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26.12.05

Natal

Ele veio, fez minha decoração de natal, tomamos suco de pêssego, comemos gelatina, pûs o anjo sobre a Tv e tive um dia iluminado. Amém.

Natal e o Complô Masculino

Então ele olha bem no fundo dos meu olhos e fala muito sério e len-ta-men-te, como se eu fosse surda e retardada - e eu vejo um gostinho de prazer no canto da sua boca:
- Eu não te amo.

Dois dias depois o interfone toca sem aviso e é ele. E quando eu vou ver a gente já está trepando, mete, mete, mais, mais e os vizinhos estão ouvindo, isso, vai, vai, vai, foi, ah!!!.... e ele já está olhando de novo encantado e abestalhado para a minha foto que está na geladeira.

Se veste com pressa e ordena: vamos pro mercado que você não pode ficar desabastecida.

Sim queridas: é um complô masculino. Sim queridas, eles querem nos enlouquecer.
Sim queridos: eu não tenho vergonha na cara. Graças a Deus.

Feliz Natal.

22.12.05

Como o gelo que vira água
Como a manteiga que derrete
Como a chama que apaga
Como a poeira que o vento espalha

Assim quero ser eu.
Hoje.
Somente hoje. Eternamente

Mas você vem
e acelera meu coração
inflama minha pele
dispara minha pulsação

E eu continuo aqui
Sendo eu. Inteira, una.
E só.

20.12.05

Ponto Morto

Pisar nas feridas
Arrancar as peles soltas
Morder a língua
Arrancar as gazes envoltas

Lamber as feridas
Arrancar os olhos
Chupar o sangue
Regurgitar a bílis

Não toco piano
Toco tendões
Comer a própria carne
É minha única tentação

13.12.05

Beija-flor, Pintassilgo, Rouxinol e Colibri

Beijei a flor
Ela me mordeu
Bebi o orvalho
Ele me afogou
Toquei a rosa
Ela me espetou

Natureza de merda:
Vai toda pro caralho!

Hoje, Natal, Ano Novo

Não aguento mais tanto tapa na cara
tapa na cara
tapa na cara
tapa na cara

Não, isso não é um poema. Isso é angústia.

Natal + Ano Novo. Presentinhos, famílias reunidas em volta de fartas
mesas e muitas fotinhas.

E aonde é que eu fico nisso tudo? Sempre foi horrível. Sempre foi a
pior época do ano para mim, sempre foi um desespero.

Todo os meus natais sempre acabei em algum momento me trancando no
banheiro para chorar. Mas esse ano está insuportável.

Ver a sua casa iluminada doeu. Doeu com D maiúsculo. Ver uma árvore
montada na casa da minha mãe doeu. Ver minha avó se referir a mim como
alguém sem caráter e perigoso, como se eu não estivesse ali e na
frente de uma visita doeu.

Eu sinto sua falta, eu queria ser um pouco mais ignorante.

Aí como é que eu te digo que eu preciso de, sei lá, 15 minutos de colo
quando você diz que eu sou infantil? Ás vezes é só isso que eu quero
mesmo: colo. Ou ouvir a sua voz no telefone. Ou ficar abraçada em
silêncio. Ou trepar violentamente como se o mundo fosse acabar no
instante seguinte. Ou ter uma daquelas conversas deliciosamente tolas
que temos, que acabam com risadas maldosas sobre tudo e sobre todos,
os dois espíritos de porco, eu e você. E eu gosto disso.

E eu acabo ficando com medo de falar as coisas para você por que eu
não quero ser fonte de angústia, não quero que os meus problemas te
afastem de mim (como sempre afastaram todo mundo), pq não quero que
você encare a espontaneidade que eu tenho com você como infantilidade.

Eu sei que essa carta está andando em círculos, cachorro atrás do
próprio rabo, estou me repetindo, mas eu escrevo e escrevo e escrevo e
continua tudo aqui dentro, peito congestionado, tumultuado. Eu sei que
amanhã você está aqui. Mas nesse momento irracional amanhã é tanto
tempo... é tão distante... é como se fossem 28 anos passados, jogados
para frente, para o futuro. E eu me vejo com 5 anos, loirinha e miúda na foto amarelada, colhendo tomate e então penso: coitada, nem imagina as cagadas que vem pela frente.

E não consigo entender aonde foi parar a força quase sobre-humana que
eu sempre tive. De onde está vindo tanta fragilidade. Tanta vontade de
saltar do carro. Parar o jogo, sair fora.

Mas sigo em frente, pisando firme - totalmente no escuro, mas mantendo a pose.

E sinto sua falta. Demais.

Sinto a minha energia sendo sugada quando estou com outras pessoas,
salvo duas ou três exceções. Sinto uma Paz enorme quando estou com
você. As energias voltam. Arrumo a casa, corro atrás das coisas, me
sinto mais segura, menos proscrita.

Como dizer o que você já sabe? Queria cuidar de você. Gosto de cuidar
de você. Sinto falta de cuidar de você. Sinto falta de você.

Mas não estou paralisada não. Sinto sim, tudo que escrevi, mas hoje,
especialmente, está sendo um dia muito, muito estranho, de sensações
extremamente desconcertantes, desagradáveis, indescritíveis.

Olho meu móvel de telefone, que finalmente trouxe da casa da minha mãe
e, de repente, ele tem uma importância enorme, gigantesca. É quase um
ícone. De uma fase da minha vida em que eu sabia. Ou acreditava que
sabia... mas era tão mais confortável...

Sinto sua falta.
Te amo,
Bjs,
Pri

12.12.05

Doações

Não quero mais trabalhar com publicidade.
Não quero mais trabalhar com marketing.
Não quero mais trabalhar com internet.
Não quero mais trabalhar.

Aceito doações.

Banco do Brasil
0287-9
24.151-2

Escritora desempregada agradece.

11.12.05

Olivério Girondo - É a Baba // Encalhado nas Costas do Pacífico

É a baba.
Sua baba.
A efervescente baba.
A baba hedionda,
cáustica;
a negra baba rançosa
que baba esta espécie babosa de alimárias
por seus ruminantes lábios carcomidos,
por suas pupilas de ostra putrefacta,
por suas turvas bexigas empedradas de cálculos,
por seus velhos umbigos de ponteira gasta,
por suas corcovas plenas de interesses compostos,
de ações usurárias;
a pestilenta baba,
a boba doutorada,
que envergonha a felpa das bancas com dieta
e outras brandas poltronas não menos cuspidas.
A baba tartamuda,
adesiva, viscosa,
que impregna as paredes forradas de corcho
e contempla o desastre através da algibeira.
A baba dissolvente.
A acre baba oxidada.
A baba.
Sim! É sua baba…
o que enferruja as horas,
o que perverte o ar,
o papel,
os metais;
o que infecciona o cansaço,
os olhos,
a inocência,
com seus vermes de asco,
com seus vírus de fastio,
de idiotice,
de cegueira,
de mesquinhez,
de morte.

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Corta os dedos múmias
a jugular marinha
dos algosos hóspedes que dobram tua pensativa omoplata de chuva
a veia de presságios que lavram em tua areia os caranguejos escribas
o tendão que te amarra a tanto ritmo morto entre gaivotas
e foge com tua terráqua estátua pestanejante
sem um mítico corno sob a neve menina recostada em tuas têmporas
porém com onze antenas fluorescentes investindo o mistério.
Foge com ela em chamas do braço de seu medo
toma-a das rosas se preferes em chagas a casca
porém abandona o eco desse hipomar hidrófobo
que fofopolvoduende te dilata o abismo com seus viscosos zeros absorventes
quando não te transmuta em migratório voo circunflexo de nostalgias sem rumo.
Furiosamente afasta tua Sigismunda rata introspectiva
tua teia de aranha faminta
desse trasmundo enteado de lava em mística abstinência de cactus penitentes
e com teu doguearcanjo aureolado de moscas
e tuas fiéis polainas melancólicas
de sonhos dissecados e gritos de desbaste cor de crime
foge com ela dentro de teu claustral aroma
mesmo que seu céuinferno te condene a um eterno "Te quero".
Deixa até desprender-se a cálida folhagem que brota de tuas mãos
junto a esse móvel totem de coxas água viva
flagela-te se queres com as violentas tranças que furtaste do esquecimento
porém por mais que sofras em cada cruz vazia uma paixão suicida
e tua própria cisterna com semivirgem lua reclame tua cabeça
já sem veleiro ocaso
nem chicha de pestanas
nem caixas onde lateja a agônica seca
foge pelos caminhos que arrancam de teu peito
com teu filho entre parênteses
teu formigueiro de espectros
tuas bisavós lâmpadas
e todas as frutíferas lembranças florescidas que alimentam tua sesta.
Foge com ela envolto em seu orquestral cabelo
e seu olhar sigilo
mesmo que te cruzes de asas
e o averritmo ferido que aninha no dorso onde te sangra o tempo
entardeça seu canto entre seus seioslotos
ou em seus braços de estátua
que perdeu os braços em altares de vestais e faunos inumados
e foge com tuas grilhetas de prófugo perpétuo
teu nimbo sem eclipses
teus desnudos complexos
e o sempiterno talho de fluviais trevas que te partem os olhos
para que vertam coágulos de rançosa an´gustia pai
impulsos prenatais
e meteóricas ânsias que lhe mordam os crótalos
os sonhoscobras do leito onde rema ambarmente desnuda
tua ninfômana estrela
enquanto teu corpo grasna um "Nunca mais" de pedra.

2.12.05

Poesia - Chacal

"Se os editores afirmam: poesia não vende; replicamos: poesia não é vendida! Se os colunistas que se tornaram mais importantes que as notícias que escrevem afirmam: poesia não é notícia; replicamos: poesia é a própria notícia! Se alguém insiste em dizer: poesia é chata; reiteramos: poesia chateia os medíocres. Se afirmarem: poesia é coisa de doido e de otário; corrigiremos: poesia coloca os imbecis e os canalhas em seus devidos lugares!" (Chacal).