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22.6.16

Agora eu entendi


Nos últimos dias entendi coisas que eu já sabia. Eu já sabia que passei dos 40. Mas agora entendi. Eu já sabia que tenho uma doença crônica. Mas agora entendi. Eu já sabia que sou mortal. Agora entendi.

Agora entendi aquelas camadas ocultas de informação que já estavam lá nas lembranças de infância, entremeadas nas falas de pai, de mãe, de avós.

Eu já sabia que quando ela disse para ele com um tom doce e infantilizado “eu não te suporto, meu amorzinho” ela estava apenas camuflando a agressão por causa das crianças presentes. Porque, claro, ela não aguentou esperar as crianças saírem de perto para gritar “eu não te suporto, seu filho da puta!”. Mas agora eu entendi que quando eu repeti para ele “eu não te suporto, meu amorzinho” imitando a voz e o tom doce e infantilizado porque os meus seis anos de idade ouviram a camuflagem e não as palavras, bem, agora eu entendi que eu feri ele profundamente. Porque ela me fez faca, estilete.

Eu já sabia que isso e outras coisas mais foram e são problema deles. Agora eu entendi.

Eu já sabia que um dia eu ia crescer e entender. Agora eu entendi que eu não tinha a menor ideia. Agora eu entendi.

15.6.16

Central do Textão


Imagina todos aqueles blogs ótimos que você lia já há mais de uma década juntos. Imaginou? Pois existe. E eu também estou lá, Central do Textão!

Porque as redes sociais são ótimas.
Mas acabam, desvirtuam, não têm indexação.
Porque aquele conteúdo ótimo foi na postagem de quem, mesmo? Ou foi num comentário? Quando?

Porque lá você encontra de uma tacada só a Fal, a Telinha, o Paulo Candido, o Ricado Cabral,   o Biscate Social Club, o Claudim Luiz e uma pá de gente que escreve de um tudo, para todos os corações, mentes e ouvidos àvidos pela palavra doce, pela palavra árida, pela palavra seca, pela palavra força, pela palavra. Pela palavra.

13.6.16

Boa noite



Sopinha quente, meia macia, cobertores, pijamas, ele, gatinhos.

Meia luz, aquecedor travesseiros muitos.

Maritacas adiantadas, cigarras atrasadas, isso é uma coruja?

Boa noite.

31.5.16

A casa dorme, eu não.

Insonia

A pata da gata na minha cara. Ele ronronando ao lado. Suspirinhos peludos atados aos meus pés. Silêncio de grilos e folhas secas caindo. A casa dorme, ressona, com respiração profunda e compassada. Eu não. Ele dorme tranquilo, a gatinha tem pesadelos, o gatão acha que é hora de brincadeira. Eu não encontro o botão de desligar.

Mas já deixei para trás o noticiário, a maledicência nas salas de espera, os comentários medievais e hidrófobos nos curtos trechos dentro de um ônibus preguiçoso e trôpego.

Já deixei para trás os trolls, os hatters, os odiosos, os medíocres, os revoltados on e off line.

Agora somo só eu e você, insônia velha de guerra, embebida em zolpidem, rindo litros do hemitartarato. Só observo. Quem sabe se eu ficar bem quietinha, se eu respirar miúdo, se eu só pela metade? Se eu só? Se eu? Bem quietinha, fingindo dormir. Quem sabe você acredita? Quem sabe?

26.5.16

Estupro não é piada




Uma adolescente de 16 anos foi estuprada por um grupo de homens no Rio de Janeiro. O vídeo do estupro foi compartilhado em redes sociais e os comentários variavam entre piadas e acusações contra a vítima. A vítima seria culpada pela agressão sofrida. O caso ainda está em investigação.

Entre os vários problemas que a notícia aponta, muitos da esfera criminal, escolhi um para falar sobre. A vítima e a postagem de um homem afirmam que foram mais de 30 envolvidos. Cultura de estupro é isso. Mais de 30 homens e ninguém sequer cogitou a possibilidade de estar cometendo um crime. Poderia falar sobre a cultura do estupro.

Poderia falar sobre a falta de ações eficientes e regulares para coibir o crime de estupro, sobre como culpam sempre a vítima, sobre como a questão é minimizada. Poderia falar sobre a tranquilidade com que pessoas presenciam assédios nos ônibus, trens, ruas, escolas, casas e não impedem. Poderia, ainda, falar sobre o fato de 30 homens terem escolhido praticar um crime. Um crime contra uma pessoa incapacitada de se defender, uma mulher dopada. Um crime que não fala só de gênero, fala de ódio, de subjugar, de humilhar. Um crime que passa por tirar do outro as escolhas, portanto, a autonomia. Um crime mais que violento, um crime autoritário. Homens violentos, perigosos, medíocres e pequenos: precisam da vítima sedada para se sentirem poderosos e no controle. Porque sim, trata-se também de controle. E porque esta não é a única vítima sedada. Quando mulheres não denunciam os estupros que sofrem por vergonha, é porque estão sedadas. Quando pessoas não impedem, é porque estão sedadas. Poderia falar da sociedade doente da qual fazemos parte, que naturaliza o estupro, minimiza e culpa a vítima. Acha a minissaia uma ofensa passível de punição através da prática de um crime. Use uma minissaia e seja sentenciada a sofrer um estupro. Está aí: poderia falar sobre as roupas como instrumento de controle e submissão da mulher. Mas escolhi falar das piadas.

Sim, escolhi falar das piadas. O que leva as pessoas, homens e algumas mulheres também, a acharem que estupro é piada? Que não só não há problemas em cometer estupros e estupros coletivos contra vítimas sedadas, como também achar que é natural fazer piada? É razoável imaginar que isso seja fruto de uma sociedade machista e fortemente influenciada por vertentes religiosas cada vez mais fundamentalistas. Algumas, inclusive, nem podem ser consideradas como religião, são na realidade empresas com lucratividade alta, abençoadas pela isenção fiscal – que deveria acabar já, seria uma excelente fonte de recursos para saúde, educação e cultura.

É neste cenário, alimentado por propagandas idealizando a mulher como “boazuda” disponível ou princesinha submissa, que uma presidência interina extingue o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos. Essa extinção é a um só tempo alimento e reflexo desse cenário. Assim como o atual ministério: sem mulheres, sem negros, sem representatividade. Um país que não se importa com a integridade física de suas mulheres não pode mesmo se importar com o fato de agressões virarem piada.

Enquanto terminava de escreve esse texto vi a notícia de mais um estupro coletivo, dessa vez no Piauí. A situação é gravíssima. Não é mais possível se omitir em relação à violência contra a mulher. Não é mais possível permitir ou relevar discursos que apontam feminismo como opressão ao homem e feministas como mulheres mal amadas (seja lá o que isso signifique), homossexuais (qual o problema?), que não se depilam (qual o problema?) e que praticam linchamento virtual (quem faz linchamento virtual não é feminista, é linchador). Não é mais possível permitir que as pessoas, desconhecendo o que é o feminismo, propaguem conceitos errados. Não é mais possível.

Vou me repetir: quem é da escrita, escreva. Quem é da foto, fotografe. Quem é da música, cante. Mas aja. Positivamente, amorosamente, incisivamente. Mas aja.

2.3.16

A vida selvagem dos gatos

A vida selvagem dos gatos deu as caras aqui em casa hoje. Acordei com um barulho de helicóptero, olhei para o lado e, ó que lindo! um beija-flor dentro do quarto! Ah, que coisa mais lin... Não! Socorro, putaquepariu, para Eva, sai Flor! E quase vou de cara no chão: o beija-flor estava se debatendo no vidro da janela e tentando desesperadamente não virar café da manhã das gatas. Nada lindo. Literalmente voei, dei uma rasteira Duplo Twist Carpada nas gatas, abri a janela, tudo ao mesmo tempo agora, e salvei o beija-flor. Ufa!

Ufa nada, no quarto ao lado jazia uma rolinha. Pausa. Pausa nada, Eva pegou com a boca e está correndo! Com o cadáver na boca! Para o meu quarto, para a minha cama! Não, Eva! (nesse momento sou o homem de seis milhões de dólares, ou seja, corro em câmara lenta). Eva abandona o de cujus no meio do quarto contrariada. Eva me abandona no meio do quarto, desolada. Me concentro no beija-flor. Não se pode ganhar todas.

7.1.16

"Cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180"


CONTRA O FEMINICÍDIO  E A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA LIGUE 180


(Para ler ouvindo Elza Soares cantando Maria da Vila Matilde*)
A skatista Giselle Alves foi assassinada no dia 30 de dezembro de 2015 em Paraty, de acordo com blogs e sites internacionais. A nossa imprensa não nega nem confirma, por enquanto. No dia 1 de janeiro já havia matérias em sites no exterior identificando fato e vítima. Aqui deram a notícia identificando a vítima como "uma mulher". Não falam sobre suspeitos e o crime é resumido como "pancada na cabeça". Em um único parágrafo conferiram invisibilidade a Giselle reduzindo-a à "uma mulher" em vez de a skatista brasileira reconhecida no país e no exterior Giselle Alves.
\
Natural é se perguntar por que no Brasil a notícia está praticamente escondida. Afinal, Giselle é uma skatista brasileira famosa. As notícias publicadas no exterior e comentários em redes sociais chegam a apontar um suspeito, caracterizando o crime como violência doméstica. Considerando que as investigações mal foram iniciadas, uma imprudência. Se lá foram imprudentes, aqui parecem não se importar. Os questionamentos e a desconfiança fazem sentido uma vez que, em 2013, 4.762 mulheres foram assassinadas no Brasil. Em 1980 foram 1.353. Mais do que o triplo em 3 décadas (fonte: Mapa da Violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil). Mesmo com Lei Maria da Penha, com as Delegacias Especializadas de Defesa da Mulher (veja aqui a relação por estado) e campanhas como Ligue 180, da Central de Atendimento à Mulher.

O assassinato de mulheres tem uma particularidade especialmente perversa que é um segundo assassinato cometido logo em seguida, o do caráter da vítima. Culpam a vítima!

Ângela Diniz foi assassinada por Doca Street em 1976. Não sei onde encontrar dados sobre aquele período. Mas o que importa é que não foi o primeiro assassinato do tipo e está longe de ser o último. Doca foi condenado, no segundo julgamento, à 15 anos de prisão mas cumpriu apenas 3 e teve direito a liberdade condicional. Em entrevista dois anos após o assassinato o pai de Doca faz insinuações sobre o caráter de Ângela (sempre culpam a vítima) enquanto a mãe de Ângela fala o óbvio, que até hoje não é ouvido: "Ela tinha direito de fazer da vida dela o que ela quisesse. Ela tinha direito de não viver mais com esse homem, que ela não queria viver mais com ele. É um direito que ela tinha. E ele quer fazer acreditar que a matou por amor. Por que que ele não morreu também por amor? Por que que ele não dividiu a crueldade?"

No primeiro julgamento Doca foi condenado à apenas 1 ano e meio de prisão, mas conseguiu sursis e já saiu  do fórum em liberdade e aplaudido. As pessoas na rua, homens e mulheres, declaravam para repórteres sua satisfação com a liberdade do assassino. Apenas duas mulheres se declararam contra.

Essa era e continua sendo a cultura no país em relação à mulher: apenas um objeto, sem direitos, nem mesmo o mais básico de todos, o direito à vida. A claque na porta do fórum aparentava concordar com o escritor (adjetive como achar mais adequado) Carlos Heitor Cony, que declarou, na época:

‘Vi o corpo da moça estendido no mármore da delegacia de Cabo Frio. Parecia ao mesmo tempo uma criança e boneca enorme quebrada… Mas desde o momento em que vi o seu cadáver tive imensa pena, não dela, boneca quebrada, mas de seu assassino, que aquele instante eu não sabia quem era’.

Doca só teve um segundo julgamento porque a reação popular (especialmente de feministas) foi negativa frente a uma condenação branda e substituída por liberdade. O julgamento foi anulado e ocorreu então o segundo.

Agir. Agir é o que traz mudança.

Passaram pela mesma tragédia do assassinato físico seguido do moral as famílias de Mônica Granuzzo e Daniella Perez. O pai de Mônica chegou a ser chamado de palhaço pelo juiz que conduzia o caso que, não satisfeito, mandou que a segurança o retirasse do recinto. Sobre Mônica falou-se até que era travesti - como se isso fosse uma ofensa. O assassino de Mônica, o ex-modelo Ricardo Peixoto, hoje dá aula na praia de Copacabana. Brilha vivo sob o sol.

Com Daniella Perez não foi diferente: culparam a vítima e foram além, culpando sua mãe, que estaria exibindo a filha na novela.

Glória Perez agiu. Recolheu 1,3 milhão de assinaturas, conseguindo que homicídio qualificado se tornasse crime hediondo. Há discussão se foi ou não iniciativa popular, se deveria ou não ser hediondo, se a privação de liberdade é solução mas, convenhamos, discussões irrelevantes. Relevante é a lei só ter se debruçado sobre o assunto quando assassinaram uma atriz famosa e branca, filha de uma diretora de tv famosa e branca. Que bom que a repercussão trouxe resultados positivos para as mulheres em alguns casos posteriores ao de Daniella perez. Mas não podemos ignorar que entre 2007 e 2013 o aumento de assassinatos de mulheres negras aumentou em 54% e o de mulheres brancas, no mesmo período, diminuiu em parcos 9,8%.

São tantos casos que não caberíam em um único tomo: Claudia Lessin Rodrigues, Viviane Alves Guimarães Wahbe, Ana Carolina Vieira, Raquel Rodrigues Soares e tantas, tantas mais.

O feminicídio é uma realidade e uma cultura e não só no Brasil. Agir é o único caminho possível. Ligando 180 se a vítima for você ou a outra, escrevendo sobre se for escritora, legislando se estiver na política etc, etc. Use sua área de atuação para mudar essa realidade e essa cultura.

Aja!



  • Para ligar quando for preciso, por você ou por outra: 180, Central de atendimento à Mulher
  • Para saber mais: Lei Maria da Penha
  • 1.1.16

    "Cría cuervos, y te sacarán los ojos" ou "Proteger eternamente a cria pretensamente frágil será seu atestado de óbito"

    Para ler ouvindo: Música: Mamãe, não chore

    Para assistir depois: Crya Cuervos, de Carlos Saura, com Geraldine Chaplin. Aqui um trecho.


    Qual a semelhança entre o texto e o filme? A crença fictícia de Ana de que a morte dos pais é culpa dela. Não é. Assim como esse filho torto não é culpa da mãe. Só será se ela concordar em criar e sustentar um universo paralelo




    Para reflexão uma breve história.

    Mas poderiam ser duas, três ou mais. Poderiam ser mais leves ou mais pesadas. Envolver ou não agressões físicas ou verbais. Onde se lê filho pode-se ler filha. Todos negam (Que horror! O que os vizinhos vão pensar?), mas toda família tem um núcleo assim. Às vezes apenas não sabem.

    Uma mãe sofre agressões verbais do filho. Essas agressões, acompanhadas de furtos de pequenos objetos, dinheiro e joias progridem para agressões físicas. A mãe faz o registro de ocorrência mas desiste, coitado do filhinho... Não vai à delegacia quando é chamada e quando vai retira a queixa. O filhinho agressor continua em casa, alimentando agressões morais e físicas (cada vez mais intensas), depredando o patrimônio, o caixa e a autoestima da mãe. Em pouco tempo parará de trabalhar e passará a ser sustentado por ela, mesmo que já tenha passado dos 30. Geralmente esse filho também tenta isolar a mãe do relacionamento com o outro filho ou filha, com o resto da família e com os amigos.

    A mãe, por sua vez, nas poucas conversas que tem fora desse ambiente, atribui ao outro filho ou filha (a essa altura já expulso de sua casa, de sua família e de sua história) a falta de caráter e a violência daquele que ela acolhe: se uma mãe está falando mal do filho, ele deve ser três vezes pior do que isso, pensam os ouvintes. Está arruinada aí a primeira vida: a do outro filho. Que vira a ovelha negra sem voz. Ninguém ouve um filho que foi desacreditado pela mãe. A conta emocional, familiar, social e profissional que esse filho pagará é alta. E será cobrada em cada centavo.

    A mãe será desconstruída e destruída a cada dia, com agressões verbais ou físicas, com o desmonte do seu lar. Essa é a segunda vida perdida.

    O filho protegido perderá o contato com a realidade, perderá a empregabilidade ou a capacidade de empreender. Passará a ter uma visão da vida social, familiar e profissional totalmente distorcida, alimentada pela mãe. O que será desse filho quando essa mãe não estiver mais presente? Essa é a terceira vida destruída.

    Se você é o outro irmão

    Queridos e queridas: se você é outro irmão ou irmã, entenda que ninguém adoece sozinho e que aquilo não é só mau caratismo. A família toda está doente. Afaste-se para preservar sua integridade física e mental. Você precisará das duas para salvar sua mãe ou mesmo seu irmão ou irmã – isso, claro, se eles quiserem ser salvos. Às vezes não querem. É como dizem as aeromoças: adultos saudáveis, em emergências, devem colocar suas máscaras de oxigênio primeiro, para ter condições físicas de colocar as máscaras em seguida nas crianças, nos idosos e nos doentes.

    Se você é a mãe

    Acredite: você não está protegendo o seu filho (seja porque ele é o mais novo ou o mais frágil ou o que for). Você está condenando essa pessoa a impossibilidade de reintegração à uma vida social saudável. Esse mundo que você está alimentando em que um adulto tem cama, comida e roupa lavada de graça, em que aqueles que "incomodam" não podem estar presentes mesmo sendo seus amigos ou sua família não é real. Humilhar e diminuir o outro filho não tornará esse melhor, nem mesmo por comparação. E quando você não estiver mais presente? Como essa pessoa adulta, já passada da meia idade, vai aprender sozinha a lidar com as dificuldades e realidades do mundo? Você não está protegendo seu filho, está condenando. Pior, está condenando o outro também. E, acredite: você precisará do outro, porque essa doença, psiquiátrica ou não, cresce em escala progressiva. Você precisará de ajuda.

    O que fazer

    Não sou psiquiatra e cada caso é um caso. Mas algumas coisas são básicas. Sua integridade física e mental primeiro. Se a única forma de mantê-las for se afastando, afaste-se. Isso vale para a mãe e para o outro irmão ou irmã. Em seguida procure a orientação de um psiquiatra e de um advogado. Abra a situação para a família, não é vergonha nenhuma. Não faça nada sozinho. Mas faça alguma coisa.

    Relações abusivas não devem ser aceitas, prejudicam a todos e nunca acabam bem.

    30.12.15

    Parangolizemos 2016!


    Vestir textos, palavras, fonemas, sons, cores, tons, formas, texturas grafismos e mover o corpo e mover a alma e criar a ação e ser a obra e o autor. Num só golpe, despindo-se de vírgulas e parágrafos. Protagonize-se.

    Para ler ouvindo Tropicália.

    27.12.15

    (...) e só então retornemos.

    Enquanto não entra 2016 e o retorno, deixo aqui alguns escritos antigos que estão entre os meus preferidos:

    21.1.06
    Mandaram avisar

    minha cama
    meus seios
    meus quadris
    e minha língua

    todos, todos
    mandam avisar:

    saudades de você!

    --------*--------

    Que bom que você Veio!

    --------------------------------------------------

    2.2.06
    Orquídea

    Minha pele se rasga da nuca ao cóccix
    Dando liberdade a uma gigantesca lâmina
    De cartilagem e penugem.

    Meu peito se rasga
    E dele sai em vôo tumultuando
    Um enxame de vespas
    Que zunem, zunem, zunem

    Minhas veias ultrapassam o limite
    Das pernas e se tornam raízes grossas
    E firmes, que me prendem ao solo.

    Nesse momento, meu tronco se solta
    E alço vôo, com meus braços que já viraram asas.

    Do alto observo o bailar das nuvens
    E o gorjeio dos automóveis

    As penas das asas se soltam
    Uma a uma
    Transformando-se em pétalas de orquídea
    Que caem docemente pelo chão.

    --------------------------------------------------

    22.2.06
    O Novo 

    Sístole, assístole
    Tum-tum
    Tum-tum
    Coraçãotaquicardia

    Mas isso,
    Isso foi ontem...

    Hoje, quando te vê
    Ele já nem bate

    Apenas um leve pulsar delicado,
    Doce, tranqüilo e discreto.
    Por outro.

    --------------------------------------------------

    8.2.06
    Prato Feito 

    Almoço baratas
    Janto ratos
    Engulo sapos

    Quem serve? Eu

    Lucy in the sky with diamonds
    Mentira, Falácia.
    Lucy in the sky with evil pills in her mind

    Me alimento do pó
    Que os cupins fazem do meu cérebro
    Me nutro, me regozijo e celebro


    8.11.15

    Tsunami de Lama, Drama Invisível
    Sobre Mariana, "Conformados"não pode mais fazer parte do nosso dicionário. Indignação, informação e ação, por favor.

    12.10.15

    Não tenho saudade nenhuma da minha infância. Gosto de ter a idade que tenho hoje e sempre fui assim, sempre senti assim. A melhor idade sempre é a que tenho no momento e fico feliz em ver que estavam erradas as pessoas que diziam "quero ver pensar assim quando chegar aos quarenta". Tenho saudade de ir tomar Banana Split com tia Bibi antes do almoço, transgressão e cumplicidade. De roubar camarão seco na cozinha a cada cinco minutos na véspera dos Carurus e Vatapás, deixando Virgilina fula da vida. Mas fula só pra constar, porque me dava logo um pratinho de sobremesa cheio, rindo e mandando não contar pra minha avó. De participar "como adulta" das conversas de Bebeta, cheias de palavrões que me diziam que o concreto, a realidade, eram os fatos ou as ideias e não a formalidade boboca e propositalmente castradora dos ditos bons modos - Bebeta era dessas pessoas que podiam falar a maior barbaridade, o palavrão mais cabeludo, sem que ninguém pensasse em palavras como vulgaridade, sem que o assunto perdesse o foco. Na boca dela palavrão era vírgula bem usada, era ritmo e cor, era gostoso. Não tenho mesmo saudade da minha infância. Tenho saudade de pessoas. Pessoas que já foram ou que não estão ao alcance dos olhos. E das impressões e sensações que essas pessoas me permitiram experimentar com todos os significados gigantescos que estavam ali em gestos aparentemente pequenos e em palavrões de duas letras que falavam mais que um alfabeto inteiro. Pensando bem, acho que não tenho saudade, tenho é um patrimônio afetivo incomensurável.

    14.11.12

    Vila


    São dois andares, três quartos, dois banheiros, meia cozinha, uma sala, um quartinho de fundos, alguma muvuca.

    Dois Sancho - muito pança -, nenhum Quixote. Um nu, duas cópias e um retrato. O retrato segue a gente com os olhos. Duros.

    Duas gatas, seis cachorros, três crianças, cinco avós. Uma divorciada, um alcoólatra, uma viúva, uma incógnita, um charme.

    Muitos carros, todos caros, todos gastos.

    É uma vila, quase uma ilha. Todos em paz.

    18.6.12

    Sou aquela que toma dois Stilnox de 20 mg e não dorme.

    Que tem tanto medo de não conseguir dormir - porque sabe que não vai conseguir - que depois de tomar os dois comprimidos à meia-noite vai lavar a louça e à uma da manhã põe a roupa na máquina. Depois senta no sofá e pensa: e agora? Água sanitária no chão da cozinha ou organizar os livros da estante por autor?

    Sono? Presente. Cair no sono? Vai sonhando...

    11.6.12


    liquidação de cérebros:
    bom e barato.
    é só pegar.

    liquidificação de cérebros.
    bom, é barato.
    E nem precisa pegar.

    coisificação do cérebro.
    bom...que ba-rat...
    vai pegar?

    22.5.12

    Nada contra

    ‎"Não tenho nada contra homofóbicos. Eu, inclusive, tenho muitos amigos que são. O problema é que tem uns homofóbicos escandalosos, que não conseguem ser discretos. Ficam dando pinta que não gostam de gay, sabe?"
    Nada contra


    18.3.12

    Ericson Pires.



    Ericson falou e disse e fez. Depois falou mais. Bons sonhos poeta.


    Poema em feitio de oração - Ericson Pires
    para Zé Celso

    Santo Santo Santo
    3 x Santo
    Rio São Sebastião
    Geral Sebastião
    Não vejo outro Rio
    O Rio vira Mar

    Santo Santo Santo
    3 x Santo
    Cidade de retalho
    Flechada
    Villegaignon
    A baía é uma latrina
    Guanabara

    Santo Santo Santo
    3 x 3
    20 do 01
    40 graus
    7 flechas
    Cidade aberta
    Cidade fechada
    O último Tamoio

    Santo Santo Rio
    Praia lotada
    Sub Urbe caos
    Estácio de Sá
    Flechado
    Praia
    Rio Sebastião
    Caos

    Santo São Santo
    Corte de lixo
    Flamengo
    Globo = biscoito
    Era no tempo do Rei... era no tempo do Rei
    Já era...
    Só vejo flechas

    São São Sebastiões
    Em cada esquina
    Em cada barraco
    Em cada papelão
    São Sebastiões
    Flechados
    Ignorados
    Ofendidos

    Sebastiões
    Sem terra
    Com fome
    Sorrindo
    Com a boca banguela
    Da docidade maravilhosa

    Sou Sou Sou Sou Sou
    Sebastião sorrindo
    Amarrado flechado
    Na solar guanabara
    ê, ê
    Terra de índio brabo.



    Ericson Pires nasceu no Rio de Janeiro. É poeta, performer. Fundador do Grupo Hapax, também é editor da Revista Global Brasil e militante da Rede Universidade Nômade. Doutor em Estudos de Literatura pela Puc-Rio é Professor Adjunto do Instituto de Artes da UERJ e participa do PACC (Programa Avançado de Cultura Contemporânea) da ECO-UFRJ. Publicou Cinema Garganta, em 2002; Cidade Ocupada, 2007 e Pele Tecido em 20 10.

    13.3.12

    ECAD, me processa!

    Não sou muito de levantar bandeiras. Mas às vezes não é bandeira, é realidade cretina. E sou muito contra cretinice. Então tô dentro: ECAD, me processa!



    O Astronauta (Samba da Pergunta), de Pingarrilho de Marcos Vasconcellos

    Links:
    Ecad cobra taxa mensal de blogs que utilizam vídeos do YouTube
    http://oglobo.globo.com/cultura/ecad-cobra-taxa-mensal-de-blogs-que-utilizam-...

    Nota oficial do Youtube sobre o caso
    http://youtubebrblog.blogspot.com/2012/03/sobre-execucao-de-musica-em-videos-...

    Ecad terá de indenizar por cobrar valor de noiva
    http://www.youtube.com/watch?&v=G_ysqD7zluc
    http://www.conjur.com.br/2012-fev-29/ecad-indenizar-cobrar-direito-autoral-fe...

    Ecad não pode cobrar por música em quartos de hotéis
    http://www.conjur.com.br/2011-dez-05/ecad-nao-cobrar-execucao-musica-quartos-...

    CPI aprova a quebra de sigilo fiscal do Ecad
    http://www.conjur.com.br/2011-out-19/cpi-aprova-quebra-sigilo-fiscal-tres-dir...

    Eventos não lucrativos também pagam para tocar música
    http://www.conjur.com.br/2011-ago-08/festas-nao-lucrativas-tambem-pagam-music...

    Como se livrar da cobrança da taxa da ECAD
    http://www.conjur.com.br/2011-jul-27/livrar-cobranca-taxa-ecad-festas-casamento

    Ecad não pode regular multas por uso de músicas
    http://www.conjur.com.br/2011-jul-27/ecad-nao-determina-multas-uso-musicas-au...

    Prefeitura paga direito autoral por música em rodeio
    http://www.conjur.com.br/2011-jul-07/prefeitura-pagar-direitos-autorais-execu...

    MJ pede condenação Ecad por arrecadação unificada
    http://www.conjur.com.br/2011-jul-03/mj-condenacao-ecad-arrecadacao-unificada...

    Ecad pode proibir rádio inadimplente de tocar música
    http://www.conjur.com.br/2011-jun-30/tj-rs-proibe-radio-inadimplente-ecad-toc...

    Bares e restaurantes com TV e rádio devem pagar Ecad
    http://www.conjur.com.br/2011-jun-08/bares-restaurantes-tv-radio-pagar-ecad-d...

    Hotéis e motéis não devem pagar por direitos autorais
    http://www.conjur.com.br/2011-abr-17/hoteis-moteis-nao-sujeitos-passivos-dire...

    Em evento religioso, música não rende direito autoral
    http://www.conjur.com.br/2011-abr-01/eventos-religiosos-musica-nao-rende-dire...

    TVA SP deve pagar direitos autorais ao Ecad
    http://www.conjur.com.br/2010-dez-17/tva-sp-pagar-255-renda-arrecadada-comerc...

    Estado não pode se apropriar de criação intelectual
    http://www.conjur.com.br/2010-ago-06/estado-nao-poder-apropriar-criacao-intel...

    Radioweb viola direito autoral e deve pagar Ecad
    http://www.conjur.com.br/2010-mai-20/lei-protege-direitos-autorais-plataforma...

    Direitos autorais são pagos em eventos gratuitos
    http://www.conjur.com.br/2010-mar-29/direitos-autorais-pagos-mesmo-shows-grat...

    Clubes pagam direitos autorais por festa de carnaval
    http://www.conjur.com.br/2010-mar-10/clubes-recreativos-pagar-ecad-baile-carn...

    TJ-SP manda prefeitura pagar direitos autorais
    http://www.conjur.com.br/2010-fev-24/tj-sao-paulo-manda-prefeitura-pagar-dire...

    Ecad consegue liminar para suspender músicas
    http://www.conjur.com.br/2010-fev-12/ecad-liminar-suspender-musicas-blocos-ca...

    Tocar música em casa noturna não é crime
    http://www.conjur.com.br/2010-jan-16/tocar-musica-discoteca-mesmo-pagar-direi...

    Cinema é condenado a pagar direitos autorais
    http://www.conjur.com.br/2010-jan-12/cinema-arteplex-condenado-pagar-25-fatur...

    UFMG não pagará direito autoral por evento sem lucro
    http://www.conjur.com.br/2010-jan-05/ufmg-nao-pagara-direito-autoral-evento-g...

    Rádios comunitárias devem pagar direitos ao Ecad
    http://www.conjur.com.br/2009-fev-09/radios-comunitarias-sp-pagar-direitos-ec...

    TVA é condenada a pagar R$ 20 milhões em direitos autorais
    http://www.conjur.com.br/2008-abr-24/tva_pagar_20_milhoes_direitos_autorais

    Como ficam os direitos autorais com o problema dos ringtones?
    http://www.conjur.com.br/2008-abr-10/ficam_direitos_autorais_ringtones

    STJ obriga Ecad a depositar R$142 milhões para músicos
    http://www.conjur.com.br/2007-nov-28/stj_obriga_ecad_depositar_r142_milhoes_m...

    Oktoberfest deve pagar R$ 126 mil ao Ecad por direitos autorais
    http://www.conjur.com.br/2007-out-20/oktoberfest_pagar_direitos_autorais_ecad

    Parabéns é a música que mais arrecada direitos autorais
    http://www.conjur.com.br/2007-mar-31/parabens_musica_arrecada_ecad

    Projeto de Lei prevê extinção do Ecad
    http://www.conjur.com.br/2002-fev-13/ecad_substituido_conselho_federal

    Ecad pode cobrar direito autoral por músicas desconhecidas
    http://www.conjur.com.br/2000-nov-24/ecad_cobrar_musicas_dizer_quais

    Artistas questionam lei dos direitos autorais
    http://www.conjur.com.br/1998-jun-05/artistas_contestam_lei_direitos_autorais

    http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9610.htm

    http://www.ecad.org.br

    http://www.caligraffiti.com.br

    http://arquivodemusica.blogspot.com/

    http://www.creativecommons.org.br/

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:CC-logo.svg

    17.9.11

    aí vou levantar da cama, me espreguiçar, por qualquer coisa com tênis e correr. na praia.

    mentira.

    aí vou acordar, sentar na beira da cama, por o chinelo e fazer o café.

    mentira.

    aí vou acordar, descer descabelada, matar o resto do iogurte e me largar no sofá.

    mentira.

    aí vou acordar. virar de lado e dormir de novo.

    bom dia.

    5.9.11

    Se tem alguém que fez um instantâneo preciso (e precioso) da produção literária atual foi o Ramon. Vale muito conferir: ramonmello.com.br

    8.6.11

    O Livro sobre Nada
    Manoel de Barros. 


    Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.

    Tudo que não invento é falso.

    Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.

    Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.

    É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.

    Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.

    Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.

    A inércia é o meu ato principal.

    Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.

    O artista é um erro da natureza.  Beethoven foi um erro perfeito.

    A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.

    Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.

    Por pudor sou impuro.

    Não preciso do fim para chegar.

    De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.

    Do lugar onde estou já fui embora.

    E precisa de mais? Claro que não.

    19.3.11

    Figura e Fundo

    Os livros, as cadeiras, as mesinhas: lembranças. A presença de uma história. E trazem a presença de. Então a partida se torna mais suportável. Os objetos de uma vida inteira, nessa nova casa, não se descaracterizam. Iniciam uma nova história, um novo compêndio de lembranças. Se tornarão no futuro a lembrança e a presença de outros. A minha talvez. Nessa nova casa a história que eles carregam não se perde. Se soma a uma nova, que tem início agora.

    24.2.11

    Doação de sangue para minha avó

    Amigos,

    Minha avó está internada na Casa de Saúde Santa Bárbara (Botafogo) e já recebeu bolsas de sangue. Estamos precisando de doadores. Caso alguém possa ajudar, a coleta é feita no Hospital da Ordem Terceira da Penitência, no seguinte endereço: Rua Conde de Bonfim, nº 1033 - Banco de Sangue - Tijuca - RJ
    Tel: (21) 3294-8884 / 3238-9238

    Horário de Atendimento:
    Segunda a sexta, das 7:30h às 16h

    Quando for doar, o hospital pede que indique o nome da paciente. Minha avó é Anita Andrade Gomes Pereira e está internada no CTI da Casa de Saúde Santa Bárbara.

    Agradeço a quem puder ajudar e a quem puder divulgar.

    Beijos pra todos,
    Priscila

    15.1.11

    Leio Caio



    Então é isso. O ano acabou, o ano começou. E eu continuo em branco. Não tenho vontade de escrever, então leio. Estou apaixonada por Caio F. Completamente. Poderia passar três dias trancada lendo. Mas faz sol e faz chuva e eu vou pra rua. Porque os dias são mais longos e a noite tarda e o fim da tarde - o fim da tarde é silêncio reconfortante. Então vou pra rua. E não escrevo. Leio. Leio Caio.


    A foto é do Veríssimo. O Marcos.

    21.11.10

    Marcos Veríssimo:

    Ruminando - http://ruminando.wordpress.com/

    Ter estudado no Cap foi mesmo um privilégio.

    5.10.10

    os edifícios parecem tão altos. os pés se afundam na calçada, sob a chuva. tão fria, tão fina. a estrada tão distante. meus pés tão no chão.

    leve. muito leve.


    O tempo passa rápido e eu sorrio.




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    - Por que você não tem atualizado o blog?
    - Porque a vida toma muito tempo.


    12.9.10



    A paciente não reconheceu o entregador de frutas. Demonstrou evidente confusão mensal.
    Obs: tentou fazer o pagamento com biscoitos.