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25.11.16

Interregno

No curto espaço de tempo
entre o pátio e o quarto,
no átimo do passo,
no intervalo da piscada,
no hiato do gole,
no lapso do suspiro
espero.


24.11.16

Mas é só um sitezinho...

Tudo isso? Mas é só um sitezinho...
Tudo isso? Mas é só um sitezinho...
Conversando com a moça que fez as flores do meu casamento, pedi o endereço do site dela. Meio sem graça, respondeu que o site era o que estava faltando, porque estavam cobrando, segundo ela, muito caro. 

Respirei fundo, entoei um mantra e perguntei: o que você chama de muito caro e o que teria no seu projeto? Ela me informa que ainda está se recuperando do choque de duas propostas "careréssimas": R$1.200,00 e R$1.500,00. Tive pena. Dela, de mim. Desse mercado favelizado e sem noção do valor das coisas, do custo do trabalho, da remuneração digna para as equipes. E respondi que por esses valores está de graça, ela devia pegar já! Lembrando claro, de todos os clichês que habitam o universo do nonsense: o barato que sai caro, por exemplo. E lembrando que o maravilhoso site gratuito que a companhia xyz oferece é... Pegadinha do Malandro! Você não tem o seu site, você tem a hospedagem e o domínio (nome). Se encontrar hospedagem mais barata... bem, azar o seu, porque tudo o que você fez ali na plataforma baratinha, gratuitinha e sacaninha não é seu, fica ali. Converse com um profissional sério. Procure uma solução viável e que não vá criar mais trabalho. Converse comigo. Quer conversar? Estou aqui, converso com você. Não, não trabalho de graça, mas posso construir com você um modelo para essa relação comercial que funcione para nós dois. Ou te indicar outro profissional.



18.11.16

Só sei que nada sei?

Meu marido começou um novo ciclo de químio ontem. Na sala em que a medicação é tomada qualquer dúvida sobre a cara do câncer se dissipa. O câncer não tem cara: homens, mulheres, idosos, jovens, crianças, gordos, magros etc.

Nessa clínica uma das paredes da sala é toda de vidro, a vista é um pátio com jardim e muitos passarinhos que vêm encher o bucho com as migalhas que ficam aqui e ali, dos almoços e lanches dos funcionários. Quase bucólico. É acolhedor. Com a sala ampla, bem iluminada, a gente quase esquece onde está. Mas um olhar mais atento e demorado aponta um desfibrilador a postos no cantinho.

A TV desfila a prisão dos ex-governadores do Rio, Cabral e Garotinho. Ninguém está interessado. É quase uma trilha incidental o som baixinho que vem do noticiário da TV.

Acompanhando essa primeira sessão desse novo ciclo entendo, finalmente, que os remédios auxiliares (anti-histamínico, antiemético) são ministrados para todos os pacientes, sem exceção. A menos, claro, que o paciente tenha alguma intolerância a essas medicações. São medicações preventivas para evitar ou amenizar os efeitos que a químio pode dar em alguns pacientes como alergias e vômitos. Fico pensando que isso é ótimo, que bom que podemos tentar evitar. Mas fico pensando, ao mesmo tempo, se não estamos evitando muito, se não estamos nos anestesiando muito, se na verdade estamos fugindo não da dor ou do mal estar, mas da vida. Cair é da vida. Caiu? Levanta. Não estou dizendo que é fácil, ninguém disse. Me pergunto se quando evitamos cada mísero tropeço não vamos abrindo mão, ao mesmo tempo, da capacidade de improviso, de um raciocínio mais ágil, de autonomia no que diz respeito ao nosso corpo, a nossa saúde, as decisões que devem ser só nossas sobre o nosso bem estar. Se não estamos abrindo mão de um compromisso que traz a responsabilidade pelas consequências mas mantém as rédeas da nossa vida em nossas mãos, minimamente que seja.

Nessas idas e vindas a consultórios, laboratórios, clínicas de rádio e químio me impressionou o quanto as pessoas delegam sua integridade física. Ouvindo as conversas entre os pacientes percebi que a maioria não sabe e não quer saber o nome do remédio que toma:

- Eu tomo o "vermelho". E você?

- Eu tomo o "branco". Com o branco o cabelo não cai, né?

Vermelho e branco são as cores das embalagens. Parece que predomina um pensamento mágico de que ignorar os manterá fora do alcance de reações adversas, da doença.

Eu? Tomo. Para dor de cabeça, relaxante muscular, para dormir, para ansiedade. Tomo. Não sou contra medicação. O que me espanta é a escolha por não saber. Não saber da própria vida. Ao mesmo tempo, as revistas mais lidas nas salas de espera são as de fofoca. Dá o que pensar...


13.11.16

Vamos todos morrer mesmo

"Vamos todos morrer mesmo", diz o comentarista de rede social. Tratando a fala com o tom displiscênte que ele acredita que o assunto deve ter. A morte do outro. A tristeza do outro. O outro. Foda-se o outro: "Farinha poca meu pirão primeiro".

Então, caro comentarista de rede social, de grande portal, de fila de padaria de bairro. Sabe que eu nem sinto pena de você não perceber que para o resto da humanidade você é o 'outro', ou seja, você é aquele ente invisível e irrelevante que não merece respeito nem reverência nem durante a vida e nem durante a morte. E a sua morte vai chegar. Solitária e irreverente, provavelmente irrelevante. E a doença vai chegar de braços dados com toda a solidão e silêncio possíveis e que sequer imaginávamos.


Aí... aí talvez eu, por prazer sádico demandado pela mágoa represada, me dê o prazer de falar, olhos cravados nos seus (mas vendo atrás, sua invisibilidade é incontornável), o prazer de falar, com o tom displicente que a sua irrelevância tem que "Vamos todos morrer mesmo." Depois você me conta


Ladrilho Hidráulico ou por quê procrastinar a decisão de continuar procrastinando? Ou não


Enquanto tomo o chá de hortelã,
o gato mia,
e a chuva cai,
me pergunto:

Chá de chia
ou sopa Tai?

Agonia besta
importa é a sesta depois do almoço.

Olhos despertos:
Ladrilhos hidráulicos no chão
da lavanderia?
Ladrilhos Hidráulicos nas paredes
do jardim da entrada?
Ladrinhos nos banheiros.

Hidráulicos – os ladrilhos, não os banheiros.