em literatura comparada pela UFF, transita com fluidez pela poesia e pela prosa. Sua produção literária não se restringe a temas prosaicos. Trata do dia-a-dia e do amor, mas trata também da mulher negra, da história dos negros. É uma escritora gigante, que aborda temas áridos, mas de discussão necessária, transformando palavras em entidades livres, quase táteis, que se entrelaçam criando um tecido tão forte quanto delicado. Abaixo um de seus poemas.



VOZES-MULHERES
(de Conceição Evaristo)

A voz de minha visavó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela

A minha voz ainda
ecoa Versos perplexos
com rimas de sangue
             e
             fome.

A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem - o hoje - o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.


20.8.18

em revoada

Sou capaz até mesmo de te olhar com cílios lânguidos, língua melíflua e afirmar displicente com palavras em revoada que os gatos ouvem seu silêncio e a cama aninha e acalanta seus versos vivos que vibram na sala, no quarto, na pitangueira. Sou capaz porque no espelho somos um, você e eu.



15.8.18

Poesia das Meninas - Fal Azevedo

Fal Azevedo é uma escritora e tradutora paulista. Conheci a Fal em 2003 através de seu blog "Drops da Fal". Criado pela escritora, o Drops foi um dos mais importantes no cenário brasileiro.

Naquele momento pré-Facebook, os livros de visitas dos sites eram bastante utilizados. O da Fal virou rapidamente uma animadíssima comunidade. Ali vários blogueiros conheceram uns aos outros, laços de amizade foram criados - e mantidos - e várias vezes contatos virtuais se tornaram presenciais.

Porque a Fal é agregadora, acolhedora. Ela responde todo mundo e todo mundo se sente especial. É um dom. Onde ela bota as mãos a leveza se faz presente. Mesmo no romance em que fala sobre a vida depois da morte precoce do marido.

Seu texto é envolvente, fluido. É fácil se reconhecer nos personagens. E essa identificação atrai.

Não há em sua escrita espaço para pedantismos e textos herméticos. São crônicas perfeitas dos dias de hoje. Na primeira ou na terceira pessoa, a figura da mulher - das mulheres, somos muitas - se apresenta de forma honesta, direta e a partir da ótica de uma mulher. Não há ativismos, bandeiras não são levantadas. O retrato feito ali do nosso dia-a-dia, intencional ou não, faz esse papel, dá voz a mulher de hoje.

No prelo, dois títulos: Como ensinar um idiota a dançar e Faço chá de hortelã e espero que fique tudo bem. A pré-venda já começou. A autora tem 5 livros já publicados: Crônicas de quase amor, O nome da cousa, Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite, Sonhei que a neve fervia e Todo mundo adora saturno.


Nunca mais vi meu amigo, meu amigo nunca mais me viu

Uma vez eu me despedi do maior amigo que já tive na vida.

Era uma sala, não, era uma espécie de vestíbulo, todo verde.

Eu, no pé da escada, a madeira pintada de branco, minha calça de linho cor de abóbora; ele a alguns passos de mim. Foi um ou dois dias antes do avião; aquela cidade era o centro do mundo; aquela dor era o meu peito; ele estava noivo e usando uma camiseta cinzenta; eu, sem rumo e de sapatos azuis; ele vinha partindo meu coração há mais de uma década, partindo meu coração, partindo meu coração, partindo meu coração, estilhaçando meu coração.

Ele me disse alguma coisa, eu disse blablablá, ele virou as costas e saiu dando passos largos, e quando vi a nuca dele, meio cor de rosa, meio creme, o cabelo alourado, raspado, encontrando a pele fininha, soube que nunca mais ia vê-lo.

Naquela hora, naquele exato momento, eu disse a mim mesma, disse, disse, disse, disse, disse, disse, disse, eu disse: “Nunca mais vamos nos ver”.

Pelas décadas seguintes nos encontramos algumas vezes, um trampo aqui, um esbarrão em um café ali.

Mas nunca mais vi meu amigo, meu amigo nunca mais me viu.

E da longa, muito mesmo, lista de homens que não me quiseram, ele é o retrato pendurado na parede, tantos anos, tantos anos, tantos anos.




28.7.18

Raízes

enraizar-se no espaço
em mim mesma
com a resignificação
de cada objeto
cada móvel
cada pensamento

caber novamente
casulo pleno
paredes repletas
de luz
de luz
de cor

a vida pulsa em
brancos e plantas
nas patas da cã
tatuadas no chão
com a terra
do jardim
que explode
em avencas

há vida
a vida pulsa

Museo Frida Kahlo 

25.7.18

Poesia das Meninas - Christiana Nóvoa

A carioca Christiana Nóvoa é autora do livro Breviário das pequenas horas (Ed. Patuá). Tem poemas citados no romance Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa (Vencedor do Prêmio Fernando Namora 2013, Portugal) e em diversas revistas de Literatura e Poesia. Desde 2005 publica seus textos no blog Nóvoa em Folha: http://novoaemfolha.com


 a náusea .



sinto em mim as dores
das poetas mortas
seus caminhos tristes
seus amores vãos

vejo em outras mãos
agora tão minhas
suas vidas linhas
mal-traçadas tortas

e as formas tão certas
da sua poesia
fiel companhia
das noites desertas

páginas vazias
artérias abertas
na insana sangria

;

a guerra perdida
e o gozo perverso
de um verso suicida



Christiana Nóvoa
Breviário das Pequenas Horas - Christiana Nóvoa

18.7.18

Poesia das Meninas - Tatiana Nascimento


A brasiliense Tatiana Nascimento é escritora, compositora, cantora. Criou com a poeta Bárbara Esmenia a Padê Editorial, uma editora artesanal de livros caseiros, voltada para a publicação de autoras negras periféricas, lésbicas, fora dos grandes circuitos literários. Tatiana cria e realiza.

a dança


“qual é a música, maestro?”

eu ainda tô aprendendo
a te amar
a não contar as horas
não chorar demoras
nem temer recusa

desalimentar expectativas difusas
(profusão de análises semânticas
dum “oi” que significa só ele
mesmo: “oi”)

eu ainda tô aprendendo
a me perdoar
não ter falado um tanto
(ou ter falado tanto)
por ter errado tanto
quanto você
por me machucar

(y com certeza um dia
me perdôo por te
machucar)

eu ainda tô aprendendo
a tatear a densidade leve do ar
nessa ponte que erguemos entre
o meu y o teu
silêncio
a tua y a minha
ausência
a histórica
carência
a memória da
latência
a querência da
trajetória que tentamos
trilhar juntas mesmo em tanta
perdição

y inda tô desaprendendo
o teu mais que meu
desapego
y el mío mais que el tuyo
celo

a esquecer
o que não
tem per
dão

não existe mais máquina do tempo
depois dos 32 (anos, dentes, anéis de
saturnos, casório-y-separação, DRs y des
ilusão)

mas talvez tem mágica no vento capaz de
dar uma pausa no tudo que aconteceu depois
que eu viajei pra salvador y você cantou,
no caminho do aeroporto,

“nunca mais
vou gostar de você
nunca mais”

.

ou se não uma pausa, só:
dissolver o mal-estar,
se não dissolver só:
nos lembrar:

que num tem mal-estar maior que aquele afeto doido que foi/fez
sentido. que um dia caiu. que se machucou. que joelho ralou.
y que um dia virou outro afeto: uma noite se desvelou.

y olha:

fosse aquele tempo eu cobria com babosa
machucada y mel (melhores cicatriz
antes) o joelho ralado do afeto
eu colava um bandeid em
cima y até dava um

bejinho

pra sarar

mais depressa

mas como o tempo é esse agora tô mirando
a cicatriz pra lembrar que
tudo que corre
pode tropeçar, pode cair,
pode escorregar. ou pode ganhar
impulso pra voar, na beira dos dois gumes:
planar. pousar.

demorou uma era, bissexta²,
pra eu poder me rever do seu lado
y tô reaprendendo andar no meu passo
(que c zombeteira troca com o seu). sipá um dia

nesse tempo-espaço

a gente

até

volta a se bailar.

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Tatiana Nascimento e Djamila Ribeiro no programa Espelho, de Lázaro Ramos


15 anos de Dedo de Moça!

Já passou de meia noite, o que significa que o Dedo de Moça está oficialmente no ar há 15 anos!

Foi chão até aqui. A internet mudou, as redes sociais surgiram e os blogs ficaram meio de lado com essa novidade. Passado o entusiasmo e mais do que consolidada a integração das redes sociais, uma questão se colocou para quem apresenta seu trabalho também online: as redes sociais não indexam o material produzido. Aquele texto maravilhoso, aquele artigo contundente, aquela foto que emociona, tudo, tudo fica online, mas não é fácil encontrar.

E é justamente essa a grande vantagem dos blogs: uma indexação funcional, um registro estável de produção de conteúdo. As mídias disponíveis para produção, exposição e compartilhamento de conteúdo se multiplicaram. Plataformas para vídeo, áudio e fotos despontaram. Uma transformação que tornou a experiência na internet mais rica, mais atraente, para produtores e consumidores de conteúdo online. O Dedo de Moça passou e passa por essa metamorfose.

O blog continuará voltado principalmente para poesia e prosa. A questão que mais me mobiliza no momento - a visibilidade das poetas brasileiras vivas - ganha uma coluna fixa, o Poesia das Meninas, para publicar essas autoras.

Continuarei publicando meus poemas e minhas crônicas.

A página no Facebook é o espaço para a reflexão sobre a palavra, o mercado editorial, as edições independentes, a atuação da literatura nas questões sociais, nos debates políticos. E amenidades também, por supuesto.

E muito em breve uma incursão também no YouTube, mostrando a cara e com direito a uma bela parceria.

Quinze anos hoje. E espero no mínimo mais quinze pela frente!

Priscila Andrade Cattoni
Eu era assim.



10.7.18

Fulana alega

fulana alega
            Ser mulher é foda
segundo ela
  Ser mulher é punk
diz ela
  Jornada dupla, tripla
mulher diz que
  Salário mais baixo para as mesmas competências
mas ela estava sozinha?
  Homens (e algumas muitas mulheres) que acham que só têm que ajudar
mas ela bebeu... tava drogada?
  Na casa
também olha a roupa que ela estava usando!
  Com os filhos
é pistoleira! Tá inventando pra aparecer!
  Com a pensão
não existe cultura do estupro!
  Ser mulher é um desafio.
o suposto agressor
  Eu desafio.


Priscila Andrade Cattoni por ela mesma

2.7.18

Hera

meus cabelos são brancos desde os vinte e poucos
conto a mesma história para a mesma pessoa
várias e várias e várias vezes
porque esqueço que contei
esqueço
o nome da pessoa
e das pessoas da história
e a história
não sei o que jantei
ou almocei
ou se almocei
minha memória é um desfiladeiro
que faz eco
eco
é?
ecoa
o quê mesmo?
minha memória
faz eco, eco.
é um branco que me deu
se alastra como hera
sobrou espaço só para o amor.


27.6.18

Poesia das Meninas - Maria Carolina de Jesus

Procuro numa livraria online de grande porte o Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Encontro na seção de literatura infantojuvenil.

Uma livraria põe Maria Carolina de Jesus como literatura infantojuvenil. Uma livraria que também vende celulares, consoles e games. Para essa livraria, me parece, é tudo produto, no sentido comercial da palavra. E produto que o vendedor não precisa conhecer, ou Quarto de Despejo não estaria em literatura infantojuvenil. Para ser absolutamente justa, Diário de Bitita estava em literatura brasileira, menos mau.

Atualmente institutos de porte como a Biblioteca Nacional, o Instituto Moreira Salles, o Museu Afro Brasil, o Arquivo Público Municipal de Sacramento e o Acervo de Escritores Mineiros (UFMG) têm a custodia da produção da escritora. Espero que a prosa, a poesia e as letras de música de Maria Carolina extravasem os limites da Academia e dos Institutos e se tornem parte de nossas estantes e nossas leituras.

Então apesar de hoje ser quarta, aqui dia de poesia, vou postar alguns trechos de Quarto de Despejo, a prosa mais poética que já vi.


“As oito e meia da noite eu já estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com barro podre. Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quanto estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.”

“Quando eu vou na cidade tenho a impressão que estou no paraizo. Acho sublime ver aquelas mulheres e crianças tão bem vestidas. Tão diferentes da favela. As casas com seus vasos de flores e cores variadas. Aquelas paisagens há de encantar os olhos dos visitantes de São Paulo, que ignoram que a cidade mais afamada da América do Sul está enferma. Com as suas úlceras.  As favelas.”


“Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reencarnações, eu quero voltar sempre preta."



Maria Carolina de Jesus e a capa da primeira edição de Quarto de Despejo



26.6.18

Tear

tecer o sonho
escolher os fios
as cores
os pontos

no caminho
o nada
o desvio
desfio
os pontos dados
desfio as cores
estico os fios
frios
estáticos
como a luz
          branca em linha reta
desafio
o caminho


19.6.18

HIV: carga viral indetectável = intransmissível.

Sobre HIV: carga viral Indetectável = Intransmissível.

Bruno e eu somos fomos prova disso. Enquanto tentávamos engravidar ele não me contaminou. Estou aqui, firme e forte, com meus exames negativos.

Mas atenção: as outras DSTs não têm essa característica então, sim, é obrigatório usar a camisinha mesmo que a sua carta metade tenha carga viral indetectável.

Do perfil da média Marcia Rachid: "Um estudo denominado HPTN 052 foi planejado para investigar se o tratamento precoce reduziria a transmissão do HIV entre casais sorodiferentes ou sorodiscordantes (quando um tem o vírus e o outro não). Evidentemente, havia critérios rigorosos e foi comprovado que tratar cedo, com contagem de CD4 mais alta, era melhor que aguardar e ocorria redução da transmissão. Outros estudos bem conduzidos, como o PARTNER, vieram comprovar o impacto do tratamento eficaz (carga viral suprimida) na redução da transmissão do HIV. A divulgação de estudos é feita por meio de publicações científicas, apresentações e discussões em conferências nacionais e internacionais.

Há pessoas que vivem com HIV e desconhecem que deixam de transmitir o vírus quando mantêm, persistentemente, a carga viral indetectável.

Médicos nem sempre repassam esse dado. Alguns consideram que poderia ser estímulo à interrupção do uso do preservativo, porém não cabe ao profissional esse prejulgamento do que cada um fará com a informação. A evidência científica de que há real impacto na redução da transmissão do vírus deve ser divulgada.

Esses estudos se referem, exclusivamente, ao HIV e não a outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e, neste caso, é a camisinha que funciona como “proteção de barreira” dentro das demais medidas atuais de prevenção combinada."


14.6.18

Branca

a chuva mansa
a vista branca
o pensamento avança

para lugar nenhum

Kazimir Malevich, Quadrado branco sobre fundo branco, 1918.
Conservada no Museum of Modern Art, em Nova Iorque.



13.6.18

Poesia das Meninas - Ana Rüsche

Conheci Ana Rüsche quando produzia a Flap! (Festival Literário Alternativo à Paraty) aqui no Rio de Janeiro. Ana era uma das co-organizadoras do evento em São Paulo. Gosto muito de seu texto direto, reto, forte. Uma voz feminina. O poema A Ceramista faz parte do livro Furiosa, que está disponível para download gratuito em seu site.

a ceramista - de Ana Rüsche


agora já são cinco privês
antes era um prédio respeitável

escavo escadas ante a mudez
do elevador, guilhotina pichada

no pó suspenso no ar
catedrais de coisas abandonadas

e lá dentro chafurdo com minhas duas
mãos nas peças de cerâmica

e como parteira tiro do barro
um caco, um vaso, um sonho, um sopro


Rüsche, A. (2016). Furiosa. São Paulo: Edição da autora.


7.6.18

Estação da carioca - de Alice Sant'Anna

Poesia das Meninas
Observando a prevalência de autores masculinos em premiações, coletâneas e antologias, resolvi usar esse espaço também para apresentar o trabalho de outras poetas. Quarta-feira agora é dia de poesia das meninas no Dedo de Moça.  Escrita, em áudio ou vídeo.

O poema Estação da Carioca, de Alice Sant'Anna torna-se um cinepoema onírico, leve e cativante. O vídeo conta com direção de Jô Serfaty, co-direção de Geraldine Pasztor e Jonas Sá e concepção da própria Alice com os três..

2.6.18

Passarim



O gato estava tão animado com o brinquedinho que fui ver qual era, porque as fontes de entretenimento de um bichano têm que ser infinitas, pelo bem das outras criaturas que habitam a casa. Bem, não era um brinquedo. Pausa. Respira, inspira, expira. Era um passarinho. Morto. E a cozinha a mais perfeita tradução de uma chacina.
O passarinho foi embalado e está no freezer. Espero que sua alma me perdoe mas o caminhão do lixo só passa na segunda-feira e enterrar no quintal de uma casa que tem cinco gatos e um cachorro nunca, nunca dá certo.
O gato está puto comigo, acha que a sacana sou eu.
Acho que vou pegar a cachorra e passear até esquecer. Ou até, muito provavelmente, o novo passarinho morto.


24.5.18

SORODISCORDANTE

Para Bruno Cattoni

Discordância de sorologias,
encontro de afetos.
Nossas histórias, projetos

- conjuntos, unos.

Que nem tudo é luto,
nem tudo é luta,
nem todo desfraldar é de bandeiras.
Nem toda discordância é ausência.

Apologia do amor positivo.

Construção do dia a dia,
sólido.
Pequenas intimidades
povoam a casa.
O amor, positivamente,
une, congraça.

Este poema está na antologia Tente Entender o que Tento Dizer

Capa do livro Tente Entender o que Tento Dizer e cartaz do lançamento do livro no Rio de Janeiro




















TENTE ENTENDER O QUE TENTO DIZER
Organizador: Ramon Nunes Mello
Editora: Bazar do Tempo


sinopse: Uma coletânea de poemas em torno do tema HIV/Aids não deixa de ser uma radiografia da trajetória do vírus e suas repercussões no corpo, na sociedade e na própria poesia, desde os anos 1980, momento que marcou a explosão da epidemia, até as experiências da chamada era pós-coquetel. Os noventa e sete poetas reunidos nessa edição

2.1.18

Age

O ano não faz você. Você sobrevive - ou não - ao ano. Você se joga, corre, respira fundo, mergulha e volta, cai e levanta, você leva o ano. Com saudades, ausências, amores, novidades, lembranças, mudanças. Só não pode parar. Não pare. Nunca. Parar esfria. E aí é aquele aquecimento todo de novo. Não pare. Ande, pense, durma mas não pare. Você faz o ano. Apesar de.

Não pare. A vegetação te envolve e o tempo te engole.

Calcinha branca, vermelha, amarela, pular sete ondinhas, sementes de romã. Quer acreditar? Acredite. Mas faça. Calcinhas coloridas, ondas puladas e sementes de romã são apenas calcinhas coloridas ondas puladas e sementes de romã se você não agir. Saiba o que quer, trace metas, planeje, recue quando necessário. E avance. Agir, apesar de.

Age.


1.12.17

Prêmio João Canuto 2017

O jornalista, poeta e ativista Bruno Cattoni  será homenageado, assim como Vic Militello, no Prêmio João Canuto deste ano. Dia 11 de dezembro, segunda-feira, às 18h, no Teatro I do CCBB (RJ). Além da importante entrega de 08 (oito) prêmios à relevantes pessoas e instituições, show com Simone Mazzer, Rafael Erê e Valéria Houston. ENTRADA FRANCA!


4.11.17

Poema sobre o Vazio - de Bruno Cattoni

Poema sobre o vazio

Escrevi um milhão de poemas no tempo-espaço de uma vida
Sobram seis versos.
Afiei um milhão de facas nas pedras que se me interpuseram
Sobra a estrada.
Matei milhares de animais para matar minha fome
Sobra um ser de nada
Soletrei tantos alfabetos que nem mais me comunico
Sobra a palavra amor.
Expulso do tempo, ando com um estrépito de asas no crânio
Não sei qual delas é par da alma, nem quando
Erguer-se-á, pela janela dos olhos, no vento que não enxergo.

CATTONI, Bruno. Osso (na cabeceira das avalanches). Rio de Janeiro: 7Letras, 2005


24.6.17

Câncer. Você tem o direito de saber.

Você tem o direito de saber. O tratamento, o porquê dessa escolha, quais as medicações, como elas atuam, quais as reações adversas possíveis (mesmo as improváveis), quais as sequelas possíveis (mesmo as improváveis), quais as sequelas certas.

Você tem o direito de saber se há outras opções de tratamento. Você tem o direito de escolher assim como tem o direito de arcar com as consequências, positivas ou negativas, das suas escolhas.

Você tem o direito de saber seu prognóstico, bom ou ruim. Você tem o direito também de escolher não saber. E cabe sim ao médico respeitar e atender sua decisão. A vida é sua, não é dele.

Você tem o direito de saber sua expectativa de vida. Você tem o direito de escolher não saber sua expectativa de vida. Com ou sem câncer, você tem sonhos, projetos, possivelmente uma família ou amigos, uma vida enfim. E tem todo o direito de saber quanto tempo ainda tem e se tem para se planejar e deixar tudo como você quer. Você tem o direito de gerir a sua vida e só com informação e informação correta você poderá fazer isso de forma eficiente, eficaz, satisfatória e, por que não, prazerosa.

Você tem o direito de saber. Você tem direitos. Você. É a sua vida. Exija.

Inca RJ
Praça Cruz Vermelha, 23 - Centro - 20230-130 - Rio de Janeiro - RJ - Tel. (21) 3207-1000

Inca SP

Onde tratar pelo SUS

Disque Saúde
136


4.4.17

Mexeu com uma mexeu com todas. Chega de assédio!

#chegadeassédio #MexeuComUmaMexeuComTodas Uma denúncia que não é anônima, feita através de uma coluna em um jornal que concedeu o direito de resposta no mesmo espaço e junto, e que conta com o suporte imediato de colegas da denunciante e de profissionais de todas as áreas, inclusive advogadas, está longe de um linchamento virtual. Não tem qualquer relação com linchamento virtual. Aos meus amigos e conhecidos homens e minhas amigas e conhecidas mulheres que ainda reproduzem machismo e que criticam feminismo sem saber do que se trata sugiro que se informem, que reflitam e, principalmente, que aprendam a ouvir. As mulheres estão finalmente falando. Ouçam. E não, não pensem que "podia ser minha mulher ou minha filha". Suas mulheres e filhas não devem ter privilégios, prerrogativas ou mais direitos que as outras mulheres. Pensem que são seres humanos como vocês e que têm que ser respeitadas.
Tem que botar a boca no trombone sim! De forma responsável, com suporte, com orientação legal para não virar o algoz da história. Mas tem que por a boca no trombone sim!

27.12.16

Meta?

Eu vou como flexa sem virgula sem ar sem oposição até o fim do ponto mais ínfimo fim da meta.

meta é o que falta na sua meta. Defina sua meta, mergulha em sua meta, se travista em sua meta para descobrir que só há você e a fantasia. E a meta?
Defina sua meta, definhe sua meta, mesquinha em sua meta, traída em sua meta para descobrir que não há meta nem você, nem fantasia. E a meta?
A meta é ver que não há. Ou há.

25.11.16

Interregno

No curto espaço de tempo
entre o pátio e o quarto,
no átimo do passo,
no intervalo da piscada,
no hiato do gole,
no lapso do suspiro
espero.


24.11.16

Mas é só um sitezinho...

Tudo isso? Mas é só um sitezinho...
Tudo isso? Mas é só um sitezinho...
Conversando com a moça que fez as flores do meu casamento, pedi o endereço do site dela. Meio sem graça, respondeu que o site era o que estava faltando, porque estavam cobrando, segundo ela, muito caro. 

Respirei fundo, entoei um mantra e perguntei: o que você chama de muito caro e o que teria no seu projeto? Ela me informa que ainda está se recuperando do choque de duas propostas "careréssimas": R$1.200,00 e R$1.500,00. Tive pena. Dela, de mim. Desse mercado favelizado e sem noção do valor das coisas, do custo do trabalho, da remuneração digna para as equipes. E respondi que por esses valores está de graça, ela devia pegar já! Lembrando claro, de todos os clichês que habitam o universo do nonsense: o barato que sai caro, por exemplo. E lembrando que o maravilhoso site gratuito que a companhia xyz oferece é... Pegadinha do Malandro! Você não tem o seu site, você tem a hospedagem e o domínio (nome). Se encontrar hospedagem mais barata... bem, azar o seu, porque tudo o que você fez ali na plataforma baratinha, gratuitinha e sacaninha não é seu, fica ali. Converse com um profissional sério. Procure uma solução viável e que não vá criar mais trabalho. Converse comigo. Quer conversar? Estou aqui, converso com você. Não, não trabalho de graça, mas posso construir com você um modelo para essa relação comercial que funcione para nós dois. Ou te indicar outro profissional.



18.11.16

Só sei que nada sei?

Meu marido começou um novo ciclo de químio ontem. Na sala em que a medicação é tomada qualquer dúvida sobre a cara do câncer se dissipa. O câncer não tem cara: homens, mulheres, idosos, jovens, crianças, gordos, magros etc.

Nessa clínica uma das paredes da sala é toda de vidro, a vista é um pátio com jardim e muitos passarinhos que vêm encher o bucho com as migalhas que ficam aqui e ali, dos almoços e lanches dos funcionários. Quase bucólico. É acolhedor. Com a sala ampla, bem iluminada, a gente quase esquece onde está. Mas um olhar mais atento e demorado aponta um desfibrilador a postos no cantinho.

A TV desfila a prisão dos ex-governadores do Rio, Cabral e Garotinho. Ninguém está interessado. É quase uma trilha incidental o som baixinho que vem do noticiário da TV.

Acompanhando essa primeira sessão desse novo ciclo entendo, finalmente, que os remédios auxiliares (anti-histamínico, antiemético) são ministrados para todos os pacientes, sem exceção. A menos, claro, que o paciente tenha alguma intolerância a essas medicações. São medicações preventivas para evitar ou amenizar os efeitos que a químio pode dar em alguns pacientes como alergias e vômitos. Fico pensando que isso é ótimo, que bom que podemos tentar evitar. Mas fico pensando, ao mesmo tempo, se não estamos evitando muito, se não estamos nos anestesiando muito, se na verdade estamos fugindo não da dor ou do mal estar, mas da vida. Cair é da vida. Caiu? Levanta. Não estou dizendo que é fácil, ninguém disse. Me pergunto se quando evitamos cada mísero tropeço não vamos abrindo mão, ao mesmo tempo, da capacidade de improviso, de um raciocínio mais ágil, de autonomia no que diz respeito ao nosso corpo, a nossa saúde, as decisões que devem ser só nossas sobre o nosso bem estar. Se não estamos abrindo mão de um compromisso que traz a responsabilidade pelas consequências mas mantém as rédeas da nossa vida em nossas mãos, minimamente que seja.

Nessas idas e vindas a consultórios, laboratórios, clínicas de rádio e químio me impressionou o quanto as pessoas delegam sua integridade física. Ouvindo as conversas entre os pacientes percebi que a maioria não sabe e não quer saber o nome do remédio que toma:

- Eu tomo o "vermelho". E você?

- Eu tomo o "branco". Com o branco o cabelo não cai, né?

Vermelho e branco são as cores das embalagens. Parece que predomina um pensamento mágico de que ignorar os manterá fora do alcance de reações adversas, da doença.

Eu? Tomo. Para dor de cabeça, relaxante muscular, para dormir, para ansiedade. Tomo. Não sou contra medicação. O que me espanta é a escolha por não saber. Não saber da própria vida. Ao mesmo tempo, as revistas mais lidas nas salas de espera são as de fofoca. Dá o que pensar...


13.11.16

Vamos todos morrer mesmo

"Vamos todos morrer mesmo", diz o comentarista de rede social. Tratando a fala com o tom displiscênte que ele acredita que o assunto deve ter. A morte do outro. A tristeza do outro. O outro. Foda-se o outro: "Farinha poca meu pirão primeiro".

Então, caro comentarista de rede social, de grande portal, de fila de padaria de bairro. Sabe que eu nem sinto pena de você não perceber que para o resto da humanidade você é o 'outro', ou seja, você é aquele ente invisível e irrelevante que não merece respeito nem reverência nem durante a vida e nem durante a morte. E a sua morte vai chegar. Solitária e irreverente, provavelmente irrelevante. E a doença vai chegar de braços dados com toda a solidão e silêncio possíveis e que sequer imaginávamos.


Aí... aí talvez eu, por prazer sádico demandado pela mágoa represada, me dê o prazer de falar, olhos cravados nos seus (mas vendo atrás, sua invisibilidade é incontornável), o prazer de falar, com o tom displicente que a sua irrelevância tem que "Vamos todos morrer mesmo." Depois você me conta


Ladrilho Hidráulico ou por quê procrastinar a decisão de continuar procrastinando? Ou não


Enquanto tomo o chá de hortelã,
o gato mia,
e a chuva cai,
me pergunto:

Chá de chia
ou sopa Tai?

Agonia besta
importa é a sesta depois do almoço.

Olhos despertos:
Ladrilhos hidráulicos no chão
da lavanderia?
Ladrilhos Hidráulicos nas paredes
do jardim da entrada?
Ladrinhos nos banheiros.

Hidráulicos – os ladrilhos, não os banheiros.