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14.12.17

Como visitar um doente de câncer (é bem parecido com visitar um bebê)

Como disse minha mãe, vendo minha avó com familiares, cuidadoras, técnicos e fisioterapeutas aprendi a ter muito respeito por quem cuida do dia a dia do paciente, seja qual for. Se você não faz parte dessa turma e resolveu que fará apenas visitas esporádicas, lembre que naquele momento aquela casa é muito parecida com um hospital. Visitar um paciente com câncer é bem parecido com visitar um bebê (sério, não há deboche aqui):
- Se quiser levar comida pergunte antes o que a pessoa pode comer. Pergunte para ela e para quem está cuidando do dia a dia, que é quem vai saber melhor do que ninguém o que é permitido ou não. Explico: dependendo do tratamento a dieta pode ser muito restritiva. Ou a pessoa pode estar com náuseas.
- Pode por plumas e paetês se quiser, até quebra o gelo mas NÃO PONHA PERFUME. A pessoa pode estar com náuseas.
- Não ligue dizendo "estou pertinho da sua casa, posso dar uma passada aí?" Marque antes, com antecedência. A pessoa pode estar com náuseas. Dependendo do tipo de câncer pode estar com incontinência urinária ou fecal e num dia de diarréia.
- É lanche? Leve o lanche, bote a mesa, tire a mesa, lave, seque e guarde a louça. O doente não tem condições de fazer isso. Nada disso é função da cuidadora, enfermeira ou técnica de enfermagem. A empregada, dependendo do tratamento, estará afogada em roupa suja ou em trocentas panelas cozinhando ao mesmo tempo para encontrar uma comida permitida e que não dê náuseas no doente. A companheira ou companheiro está com medo, exausto, estressado e, muitas vezes lidando com o plano de saúde, a clínica a Anvisa e a Receita Federal, tudo ao mesmo tempo, para importar uma medicação que não é mais feita aqui por que não é lucrativa o bastante...
- Pergunte (e faça) o que a pessoa quer, de que ajuda precisa: mercado? Feira? Pagar na agência do banco aquele boleto que venceu?
Seja útil. O câncer não é contagioso, você não vai se contaminar. Mas o câncer é extremamente solitário para o paciente e para quem cuida do dia-a-dia. Esteja presente. Mesmo que seja por telefone, e-mail, whatsapp, skype. Mostre que se importa.
- Não diga bobagens como "tudo vai dar certo" ou "minha tia teve um câncer de pele no dedão do pé e está ótimo". Às vezes o cliente é terminal. O câncer da sua tia não tem nenhuma relação com o câncer da pessoa que você está visitando: existem vários tipos de câncer e cada organismo tem suas peculiaridades. A atuação do câncer em cada um é bem específica
- Você é médico? Sim, eu sou leiga. Esse texto é a minha experiência pessoal, portanto exclusiva. Sim, o que eu disse não se aplica à todos. Mas se aplica a maioria. E já que você é médico, que tal lembrar que paciente não é cliente?
Sim, Bruno sorria. Sorrir é bom e faz bem mas não significa que a pessoa está curada.

1.12.17

Prêmio João Canuto 2017

O jornalista, poeta e ativista Bruno Cattoni  será homenageado, assim como Vic Militello, no Prêmio João Canuto deste ano. Dia 11 de dezembro, segunda-feira, às 18h, no Teatro I do CCBB (RJ). Além da importante entrega de 08 (oito) prêmios à relevantes pessoas e instituições, show com Simone Mazzer, Rafael Erê e Valéria Houston. ENTRADA FRANCA!


17.11.17

Tangeria murcote

Hoje está sendo um dia especialmente difícil. Há dois meses levei Bruno para uma internação para exames. Ele não teve alta. No fundo eu sabia que não teria e ele também. No fundo sabíamos que não havia alternativa. Mas não foi isso que planejamos. Controladores e tolos, acreditamos que poderíamos controlar e planejar a morte: na nossa casa, no nosso quarto, na nossa cama, com os nossos gatos, olhando para a nossa vista. O que aconteceu foi bem diferente.

Nas primeiras 24 horas de hospital não dormi. Ficamos das 18h de domingo à 1h40 de segunda para convencê-lo a ir para o hospital, para entrar, para fazer os exames. Só dormi segunda-feira, no hospital, pouco antes de meia noite. Acordei uma hora e meia depois passando muito mal e fui levada às pressas para o pronto socorro. Não sou hipertensa. Minha pressão estava há 19/12. Mediram mais duas vezes e bateu 18/11 nas duas. Me deram um anti-hipertensivo sublingual, rivotril e dipirona. A cabeça parecia que ia rachar, os ombros e o pescoço pareciam de pedra. Eu só chorava, completamente desesperada e a única coisa que eu conseguia dizer era: "Tudo à toa, tudo à toda". Porque aquele foi o momento em que eu entendi racional e emocionalmente que acabou. Que não havia mais o que fazer. Que não tinha prorrogação. Fim. E um fim fora de esquadro, em um hospital frio, mercantilizado, que chamava o meu marido, pai da filha dele, tio dos sobrinhos, de 07, porque o quarto era o 1207.

Como o hospital nos deixou no escuro e inseguros com informações desencontradas e contraditórias, liguei para a médica dele de sempre. Ela me perguntou: você está pronta?

Você está pronta?

Não, eu não estava pronta. Eu hoje, sentada na mesa da sala enquanto digito este texto não estou pronta. Não faço ideia se estarei um dia. Respondi que não, que não estava pronta mas que estava preparada.

Eu não sabia mas eu estava mentindo. Eu não estava preparada.

Fui ao mercado essa semana e comprei açúcar mascavo, manga e tangerina murcote entre outras coisas. Ontem minha mãe perguntou porque diabos eu comprei açúcar mascavo se ninguém aqui usa. E avisou que a manga e a tangerina estavam estragando. É assim que a gente vai ficando preparada - pronta não. Quando se dá conta que não deixou de comprar as coisas que ele come e que, óbvio, não comeu porque são dele. Comi as duas, a manga e a tangerina.

Hoje completam-se dois meses que durmo sozinha. Ainda faço a contagem do tempo de morte incluindo dias. Ainda dou boa noite.


4.11.17

Poema sobre o Vazio - de Bruno Cattoni

Poema sobre o vazio

Escrevi um milhão de poemas no tempo-espaço de uma vida
Sobram seis versos.
Afiei um milhão de facas nas pedras que se me interpuseram
Sobra a estrada.
Matei milhares de animais para matar minha fome
Sobra um ser de nada
Soletrei tantos alfabetos que nem mais me comunico
Sobra a palavra amor.
Expulso do tempo, ando com um estrépito de asas no crânio
Não sei qual delas é par da alma, nem quando
Erguer-se-á, pela janela dos olhos, no vento que não enxergo.

CATTONI, Bruno. Osso (na cabeceira das avalanches). Rio de Janeiro: 7Letras, 2005


30.10.17

Amor ou telemarketing?

- Boa tarde, o senhor Bruno por favor?
- Ele morreu.
- A responsável pelas compras da casa agora é a senhora?

Ele morreu há apenas 3 semanas e já recebi três ligações como essa. Não deveria ter recebido nem mesmo uma.

Quando estava vivo, no auge da radioterapia, esquálido e com os médicos dizendo que ele não chegaria ao final do tratamento (chegou) as ligações eram ainda mais perversas porque não tinha ninguém do outro lado da linha. Era uma gravação oferecendo serviços funerários.

Sim, é isso mesmo: alguma agência é imbecil e canalha o bastante e algum cliente mais imbecil e mais canalha ainda para aprovar uma campanha que consiste em assediar famílias de pacientes oncológicos com telefonemas a qualquer hora do dia ou da noite, dia útil ou final de semana, oferecendo assistência funerária. Não solicitada.

Sim, dentro do universo da saúde (médicos, hospitais, clínicas, operadoras e etc.) há quem vaze ou venda informações sobre pacientes graves, em situação de risco. Hoje nos hospitais há placas alertando para golpes dados por telefone contra os pacientes e familiares. Ligavam para o meu celular e para o dele e, não satisfeitos, ligavam para o telefone fixo.

Imagine a cena: a pessoa que você ama, a quem você quer bem, absolutamente debilitada resolve ir sozinha para a radioterapia porque não é só o corpo que se deteriora, é o emocional também. Você cede, ainda que apavorada, porque entende que naquele momento, para sobreviver, a pessoa precisa acreditar que ainda tem alguma autonomia e gerência sobre a própria vida. Mesmo que não tenha. Vinte minutos depois da pessoa entrar em um táxi você atende um telefonema falando sobre a importância de ter quem nos auxilie nesse momento tão difícil, etc, etc, palavras desencontradas, baboseiras terroristas e, no meio, a palavra chave. A palavra que vai te derrubar no chão. Que vai te tirar a capacidade de perceber que é uma gravação: funerária.

Não, você não percebe de imediato que é uma gravação. Por um instante você pensa que a ligação é da clínica e que a pessoa morreu. E por um instante você perde o ar, o coração dispara, as pernas faltam. É apenas um instante. Mas esse instante dura uma eternidade, rouba sua paz de espírito - quando ainda há alguma - te desrespeita, desrespeita sua dignidade e a do paciente. Invade sua casa para te desrespeitar.

É por um instante e é aterrador. Principalmente quando você é acordado por essa ligação. E ela te acorda, várias vezes. E se você tem um paciente terminal em casa o sono é artigo raro e qualquer coisa que o perturbe traz junto taquicardia. Essas ligações não são só desrespeito, elas roubam a nossa saúde.

Esse instante acaba porque a gravação continua, indiferente ao seu interesse ou repulsa, agora oferecendo números para você escolher. "Para contratar digite 1" e por aí vai.

Tentei várias vezes, depois de me recuperar do susto, deixar a gravação ir até o fim para falar com o atendente e cancelar. Caía antes. Quando ia até o fim, a opção "cancelar" também derrubava a ligação. Enfim: usei o Reclame aqui e parecia que tinha acabado.

Há vinte e dois dias Bruno morreu. Há vinte foi enterrado. Semana passada recebi outra ligação como essa.

É imprescindível uma discussão e a tomada de ações relativas à todo o universo da indústria da saúde. E da publicidade e do marketing que o atravessam, via de regra, de forma aética, imoral, vergonhosa. Não dá para esperar que o governo haja. Cada um tem que, a partir de sua esfera, refletir, propor e exigir. No Brasil de hoje o doente e seus familiares são desrespeitados, não contam. Só o dinheiro importa. Médicos estão mercantilizando suas atuações. Hospitais estão, sorrateiramente, descontinuando o atendimento médico e privilegiando os serviços de hotelaria. Sim, é esse o termo usado. Hotelaria. Não é só a saúde pública que está caótica, a particular também. A Saúde não importa mais, é só palavra vazia em discurso de campanha e fonte de renda, alta renda, no resto do ano.


26.10.17

Estado Civil

Hoje tive o pôr-do-sol mais lindo de todos, desde que nos mudamos. Dourado. Lembra dos dourados? Que a gente via em silêncio para não atrapalhar? Imóveis para não macular? O de hoje foi assim. Mas você não estava do meu lado, imóvel e em silêncio, vendo tanta beleza. E estava tão lindo que doeu. Doeu sua ausência, doeu você não ver tanta beleza.

De toda burocracia em que nos afogamos durante o luto a mais massacrante que enfrentei até agora foi escrever viúva pela primeira vez. Me classificar e me identificar como viúva. Não é só uma palavrinha, não são apenas cinco letras: é aquela ausência enorme. É aquela pessoa que não é mais - nem para mim, nem para os outros, nem para si própria. É a família que acabou, o casal que não existe mais, os projetos que se perderam. Alguns em definitivo, outros terão que ser ressignificados, adaptados, adequados, enfim, virarão outra coisa. É um amontado de fins, encerramentos e transmutações que não foram desejados, acalentados, geridos, protegidos e cultivados. É uma hecatombe. É uma praga que se alastra vorazmente e põe por terra o que encontra pelo caminho.

E tudo que posso fazer é escrever "viúva" e torcer para sobreviver. Sim, sobreviver, como disse uma amiga, é à revelia. E hoje eu sei o quanto isso é verdade e como, às vezes, pode ser irritante. Estou falando aqui de torcer para sobreviver com gosto. De acordar com prazer, dormir porque tem sono, descobrir um sabor diferente naquele prato de sempre numa cozinha nova.

Nunca foi tão difícil dar um passo de cada vez, viver apenas um dia por dia.




4.10.17

QUANDO E COMO - de Bruno Cattoni

Quando Bruno e eu nos conhecemos, já no dia seguinte ele me enviou uma mensagem dizendo que queria me encontrar. Fiz só uma pergunta: "Quando e como?". Essa foi a resposta:

QUANDO E COMO
Minha alma sabe tudo sobre você
Não porque sabe ou quer saber,
Mas pelo que não sabe não saber
Não quer dizer que não sabemos
Só não precisamos nos esforçar
Ou correr o risco de ter juízo
Somos testemunhas do imprevisto
O amor substitui a curiosidade
Como cavalo que volta pra casa...
Quando põe de vez a meta na alma.

Hoje uma colega de trabalho enviou o poema em áudio para ele com uma mensagem de apoio. Chorei baldes. Litros do melhor dos choros - aquele da lembrança das coisas boas, dos bons momentos. Obrigada, Bette.

24.6.17

Câncer. Você tem o direito de saber.

Você tem o direito de saber. O tratamento, o porquê dessa escolha, quais as medicações, como elas atuam, quais as reações adversas possíveis (mesmo as improváveis), quais as sequelas possíveis (mesmo as improváveis), quais as sequelas certas.

Você tem o direito de saber se há outras opções de tratamento. Você tem o direito de escolher assim como tem o direito de arcar com as consequências, positivas ou negativas, das suas escolhas.

Você tem o direito de saber seu prognóstico, bom ou ruim. Você tem o direito também de escolher não saber. E cabe sim ao médico respeitar e atender sua decisão. A vida é sua, não é dele.

Você tem o direito de saber sua expectativa de vida. Você tem o direito de escolher não saber sua expectativa de vida. Com ou sem câncer, você tem sonhos, projetos, possivelmente uma família ou amigos, uma vida enfim. E tem todo o direito de saber quanto tempo ainda tem e se tem para se planejar e deixar tudo como você quer. Você tem o direito de gerir a sua vida e só com informação e informação correta você poderá fazer isso de forma eficiente, eficaz, satisfatória e, por que não, prazerosa.

Você tem o direito de saber. Você tem direitos. Você. É a sua vida. Exija.

Inca RJ
Praça Cruz Vermelha, 23 - Centro - 20230-130 - Rio de Janeiro - RJ - Tel. (21) 3207-1000

Inca SP

Onde tratar pelo SUS

Disque Saúde
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4.4.17

Mexeu com uma mexeu com todas. Chega de assédio!

#chegadeassédio #MexeuComUmaMexeuComTodas Uma denúncia que não é anônima, feita através de uma coluna em um jornal que concedeu o direito de resposta no mesmo espaço e junto, e que conta com o suporte imediato de colegas da denunciante e de profissionais de todas as áreas, inclusive advogadas, está longe de um linchamento virtual. Não tem qualquer relação com linchamento virtual. Aos meus amigos e conhecidos homens e minhas amigas e conhecidas mulheres que ainda reproduzem machismo e que criticam feminismo sem saber do que se trata sugiro que se informem, que reflitam e, principalmente, que aprendam a ouvir. As mulheres estão finalmente falando. Ouçam. E não, não pensem que "podia ser minha mulher ou minha filha". Suas mulheres e filhas não devem ter privilégios, prerrogativas ou mais direitos que as outras mulheres. Pensem que são seres humanos como vocês e que têm que ser respeitadas.
Tem que botar a boca no trombone sim! De forma responsável, com suporte, com orientação legal para não virar o algoz da história. Mas tem que por a boca no trombone sim!