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28.7.18

Raízes

enraizar-se no espaço
em mim mesma
com a resignificação
de cada objeto
cada móvel
cada pensamento

caber novamente
casulo pleno
paredes repletas
de luz
de luz
de cor

a vida pulsa em
brancos e plantas
nas patas da cã
tatuadas no chão
com a terra
do jardim
que explode
em avencas

há vida
a vida pulsa

Museo Frida Kahlo 

25.7.18

Poesia das Meninas - Christiana Nóvoa

A carioca Christiana Nóvoa é autora do livro Breviário das pequenas horas (Ed. Patuá). Tem poemas citados no romance Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa (Vencedor do Prêmio Fernando Namora 2013, Portugal) e em diversas revistas de Literatura e Poesia. Desde 2005 publica seus textos no blog Nóvoa em Folha: http://novoaemfolha.com


 a náusea .



sinto em mim as dores
das poetas mortas
seus caminhos tristes
seus amores vãos

vejo em outras mãos
agora tão minhas
suas vidas linhas
mal-traçadas tortas

e as formas tão certas
da sua poesia
fiel companhia
das noites desertas

páginas vazias
artérias abertas
na insana sangria

;

a guerra perdida
e o gozo perverso
de um verso suicida



Christiana Nóvoa
Breviário das Pequenas Horas - Christiana Nóvoa

18.7.18

Poesia das Meninas - Tatiana Nascimento


A brasiliense Tatiana Nascimento é escritora, compositora, cantora. Criou com a poeta Bárbara Esmenia a Padê Editorial, uma editora artesanal de livros caseiros, voltada para a publicação de autoras negras periféricas, lésbicas, fora dos grandes circuitos literários. Tatiana cria e realiza.

a dança


“qual é a música, maestro?”

eu ainda tô aprendendo
a te amar
a não contar as horas
não chorar demoras
nem temer recusa

desalimentar expectativas difusas
(profusão de análises semânticas
dum “oi” que significa só ele
mesmo: “oi”)

eu ainda tô aprendendo
a me perdoar
não ter falado um tanto
(ou ter falado tanto)
por ter errado tanto
quanto você
por me machucar

(y com certeza um dia
me perdôo por te
machucar)

eu ainda tô aprendendo
a tatear a densidade leve do ar
nessa ponte que erguemos entre
o meu y o teu
silêncio
a tua y a minha
ausência
a histórica
carência
a memória da
latência
a querência da
trajetória que tentamos
trilhar juntas mesmo em tanta
perdição

y inda tô desaprendendo
o teu mais que meu
desapego
y el mío mais que el tuyo
celo

a esquecer
o que não
tem per
dão

não existe mais máquina do tempo
depois dos 32 (anos, dentes, anéis de
saturnos, casório-y-separação, DRs y des
ilusão)

mas talvez tem mágica no vento capaz de
dar uma pausa no tudo que aconteceu depois
que eu viajei pra salvador y você cantou,
no caminho do aeroporto,

“nunca mais
vou gostar de você
nunca mais”

.

ou se não uma pausa, só:
dissolver o mal-estar,
se não dissolver só:
nos lembrar:

que num tem mal-estar maior que aquele afeto doido que foi/fez
sentido. que um dia caiu. que se machucou. que joelho ralou.
y que um dia virou outro afeto: uma noite se desvelou.

y olha:

fosse aquele tempo eu cobria com babosa
machucada y mel (melhores cicatriz
antes) o joelho ralado do afeto
eu colava um bandeid em
cima y até dava um

bejinho

pra sarar

mais depressa

mas como o tempo é esse agora tô mirando
a cicatriz pra lembrar que
tudo que corre
pode tropeçar, pode cair,
pode escorregar. ou pode ganhar
impulso pra voar, na beira dos dois gumes:
planar. pousar.

demorou uma era, bissexta²,
pra eu poder me rever do seu lado
y tô reaprendendo andar no meu passo
(que c zombeteira troca com o seu). sipá um dia

nesse tempo-espaço

a gente

até

volta a se bailar.

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Tatiana Nascimento e Djamila Ribeiro no programa Espelho, de Lázaro Ramos


15 anos de Dedo de Moça!

Já passou de meia noite, o que significa que o Dedo de Moça está oficialmente no ar há 15 anos!

Foi chão até aqui. A internet mudou, as redes sociais surgiram e os blogs ficaram meio de lado com essa novidade. Passado o entusiasmo e mais do que consolidada a integração das redes sociais, uma questão se colocou para quem apresenta seu trabalho também online: as redes sociais não indexam o material produzido. Aquele texto maravilhoso, aquele artigo contundente, aquela foto que emociona, tudo, tudo fica online, mas não é fácil encontrar.

E é justamente essa a grande vantagem dos blogs: uma indexação funcional, um registro estável de produção de conteúdo. As mídias disponíveis para produção, exposição e compartilhamento de conteúdo se multiplicaram. Plataformas para vídeo, áudio e fotos despontaram. Uma transformação que tornou a experiência na internet mais rica, mais atraente, para produtores e consumidores de conteúdo online. O Dedo de Moça passou e passa por essa metamorfose.

O blog continuará voltado principalmente para poesia e prosa. A questão que mais me mobiliza no momento - a visibilidade das poetas brasileiras vivas - ganha uma coluna fixa, o Poesia das Meninas, para publicar essas autoras.

Continuarei publicando meus poemas e minhas crônicas.

A página no Facebook é o espaço para a reflexão sobre a palavra, o mercado editorial, as edições independentes, a atuação da literatura nas questões sociais, nos debates políticos. E amenidades também, por supuesto.

E muito em breve uma incursão também no YouTube, mostrando a cara e com direito a uma bela parceria.

Quinze anos hoje. E espero no mínimo mais quinze pela frente!

Priscila Andrade Cattoni
Eu era assim.



10.7.18

Fulana alega

fulana alega
            Ser mulher é foda
segundo ela
  Ser mulher é punk
diz ela
  Jornada dupla, tripla
mulher diz que
  Salário mais baixo para as mesmas competências
mas ela estava sozinha?
  Homens (e algumas muitas mulheres) que acham que só têm que ajudar
mas ela bebeu... tava drogada?
  Na casa
também olha a roupa que ela estava usando!
  Com os filhos
é pistoleira! Tá inventando pra aparecer!
  Com a pensão
não existe cultura do estupro!
  Ser mulher é um desafio.
o suposto agressor
  Eu desafio.


Priscila Andrade Cattoni por ela mesma

2.7.18

Hera

meus cabelos são brancos desde os vinte e poucos
conto a mesma história para a mesma pessoa
várias e várias e várias vezes
porque esqueço que contei
esqueço
o nome da pessoa
e das pessoas da história
e a história
não sei o que jantei
ou almocei
ou se almocei
minha memória é um desfiladeiro
que faz eco
eco
é?
ecoa
o quê mesmo?
minha memória
faz eco, eco.
é um branco que me deu
se alastra como hera
sobrou espaço só para o amor.


27.6.18

Poesia das Meninas - Maria Carolina de Jesus

Procuro numa livraria online de grande porte o Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Encontro na seção de literatura infantojuvenil.

Uma livraria põe Maria Carolina de Jesus como literatura infantojuvenil. Uma livraria que também vende celulares, consoles e games. Para essa livraria, me parece, é tudo produto, no sentido comercial da palavra. E produto que o vendedor não precisa conhecer, ou Quarto de Despejo não estaria em literatura infantojuvenil. Para ser absolutamente justa, Diário de Bitita estava em literatura brasileira, menos mau.

Atualmente institutos de porte como a Biblioteca Nacional, o Instituto Moreira Salles, o Museu Afro Brasil, o Arquivo Público Municipal de Sacramento e o Acervo de Escritores Mineiros (UFMG) têm a custodia da produção da escritora. Espero que a prosa, a poesia e as letras de música de Maria Carolina extravasem os limites da Academia e dos Institutos e se tornem parte de nossas estantes e nossas leituras.

Então apesar de hoje ser quarta, aqui dia de poesia, vou postar alguns trechos de Quarto de Despejo, a prosa mais poética que já vi.


“As oito e meia da noite eu já estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com barro podre. Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quanto estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.”

“Quando eu vou na cidade tenho a impressão que estou no paraizo. Acho sublime ver aquelas mulheres e crianças tão bem vestidas. Tão diferentes da favela. As casas com seus vasos de flores e cores variadas. Aquelas paisagens há de encantar os olhos dos visitantes de São Paulo, que ignoram que a cidade mais afamada da América do Sul está enferma. Com as suas úlceras.  As favelas.”


“Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reencarnações, eu quero voltar sempre preta."



Maria Carolina de Jesus e a capa da primeira edição de Quarto de Despejo



26.6.18

Tear

tecer o sonho
escolher os fios
as cores
os pontos

no caminho
o nada
o desvio
desfio
os pontos dados
desfio as cores
estico os fios
frios
estáticos
como a luz
          branca em linha reta
desafio
o caminho


19.6.18

HIV: carga viral indetectável = intransmissível.

Sobre HIV: carga viral Indetectável = Intransmissível.

Bruno e eu somos fomos prova disso. Enquanto tentávamos engravidar ele não me contaminou. Estou aqui, firme e forte, com meus exames negativos.

Mas atenção: as outras DSTs não têm essa característica então, sim, é obrigatório usar a camisinha mesmo que a sua carta metade tenha carga viral indetectável.

Do perfil da média Marcia Rachid: "Um estudo denominado HPTN 052 foi planejado para investigar se o tratamento precoce reduziria a transmissão do HIV entre casais sorodiferentes ou sorodiscordantes (quando um tem o vírus e o outro não). Evidentemente, havia critérios rigorosos e foi comprovado que tratar cedo, com contagem de CD4 mais alta, era melhor que aguardar e ocorria redução da transmissão. Outros estudos bem conduzidos, como o PARTNER, vieram comprovar o impacto do tratamento eficaz (carga viral suprimida) na redução da transmissão do HIV. A divulgação de estudos é feita por meio de publicações científicas, apresentações e discussões em conferências nacionais e internacionais.

Há pessoas que vivem com HIV e desconhecem que deixam de transmitir o vírus quando mantêm, persistentemente, a carga viral indetectável.

Médicos nem sempre repassam esse dado. Alguns consideram que poderia ser estímulo à interrupção do uso do preservativo, porém não cabe ao profissional esse prejulgamento do que cada um fará com a informação. A evidência científica de que há real impacto na redução da transmissão do vírus deve ser divulgada.

Esses estudos se referem, exclusivamente, ao HIV e não a outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e, neste caso, é a camisinha que funciona como “proteção de barreira” dentro das demais medidas atuais de prevenção combinada."


14.6.18

Branca

a chuva mansa
a vista branca
o pensamento avança

para lugar nenhum

Kazimir Malevich, Quadrado branco sobre fundo branco, 1918.
Conservada no Museum of Modern Art, em Nova Iorque.



13.6.18

Poesia das Meninas - Ana Rüsche

Conheci Ana Rüsche quando produzia a Flap! (Festival Literário Alternativo à Paraty) aqui no Rio de Janeiro. Ana era uma das co-organizadoras do evento em São Paulo. Gosto muito de seu texto direto, reto, forte. Uma voz feminina. O poema A Ceramista faz parte do livro Furiosa, que está disponível para download gratuito em seu site.

a ceramista - de Ana Rüsche


agora já são cinco privês
antes era um prédio respeitável

escavo escadas ante a mudez
do elevador, guilhotina pichada

no pó suspenso no ar
catedrais de coisas abandonadas

e lá dentro chafurdo com minhas duas
mãos nas peças de cerâmica

e como parteira tiro do barro
um caco, um vaso, um sonho, um sopro


Rüsche, A. (2016). Furiosa. São Paulo: Edição da autora.


7.6.18

Estação da carioca - de Alice Sant'Anna

Poesia das Meninas
Observando a prevalência de autores masculinos em premiações, coletâneas e antologias, resolvi usar esse espaço também para apresentar o trabalho de outras poetas. Quarta-feira agora é dia de poesia das meninas no Dedo de Moça.  Escrita, em áudio ou vídeo.

O poema Estação da Carioca, de Alice Sant'Anna torna-se um cinepoema onírico, leve e cativante. O vídeo conta com direção de Jô Serfaty, co-direção de Geraldine Pasztor e Jonas Sá e concepção da própria Alice com os três..

2.6.18

Passarim



O gato estava tão animado com o brinquedinho que fui ver qual era, porque as fontes de entretenimento de um bichano têm que ser infinitas, pelo bem das outras criaturas que habitam a casa. Bem, não era um brinquedo. Pausa. Respira, inspira, expira. Era um passarinho. Morto. E a cozinha a mais perfeita tradução de uma chacina.
O passarinho foi embalado e está no freezer. Espero que sua alma me perdoe mas o caminhão do lixo só passa na segunda-feira e enterrar no quintal de uma casa que tem cinco gatos e um cachorro nunca, nunca dá certo.
O gato está puto comigo, acha que a sacana sou eu.
Acho que vou pegar a cachorra e passear até esquecer. Ou até, muito provavelmente, o novo passarinho morto.


24.5.18

SORODISCORDANTE

Para Bruno Cattoni

Discordância de sorologias,
encontro de afetos.
Nossas histórias, projetos

- conjuntos, unos.

Que nem tudo é luto,
nem tudo é luta,
nem todo desfraldar é de bandeiras.
Nem toda discordância é ausência.

Apologia do amor positivo.

Construção do dia a dia,
sólido.
Pequenas intimidades
povoam a casa.
O amor, positivamente,
une, congraça.

Este poema está na antologia Tente Entender o que Tento Dizer

Capa do livro Tente Entender o que Tento Dizer e cartaz do lançamento do livro no Rio de Janeiro




















TENTE ENTENDER O QUE TENTO DIZER
Organizador: Ramon Nunes Mello
Editora: Bazar do Tempo


sinopse: Uma coletânea de poemas em torno do tema HIV/Aids não deixa de ser uma radiografia da trajetória do vírus e suas repercussões no corpo, na sociedade e na própria poesia, desde os anos 1980, momento que marcou a explosão da epidemia, até as experiências da chamada era pós-coquetel. Os noventa e sete poetas reunidos nessa edição

2.1.18

Age

O ano não faz você. Você sobrevive - ou não - ao ano. Você se joga, corre, respira fundo, mergulha e volta, cai e levanta, você leva o ano. Com saudades, ausências, amores, novidades, lembranças, mudanças. Só não pode parar. Não pare. Nunca. Parar esfria. E aí é aquele aquecimento todo de novo. Não pare. Ande, pense, durma mas não pare. Você faz o ano. Apesar de.

Não pare. A vegetação te envolve e o tempo te engole.

Calcinha branca, vermelha, amarela, pular sete ondinhas, sementes de romã. Quer acreditar? Acredite. Mas faça. Calcinhas coloridas, ondas puladas e sementes de romã são apenas calcinhas coloridas ondas puladas e sementes de romã se você não agir. Saiba o que quer, trace metas, planeje, recue quando necessário. E avance. Agir, apesar de.

Age.


1.12.17

Prêmio João Canuto 2017

O jornalista, poeta e ativista Bruno Cattoni  será homenageado, assim como Vic Militello, no Prêmio João Canuto deste ano. Dia 11 de dezembro, segunda-feira, às 18h, no Teatro I do CCBB (RJ). Além da importante entrega de 08 (oito) prêmios à relevantes pessoas e instituições, show com Simone Mazzer, Rafael Erê e Valéria Houston. ENTRADA FRANCA!


4.11.17

Poema sobre o Vazio - de Bruno Cattoni

Poema sobre o vazio

Escrevi um milhão de poemas no tempo-espaço de uma vida
Sobram seis versos.
Afiei um milhão de facas nas pedras que se me interpuseram
Sobra a estrada.
Matei milhares de animais para matar minha fome
Sobra um ser de nada
Soletrei tantos alfabetos que nem mais me comunico
Sobra a palavra amor.
Expulso do tempo, ando com um estrépito de asas no crânio
Não sei qual delas é par da alma, nem quando
Erguer-se-á, pela janela dos olhos, no vento que não enxergo.

CATTONI, Bruno. Osso (na cabeceira das avalanches). Rio de Janeiro: 7Letras, 2005


24.6.17

Câncer. Você tem o direito de saber.

Você tem o direito de saber. O tratamento, o porquê dessa escolha, quais as medicações, como elas atuam, quais as reações adversas possíveis (mesmo as improváveis), quais as sequelas possíveis (mesmo as improváveis), quais as sequelas certas.

Você tem o direito de saber se há outras opções de tratamento. Você tem o direito de escolher assim como tem o direito de arcar com as consequências, positivas ou negativas, das suas escolhas.

Você tem o direito de saber seu prognóstico, bom ou ruim. Você tem o direito também de escolher não saber. E cabe sim ao médico respeitar e atender sua decisão. A vida é sua, não é dele.

Você tem o direito de saber sua expectativa de vida. Você tem o direito de escolher não saber sua expectativa de vida. Com ou sem câncer, você tem sonhos, projetos, possivelmente uma família ou amigos, uma vida enfim. E tem todo o direito de saber quanto tempo ainda tem e se tem para se planejar e deixar tudo como você quer. Você tem o direito de gerir a sua vida e só com informação e informação correta você poderá fazer isso de forma eficiente, eficaz, satisfatória e, por que não, prazerosa.

Você tem o direito de saber. Você tem direitos. Você. É a sua vida. Exija.

Inca RJ
Praça Cruz Vermelha, 23 - Centro - 20230-130 - Rio de Janeiro - RJ - Tel. (21) 3207-1000

Inca SP

Onde tratar pelo SUS

Disque Saúde
136


4.4.17

Mexeu com uma mexeu com todas. Chega de assédio!

#chegadeassédio #MexeuComUmaMexeuComTodas Uma denúncia que não é anônima, feita através de uma coluna em um jornal que concedeu o direito de resposta no mesmo espaço e junto, e que conta com o suporte imediato de colegas da denunciante e de profissionais de todas as áreas, inclusive advogadas, está longe de um linchamento virtual. Não tem qualquer relação com linchamento virtual. Aos meus amigos e conhecidos homens e minhas amigas e conhecidas mulheres que ainda reproduzem machismo e que criticam feminismo sem saber do que se trata sugiro que se informem, que reflitam e, principalmente, que aprendam a ouvir. As mulheres estão finalmente falando. Ouçam. E não, não pensem que "podia ser minha mulher ou minha filha". Suas mulheres e filhas não devem ter privilégios, prerrogativas ou mais direitos que as outras mulheres. Pensem que são seres humanos como vocês e que têm que ser respeitadas.
Tem que botar a boca no trombone sim! De forma responsável, com suporte, com orientação legal para não virar o algoz da história. Mas tem que por a boca no trombone sim!

27.12.16

Meta?

Eu vou como flexa sem virgula sem ar sem oposição até o fim do ponto mais ínfimo fim da meta.

meta é o que falta na sua meta. Defina sua meta, mergulha em sua meta, se travista em sua meta para descobrir que só há você e a fantasia. E a meta?
Defina sua meta, definhe sua meta, mesquinha em sua meta, traída em sua meta para descobrir que não há meta nem você, nem fantasia. E a meta?
A meta é ver que não há. Ou há.

25.11.16

Interregno

No curto espaço de tempo
entre o pátio e o quarto,
no átimo do passo,
no intervalo da piscada,
no hiato do gole,
no lapso do suspiro
espero.


24.11.16

Mas é só um sitezinho...

Tudo isso? Mas é só um sitezinho...
Tudo isso? Mas é só um sitezinho...
Conversando com a moça que fez as flores do meu casamento, pedi o endereço do site dela. Meio sem graça, respondeu que o site era o que estava faltando, porque estavam cobrando, segundo ela, muito caro. 

Respirei fundo, entoei um mantra e perguntei: o que você chama de muito caro e o que teria no seu projeto? Ela me informa que ainda está se recuperando do choque de duas propostas "careréssimas": R$1.200,00 e R$1.500,00. Tive pena. Dela, de mim. Desse mercado favelizado e sem noção do valor das coisas, do custo do trabalho, da remuneração digna para as equipes. E respondi que por esses valores está de graça, ela devia pegar já! Lembrando claro, de todos os clichês que habitam o universo do nonsense: o barato que sai caro, por exemplo. E lembrando que o maravilhoso site gratuito que a companhia xyz oferece é... Pegadinha do Malandro! Você não tem o seu site, você tem a hospedagem e o domínio (nome). Se encontrar hospedagem mais barata... bem, azar o seu, porque tudo o que você fez ali na plataforma baratinha, gratuitinha e sacaninha não é seu, fica ali. Converse com um profissional sério. Procure uma solução viável e que não vá criar mais trabalho. Converse comigo. Quer conversar? Estou aqui, converso com você. Não, não trabalho de graça, mas posso construir com você um modelo para essa relação comercial que funcione para nós dois. Ou te indicar outro profissional.



18.11.16

Só sei que nada sei?

Meu marido começou um novo ciclo de químio ontem. Na sala em que a medicação é tomada qualquer dúvida sobre a cara do câncer se dissipa. O câncer não tem cara: homens, mulheres, idosos, jovens, crianças, gordos, magros etc.

Nessa clínica uma das paredes da sala é toda de vidro, a vista é um pátio com jardim e muitos passarinhos que vêm encher o bucho com as migalhas que ficam aqui e ali, dos almoços e lanches dos funcionários. Quase bucólico. É acolhedor. Com a sala ampla, bem iluminada, a gente quase esquece onde está. Mas um olhar mais atento e demorado aponta um desfibrilador a postos no cantinho.

A TV desfila a prisão dos ex-governadores do Rio, Cabral e Garotinho. Ninguém está interessado. É quase uma trilha incidental o som baixinho que vem do noticiário da TV.

Acompanhando essa primeira sessão desse novo ciclo entendo, finalmente, que os remédios auxiliares (anti-histamínico, antiemético) são ministrados para todos os pacientes, sem exceção. A menos, claro, que o paciente tenha alguma intolerância a essas medicações. São medicações preventivas para evitar ou amenizar os efeitos que a químio pode dar em alguns pacientes como alergias e vômitos. Fico pensando que isso é ótimo, que bom que podemos tentar evitar. Mas fico pensando, ao mesmo tempo, se não estamos evitando muito, se não estamos nos anestesiando muito, se na verdade estamos fugindo não da dor ou do mal estar, mas da vida. Cair é da vida. Caiu? Levanta. Não estou dizendo que é fácil, ninguém disse. Me pergunto se quando evitamos cada mísero tropeço não vamos abrindo mão, ao mesmo tempo, da capacidade de improviso, de um raciocínio mais ágil, de autonomia no que diz respeito ao nosso corpo, a nossa saúde, as decisões que devem ser só nossas sobre o nosso bem estar. Se não estamos abrindo mão de um compromisso que traz a responsabilidade pelas consequências mas mantém as rédeas da nossa vida em nossas mãos, minimamente que seja.

Nessas idas e vindas a consultórios, laboratórios, clínicas de rádio e químio me impressionou o quanto as pessoas delegam sua integridade física. Ouvindo as conversas entre os pacientes percebi que a maioria não sabe e não quer saber o nome do remédio que toma:

- Eu tomo o "vermelho". E você?

- Eu tomo o "branco". Com o branco o cabelo não cai, né?

Vermelho e branco são as cores das embalagens. Parece que predomina um pensamento mágico de que ignorar os manterá fora do alcance de reações adversas, da doença.

Eu? Tomo. Para dor de cabeça, relaxante muscular, para dormir, para ansiedade. Tomo. Não sou contra medicação. O que me espanta é a escolha por não saber. Não saber da própria vida. Ao mesmo tempo, as revistas mais lidas nas salas de espera são as de fofoca. Dá o que pensar...


13.11.16

Vamos todos morrer mesmo

"Vamos todos morrer mesmo", diz o comentarista de rede social. Tratando a fala com o tom displiscênte que ele acredita que o assunto deve ter. A morte do outro. A tristeza do outro. O outro. Foda-se o outro: "Farinha poca meu pirão primeiro".

Então, caro comentarista de rede social, de grande portal, de fila de padaria de bairro. Sabe que eu nem sinto pena de você não perceber que para o resto da humanidade você é o 'outro', ou seja, você é aquele ente invisível e irrelevante que não merece respeito nem reverência nem durante a vida e nem durante a morte. E a sua morte vai chegar. Solitária e irreverente, provavelmente irrelevante. E a doença vai chegar de braços dados com toda a solidão e silêncio possíveis e que sequer imaginávamos.


Aí... aí talvez eu, por prazer sádico demandado pela mágoa represada, me dê o prazer de falar, olhos cravados nos seus (mas vendo atrás, sua invisibilidade é incontornável), o prazer de falar, com o tom displicente que a sua irrelevância tem que "Vamos todos morrer mesmo." Depois você me conta


Ladrilho Hidráulico ou por quê procrastinar a decisão de continuar procrastinando? Ou não


Enquanto tomo o chá de hortelã,
o gato mia,
e a chuva cai,
me pergunto:

Chá de chia
ou sopa Tai?

Agonia besta
importa é a sesta depois do almoço.

Olhos despertos:
Ladrilhos hidráulicos no chão
da lavanderia?
Ladrilhos Hidráulicos nas paredes
do jardim da entrada?
Ladrinhos nos banheiros.

Hidráulicos – os ladrilhos, não os banheiros.

5.10.16

Poderíamos. Mas não iremos.

Poderíamos falar sobre o tempo, o calor, a chuva... vai chover? acho que não. Elevador é isso: Poderíamos mas só o silêncio constrangedor se faz. Aquele breve e embaraçoso momento vai-não-vai na hora de sair daquela caixa incômoda, daquela situação desagradável. E cada um segue para o seu lado, finalmente livres, aliviados e arrastando aquelas lembranças de 15 anos juntos na escola, 2 anos no mesmo escritório ou um ano no mesmo ponto de ônibus, no mesmo horário. Ainda bem que não se verão novamente. Eu acho.

Foi golpe. Não foi golpe, impeachment é previsto na constituição. Sim, mas só se atender certos pré-requisitos: tem que haver crime de responsabilidade praticado pelo executivo, teoria do domínio do fato não cabe. Ah, nada disso, só é golpe se tem arma na cabeça e tanque nas ruas. Ah, então é golpe, pergunta pro pessoal do complexo do alemão.

Poderíamos fingir que não ouvimos, ou simular com a resposta que não entendemos a pergunta e tecer tranquilos um novo samba do criolo doido. Mas eu cansei, na verdade você está com olheiras e o custo benefício... bem. Que custo benefício?

Pizza? Pode pedir. Eu vou pedir um japa pra mim. Vou dormir no quarto da tv, não me acorda, tem um resto de champa pra você na geladeira. Não esquece de limpar a areia do gato e passar a chave por baixo da fresta da porta. Beijo. Segundamente, Fora Temer.Ahhhh, nem vem, foi golpe sim. Óh, quer saber? Não tô nem ouvindo sua golpista!

Onde é que eu estava com a cabeça quando beijei essa boca?


30.8.16

Avante, avante!

Acorda, senta, calça os chinelos. Seguir a rotina. Lavar o rosto. Por quê mesmo não colocou água quente na pia do banheiro? A rotina estrutura o dia. Passar o café. Nunca gostou de café. Rotina e disciplina para garantir a linha reta. Avante, avante.

Um checklist diário: abrir as janelas, tomar banho, escovar os dentes, ler os e-mails. Mercado. Todos os dias, mercado. Rotina. A rotina estrutura o dia. Rotina e disciplina para garantir a linha reta. Avante, avance.

Quando não há sentido, cria-se o sentido. Alinhavar o aleatório, tecer uma linha reta com o acaso para desviar do imponderável. Ajeita os potes de tempero. Não é TOC, é método, disciplina. Rotina. "Persevera e alcançará seus sonhos, só depende de você!". Quem acredita nessas bobagens? se pergunta, enquanto move milimetricamente o saleiro. Autoajuda do autor! Adora essa piada velha.

Lavar a louça. Primeiro os pratos fundos, depois os rasos, por fim os de sobremesa. Agora os talheres. Primeiro as colheres, depois os garfos, por fim as facas. Os grandes. Agora os de sobremesa. Mas atenção! Antes de qualquer coisa lavar os copos!

Acorda, senta, calça os chinelos. Seguir a rotina. Lavar o rosto, por quê mesmo não colocou água quente na pia do banheiro? A rotina estrutura o dia. Passa o café. Nunca gostou de café. Rotina e disciplina para garantir a linha reta. Avante, avante.





16.8.16

Para que serve o Câncer (de Bruno Cattoni)

Deveria servir para revalidar o diploma de compaixão dos médicos
que, na justiça dos homens, são heróis da ciência e da dedicação ao ofício,
mas que, na justiça dos Céus, tão materialistas mantém-se na razão direta da essência difusa de seu sacerdócio e também da imperfeição mundana que demonstram no trato da alma humana.

Deveria servir como suplemento de esperança mesmo depois que nos damos conta de que tudo acaba em esperança. Para que alguém que assiste um paciente lutando pare de claudicar em sua jornada de vanglória e de se flagelar emocionalmente no raso egoísmo, indiferente, como sempre, às profundas demandas de amor da humanidade.

Deveria servir para implementar a mística do verdadeiro sacerdote do amor solidário, que foi falindo, paulatinamente, na razão inversa da evolução da ciência, até que merecesse hoje o sinônimo de facultativo.

Deveria servir para implantar na terra dos homens a igualdade e nos corações que ainda restam a fraternidade exemplar que é a razão de ser, de estar e de permanecer de toda cura.

Deveria servir para nos conhecermos melhor através da dor...

...mas que só tem servido, para extinguir (com doses elevadas de fármacos) - mais que o corpo, mais que as famílias e mais que os laços de afeto - o não menos sagrado tempo e a natureza divina de que somos feitos, acendendo paradoxal e tardiamente a centelha universal em "nós outros", nos quais só vemos o "nós mesmos", renegados e negadores da vida em cada iniciativa diária de superar o próximo que ainda nem amamos e por quem não teremos tempo de sofrer.



"Podem vir as dores - tão contraditórias - que nós apagamos o ser para ele não ver que, lindamente, amadurece!" – diz o médico



29.6.16

É o Momento Fudeu


Não é a queda, o impacto no chão, ralados e sangue. É o momento que precede a queda. Aquele átimo de instante em que não há contato com nenhuma superfície, nem nada, nem tempo nem ninguém em quem se agarrar e a única visão é a do chão duro, inexorável e indiferente se aproximando da sua cara. A sua cara sem ar, a sua cara muda, a sua cara que vai quebrar. Também conhecido como Momento Fudeu.

Há o Momento Fudeu gastronômico. Quando, por exemplo, o bolo já está no forno há mais de 10 minutos e o gás acaba.

Há o Momento Fudeu informático. Quando você finaliza um e-mail com um SUA VACA, assim, em caixa alta só pra desopilar e quando vai apertar o botão de delete o gato salta do lado e aperta o botão da direita que está sobre o enviar.

Há o Momento Fudeu Agora-vou-morrer, quando o médico da 4a opinião te informa, assim como o da 3a, que o primeiro errou, errou feio e que agora o seu câncer inicial encontra-se em estágio avançado e rádio e químio e famílias e amigos evaporando. Nesse Momento Fudeu a tônica é a solidão. A solidão e a gincana desumana promovida por Anvisa e receita federal. Morram vocês, seus putos! Que eu vou é dar a volta por cima!

Não é a queda, o impacto no chão, ralados de sangue. Não é o cheque sem fundo. Não é a morte inesperada, não é o pão que caiu no chão - filho único - com o último tiquinho de manteira virado pra baixo.

É aquele instante, criatura, de consciência lúcida, segundos antes da sua cara estraçalhar no chão. O segundo entre a identificação do número do banco no visor do celular e a voz protocolar da atendente de telemarketing da empresa de cobrança. É aquele instante ao telefone segundos antes do interlocutor dizer - morreu. Mas você já sabe. Você já sabe que morreu assim como sabe que aquele pão era o último e você não tem um puto para comprar outro amanhã.

É, enfim, aquele segundo eterno em que o muro ainda está longe mas você já percebeu que o carro está há 180km/h e os freios não funcionam.

O Momento Fudeu é o momento em que não há. Saída. Não há. Solução. Não há. Não há mais ninho.


22.6.16

Agora eu entendi


Nos últimos dias entendi coisas que eu já sabia. Eu já sabia que passei dos 40. Mas agora entendi. Eu já sabia que tenho uma doença crônica. Mas agora entendi. Eu já sabia que sou mortal. Agora entendi.

Agora entendi aquelas camadas ocultas de informação que já estavam lá nas lembranças de infância, entremeadas nas falas de pai, de mãe, de avós.

Eu já sabia que quando ela disse para ele com um tom doce e infantilizado “eu não te suporto, meu amorzinho” ela estava apenas camuflando a agressão por causa das crianças presentes. Porque, claro, ela não aguentou esperar as crianças saírem de perto para gritar “eu não te suporto, seu filho da puta!”. Mas agora eu entendi que quando eu repeti para ele “eu não te suporto, meu amorzinho” imitando a voz e o tom doce e infantilizado porque os meus seis anos de idade ouviram a camuflagem e não as palavras, bem, agora eu entendi que eu feri ele profundamente. Porque ela me fez faca, estilete.

Eu já sabia que isso e outras coisas mais foram e são problema deles. Agora eu entendi.

Eu já sabia que um dia eu ia crescer e entender. Agora eu entendi que eu não tinha a menor ideia. Agora eu entendi.

15.6.16

Central do Textão


Imagina todos aqueles blogs ótimos que você lia já há mais de uma década juntos. Imaginou? Pois existe. E eu também estou lá, Central do Textão!

Porque as redes sociais são ótimas.
Mas acabam, desvirtuam, não têm indexação.
Porque aquele conteúdo ótimo foi na postagem de quem, mesmo? Ou foi num comentário? Quando?

Porque lá você encontra de uma tacada só a Fal, a Telinha, o Paulo Candido, o Ricado Cabral,   o Biscate Social Club, o Claudim Luiz e uma pá de gente que escreve de um tudo, para todos os corações, mentes e ouvidos àvidos pela palavra doce, pela palavra árida, pela palavra seca, pela palavra força, pela palavra. Pela palavra.