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4.11.17

Poema sobre o Vazio - de Bruno Cattoni

Poema sobre o vazio

Escrevi um milhão de poemas no tempo-espaço de uma vida
Sobram seis versos.
Afiei um milhão de facas nas pedras que se me interpuseram
Sobra a estrada.
Matei milhares de animais para matar minha fome
Sobra um ser de nada
Soletrei tantos alfabetos que nem mais me comunico
Sobra a palavra amor.
Expulso do tempo, ando com um estrépito de asas no crânio
Não sei qual delas é par da alma, nem quando
Erguer-se-á, pela janela dos olhos, no vento que não enxergo.

CATTONI, Bruno. Osso (na cabeceira das avalanches). Rio de Janeiro: 7Letras, 2005


4 comentários:

  1. Ele me deu esse livro. Sensacional! Meu poema favorito é "Com os ossos", incrivelmente cerebral.

    Vera Maria Sarres

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  2. "Aquele homem escrevia com os ossos
    Não que fosse magro, enfermo, o traço
    Vinha das falanges, não das digitais
    Podia ser qualquer esqueleto bestial
    Mas tinha a sua marca, personalidade
    O fósforo se espalhava no papel
    E o texto se iluminava e irradiava
    As letras eram besuntadas de cálcio
    Força de uma delicadeza abismal"

    Disse o Eduardo Tornaghi uma vez, não sei se da própria cabeça ou se parafraseando alguém, que Bruno tinha os neurônios em chamas ou algo parecido. Queria tanto lembrar... porque achei perfeita a definição.

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