O prazer de descobrir uma autora e se apaixonar. E a vergonha de não ter conhecido antes. A poesia de Conceição Evaristo me arrebatou, me encantou.
Acabei de comprar seu livro Poemas da recordação e outros momentos (Editora Malê, 2017) e estou lendo apenas 3 poemas por dia, para adiar o fim da leitura. É tão bom que não quero que acabe.
Vencedora do prêmio Jabuti de 2004 com seu livro Olhos d’água, em entrevista concedida a Djamila Ribeiro para a revista CartaCapital, Conceição Evaristo aponta que "as feministas brancas usam uma máxima quando elas falam que escrever é um ato político. Para nós mulheres negras, escrever e publicar é um ato político." Sua visão crítica sobre o sistema literário (editoras, bibliotecas, críticos, livrarias, etc.) é preciso. A hegemonia do homem branco no cenário literário é clara. O que se verifica facilmente observando a formação do quadro de imortais da ABL, protegido por suas exceções. Ou, ainda, quando se constata que a edição de 2018 da Flip, evento que começou em 2003, é a que finalmente apresenta maior diversidade. Em tempo, Conceição se candidatou esse ano para a ABL. Uma boa oportunidade da Academia chegar finalmente em 2018.
Conceição vem sendo muito bem-sucedida nesse ato político de escrever e publicar. Ano passado toda sua obra foi reeditada. A Doutora em literatura comparada pela UFF, transita com fluidez pela poesia e pela prosa. Sua produção literária não se restringe a temas prosaicos. Trata do dia-a-dia e do amor, mas trata também da mulher negra, da história dos negros. É uma escritora gigante, que aborda temas áridos, mas de discussão necessária, transformando palavras em entidades livres, quase táteis, que se entrelaçam criando um tecido tão forte quanto delicado. Abaixo um de seus poemas.
VOZES-MULHERES
(de Conceição Evaristo)
A voz de minha visavó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela
A minha voz ainda
ecoa Versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem - o hoje - o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
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22.8.18
15.8.18
Poesia das Meninas - Fal Azevedo
Fal Azevedo é uma escritora e tradutora paulista. Conheci a Fal em 2003 através de seu blog "Drops da Fal". Criado pela escritora, o Drops foi um dos mais importantes no cenário brasileiro.
Naquele momento pré-Facebook, os livros de visitas dos sites eram bastante utilizados. O da Fal virou rapidamente uma animadíssima comunidade. Ali vários blogueiros conheceram uns aos outros, laços de amizade foram criados - e mantidos - e várias vezes contatos virtuais se tornaram presenciais.
Porque a Fal é agregadora, acolhedora. Ela responde todo mundo e todo mundo se sente especial. É um dom. Onde ela bota as mãos a leveza se faz presente. Mesmo no romance em que fala sobre a vida depois da morte precoce do marido.
Seu texto é envolvente, fluido. É fácil se reconhecer nos personagens. E essa identificação atrai.
Não há em sua escrita espaço para pedantismos e textos herméticos. São crônicas perfeitas dos dias de hoje. Na primeira ou na terceira pessoa, a figura da mulher - das mulheres, somos muitas - se apresenta de forma honesta, direta e a partir da ótica de uma mulher. Não há ativismos, bandeiras não são levantadas. O retrato feito ali do nosso dia-a-dia, intencional ou não, faz esse papel, dá voz a mulher de hoje.
No prelo, dois títulos: Como ensinar um idiota a dançar e Faço chá de hortelã e espero que fique tudo bem. A pré-venda já começou. A autora tem 5 livros já publicados: Crônicas de quase amor, O nome da cousa, Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite, Sonhei que a neve fervia e Todo mundo adora saturno.
Nunca mais vi meu amigo, meu amigo nunca mais me viu
Uma vez eu me despedi do maior amigo que já tive na vida.
Era uma sala, não, era uma espécie de vestíbulo, todo verde.
Eu, no pé da escada, a madeira pintada de branco, minha calça de linho cor de abóbora; ele a alguns passos de mim. Foi um ou dois dias antes do avião; aquela cidade era o centro do mundo; aquela dor era o meu peito; ele estava noivo e usando uma camiseta cinzenta; eu, sem rumo e de sapatos azuis; ele vinha partindo meu coração há mais de uma década, partindo meu coração, partindo meu coração, partindo meu coração, estilhaçando meu coração.
Ele me disse alguma coisa, eu disse blablablá, ele virou as costas e saiu dando passos largos, e quando vi a nuca dele, meio cor de rosa, meio creme, o cabelo alourado, raspado, encontrando a pele fininha, soube que nunca mais ia vê-lo.
Naquela hora, naquele exato momento, eu disse a mim mesma, disse, disse, disse, disse, disse, disse, disse, eu disse: “Nunca mais vamos nos ver”.
Pelas décadas seguintes nos encontramos algumas vezes, um trampo aqui, um esbarrão em um café ali.
Mas nunca mais vi meu amigo, meu amigo nunca mais me viu.
E da longa, muito mesmo, lista de homens que não me quiseram, ele é o retrato pendurado na parede, tantos anos, tantos anos, tantos anos.
Naquele momento pré-Facebook, os livros de visitas dos sites eram bastante utilizados. O da Fal virou rapidamente uma animadíssima comunidade. Ali vários blogueiros conheceram uns aos outros, laços de amizade foram criados - e mantidos - e várias vezes contatos virtuais se tornaram presenciais.
Porque a Fal é agregadora, acolhedora. Ela responde todo mundo e todo mundo se sente especial. É um dom. Onde ela bota as mãos a leveza se faz presente. Mesmo no romance em que fala sobre a vida depois da morte precoce do marido.
Seu texto é envolvente, fluido. É fácil se reconhecer nos personagens. E essa identificação atrai.
Não há em sua escrita espaço para pedantismos e textos herméticos. São crônicas perfeitas dos dias de hoje. Na primeira ou na terceira pessoa, a figura da mulher - das mulheres, somos muitas - se apresenta de forma honesta, direta e a partir da ótica de uma mulher. Não há ativismos, bandeiras não são levantadas. O retrato feito ali do nosso dia-a-dia, intencional ou não, faz esse papel, dá voz a mulher de hoje.
No prelo, dois títulos: Como ensinar um idiota a dançar e Faço chá de hortelã e espero que fique tudo bem. A pré-venda já começou. A autora tem 5 livros já publicados: Crônicas de quase amor, O nome da cousa, Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite, Sonhei que a neve fervia e Todo mundo adora saturno.
Nunca mais vi meu amigo, meu amigo nunca mais me viu
Uma vez eu me despedi do maior amigo que já tive na vida.
Era uma sala, não, era uma espécie de vestíbulo, todo verde.
Eu, no pé da escada, a madeira pintada de branco, minha calça de linho cor de abóbora; ele a alguns passos de mim. Foi um ou dois dias antes do avião; aquela cidade era o centro do mundo; aquela dor era o meu peito; ele estava noivo e usando uma camiseta cinzenta; eu, sem rumo e de sapatos azuis; ele vinha partindo meu coração há mais de uma década, partindo meu coração, partindo meu coração, partindo meu coração, estilhaçando meu coração.
Ele me disse alguma coisa, eu disse blablablá, ele virou as costas e saiu dando passos largos, e quando vi a nuca dele, meio cor de rosa, meio creme, o cabelo alourado, raspado, encontrando a pele fininha, soube que nunca mais ia vê-lo.
Naquela hora, naquele exato momento, eu disse a mim mesma, disse, disse, disse, disse, disse, disse, disse, eu disse: “Nunca mais vamos nos ver”.
Pelas décadas seguintes nos encontramos algumas vezes, um trampo aqui, um esbarrão em um café ali.
Mas nunca mais vi meu amigo, meu amigo nunca mais me viu.
E da longa, muito mesmo, lista de homens que não me quiseram, ele é o retrato pendurado na parede, tantos anos, tantos anos, tantos anos.
25.7.18
Poesia das Meninas - Christiana Nóvoa
A carioca Christiana Nóvoa é autora do livro Breviário das pequenas horas (Ed. Patuá). Tem poemas citados no romance Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa (Vencedor do Prêmio Fernando Namora 2013, Portugal) e em diversas revistas de Literatura e Poesia. Desde 2005 publica seus textos no blog Nóvoa em Folha: http://novoaemfolha.com
sinto em mim as dores
das poetas mortas
seus caminhos tristes
seus amores vãos
vejo em outras mãos
agora tão minhas
suas vidas linhas
mal-traçadas tortas
e as formas tão certas
da sua poesia
fiel companhia
das noites desertas
páginas vazias
artérias abertas
na insana sangria
;
a guerra perdida
e o gozo perverso
de um verso suicida
a náusea .
sinto em mim as dores
das poetas mortas
seus caminhos tristes
seus amores vãos
vejo em outras mãos
agora tão minhas
suas vidas linhas
mal-traçadas tortas
e as formas tão certas
da sua poesia
fiel companhia
das noites desertas
páginas vazias
artérias abertas
na insana sangria
;
a guerra perdida
e o gozo perverso
de um verso suicida
18.7.18
Poesia das Meninas - Tatiana Nascimento
A brasiliense Tatiana Nascimento é escritora, compositora, cantora. Criou com a poeta Bárbara Esmenia a Padê Editorial, uma editora artesanal de livros caseiros, voltada para a publicação de autoras negras periféricas, lésbicas, fora dos grandes circuitos literários. Tatiana cria e realiza.
a dança
“qual é a música, maestro?”
eu ainda tô aprendendo
a te amar
a não contar as horas
não chorar demoras
nem temer recusa
desalimentar expectativas difusas
(profusão de análises semânticas
dum “oi” que significa só ele
mesmo: “oi”)
eu ainda tô aprendendo
a me perdoar
não ter falado um tanto
(ou ter falado tanto)
por ter errado tanto
quanto você
por me machucar
(y com certeza um dia
me perdôo por te
machucar)
eu ainda tô aprendendo
a tatear a densidade leve do ar
nessa ponte que erguemos entre
o meu y o teu
silêncio
a tua y a minha
ausência
a histórica
carência
a memória da
latência
a querência da
trajetória que tentamos
trilhar juntas mesmo em tanta
perdição
y inda tô desaprendendo
o teu mais que meu
desapego
y el mío mais que el tuyo
celo
a esquecer
o que não
tem per
dão
não existe mais máquina do tempo
depois dos 32 (anos, dentes, anéis de
saturnos, casório-y-separação, DRs y des
ilusão)
mas talvez tem mágica no vento capaz de
dar uma pausa no tudo que aconteceu depois
que eu viajei pra salvador y você cantou,
no caminho do aeroporto,
“nunca mais
vou gostar de você
nunca mais”
.
ou se não uma pausa, só:
dissolver o mal-estar,
se não dissolver só:
nos lembrar:
que num tem mal-estar maior que aquele afeto doido que foi/fez
sentido. que um dia caiu. que se machucou. que joelho ralou.
y que um dia virou outro afeto: uma noite se desvelou.
y olha:
fosse aquele tempo eu cobria com babosa
machucada y mel (melhores cicatriz
antes) o joelho ralado do afeto
eu colava um bandeid em
cima y até dava um
bejinho
pra sarar
mais depressa
mas como o tempo é esse agora tô mirando
a cicatriz pra lembrar que
tudo que corre
pode tropeçar, pode cair,
pode escorregar. ou pode ganhar
impulso pra voar, na beira dos dois gumes:
planar. pousar.
demorou uma era, bissexta²,
pra eu poder me rever do seu lado
y tô reaprendendo andar no meu passo
(que c zombeteira troca com o seu). sipá um dia
nesse tempo-espaço
a gente
até
volta a se bailar.
--------------------------------------------------------------
Tatiana Nascimento e Djamila Ribeiro no programa Espelho, de Lázaro Ramos
15 anos de Dedo de Moça!
Já passou de meia noite, o que significa que o Dedo de Moça está oficialmente no ar há 15 anos!
Foi chão até aqui. A internet mudou, as redes sociais surgiram e os blogs ficaram meio de lado com essa novidade. Passado o entusiasmo e mais do que consolidada a integração das redes sociais, uma questão se colocou para quem apresenta seu trabalho também online: as redes sociais não indexam o material produzido. Aquele texto maravilhoso, aquele artigo contundente, aquela foto que emociona, tudo, tudo fica online, mas não é fácil encontrar.
E é justamente essa a grande vantagem dos blogs: uma indexação funcional, um registro estável de produção de conteúdo. As mídias disponíveis para produção, exposição e compartilhamento de conteúdo se multiplicaram. Plataformas para vídeo, áudio e fotos despontaram. Uma transformação que tornou a experiência na internet mais rica, mais atraente, para produtores e consumidores de conteúdo online. O Dedo de Moça passou e passa por essa metamorfose.
O blog continuará voltado principalmente para poesia e prosa. A questão que mais me mobiliza no momento - a visibilidade das poetas brasileiras vivas - ganha uma coluna fixa, o Poesia das Meninas, para publicar essas autoras.
Continuarei publicando meus poemas e minhas crônicas.
A página no Facebook é o espaço para a reflexão sobre a palavra, o mercado editorial, as edições independentes, a atuação da literatura nas questões sociais, nos debates políticos. E amenidades também, por supuesto.
E muito em breve uma incursão também no YouTube, mostrando a cara e com direito a uma bela parceria.
Quinze anos hoje. E espero no mínimo mais quinze pela frente!
Foi chão até aqui. A internet mudou, as redes sociais surgiram e os blogs ficaram meio de lado com essa novidade. Passado o entusiasmo e mais do que consolidada a integração das redes sociais, uma questão se colocou para quem apresenta seu trabalho também online: as redes sociais não indexam o material produzido. Aquele texto maravilhoso, aquele artigo contundente, aquela foto que emociona, tudo, tudo fica online, mas não é fácil encontrar.
E é justamente essa a grande vantagem dos blogs: uma indexação funcional, um registro estável de produção de conteúdo. As mídias disponíveis para produção, exposição e compartilhamento de conteúdo se multiplicaram. Plataformas para vídeo, áudio e fotos despontaram. Uma transformação que tornou a experiência na internet mais rica, mais atraente, para produtores e consumidores de conteúdo online. O Dedo de Moça passou e passa por essa metamorfose.
O blog continuará voltado principalmente para poesia e prosa. A questão que mais me mobiliza no momento - a visibilidade das poetas brasileiras vivas - ganha uma coluna fixa, o Poesia das Meninas, para publicar essas autoras.
Continuarei publicando meus poemas e minhas crônicas.
A página no Facebook é o espaço para a reflexão sobre a palavra, o mercado editorial, as edições independentes, a atuação da literatura nas questões sociais, nos debates políticos. E amenidades também, por supuesto.
E muito em breve uma incursão também no YouTube, mostrando a cara e com direito a uma bela parceria.
Quinze anos hoje. E espero no mínimo mais quinze pela frente!
![]() |
Eu era assim. |
27.6.18
Poesia das Meninas - Maria Carolina de Jesus
Procuro numa livraria online de grande porte o Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Encontro na seção de literatura infantojuvenil.
Uma livraria põe Maria Carolina de Jesus como literatura infantojuvenil. Uma livraria que também vende celulares, consoles e games. Para essa livraria, me parece, é tudo produto, no sentido comercial da palavra. E produto que o vendedor não precisa conhecer, ou Quarto de Despejo não estaria em literatura infantojuvenil. Para ser absolutamente justa, Diário de Bitita estava em literatura brasileira, menos mau.
Atualmente institutos de porte como a Biblioteca Nacional, o Instituto Moreira Salles, o Museu Afro Brasil, o Arquivo Público Municipal de Sacramento e o Acervo de Escritores Mineiros (UFMG) têm a custodia da produção da escritora. Espero que a prosa, a poesia e as letras de música de Maria Carolina extravasem os limites da Academia e dos Institutos e se tornem parte de nossas estantes e nossas leituras.
Então apesar de hoje ser quarta, aqui dia de poesia, vou postar alguns trechos de Quarto de Despejo, a prosa mais poética que já vi.
“As oito e meia da noite eu já estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com barro podre. Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quanto estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.”
“Quando eu vou na cidade tenho a impressão que estou no paraizo. Acho sublime ver aquelas mulheres e crianças tão bem vestidas. Tão diferentes da favela. As casas com seus vasos de flores e cores variadas. Aquelas paisagens há de encantar os olhos dos visitantes de São Paulo, que ignoram que a cidade mais afamada da América do Sul está enferma. Com as suas úlceras. As favelas.”
“Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reencarnações, eu quero voltar sempre preta."
Uma livraria põe Maria Carolina de Jesus como literatura infantojuvenil. Uma livraria que também vende celulares, consoles e games. Para essa livraria, me parece, é tudo produto, no sentido comercial da palavra. E produto que o vendedor não precisa conhecer, ou Quarto de Despejo não estaria em literatura infantojuvenil. Para ser absolutamente justa, Diário de Bitita estava em literatura brasileira, menos mau.
Atualmente institutos de porte como a Biblioteca Nacional, o Instituto Moreira Salles, o Museu Afro Brasil, o Arquivo Público Municipal de Sacramento e o Acervo de Escritores Mineiros (UFMG) têm a custodia da produção da escritora. Espero que a prosa, a poesia e as letras de música de Maria Carolina extravasem os limites da Academia e dos Institutos e se tornem parte de nossas estantes e nossas leituras.
Então apesar de hoje ser quarta, aqui dia de poesia, vou postar alguns trechos de Quarto de Despejo, a prosa mais poética que já vi.
“As oito e meia da noite eu já estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com barro podre. Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quanto estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.”
“Quando eu vou na cidade tenho a impressão que estou no paraizo. Acho sublime ver aquelas mulheres e crianças tão bem vestidas. Tão diferentes da favela. As casas com seus vasos de flores e cores variadas. Aquelas paisagens há de encantar os olhos dos visitantes de São Paulo, que ignoram que a cidade mais afamada da América do Sul está enferma. Com as suas úlceras. As favelas.”
“Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reencarnações, eu quero voltar sempre preta."
![]() |
Maria Carolina de Jesus e a capa da primeira edição de Quarto de Despejo |
13.6.18
Poesia das Meninas - Ana Rüsche
Conheci Ana Rüsche quando produzia a Flap! (Festival Literário Alternativo à Paraty) aqui no Rio de Janeiro. Ana era uma das co-organizadoras do evento em São Paulo. Gosto muito de seu texto direto, reto, forte. Uma voz feminina. O poema A Ceramista faz parte do livro Furiosa, que está disponível para download gratuito em seu site.
agora já são cinco privês
antes era um prédio respeitável
escavo escadas ante a mudez
do elevador, guilhotina pichada
no pó suspenso no ar
catedrais de coisas abandonadas
e lá dentro chafurdo com minhas duas
mãos nas peças de cerâmica
e como parteira tiro do barro
um caco, um vaso, um sonho, um sopro
Rüsche, A. (2016). Furiosa. São Paulo: Edição da autora.
a ceramista - de Ana Rüsche
agora já são cinco privês
antes era um prédio respeitável
escavo escadas ante a mudez
do elevador, guilhotina pichada
no pó suspenso no ar
catedrais de coisas abandonadas
e lá dentro chafurdo com minhas duas
mãos nas peças de cerâmica
e como parteira tiro do barro
um caco, um vaso, um sonho, um sopro
Rüsche, A. (2016). Furiosa. São Paulo: Edição da autora.
7.6.18
Estação da carioca - de Alice Sant'Anna
Poesia das Meninas
Observando a prevalência de autores masculinos em premiações, coletâneas e antologias, resolvi usar esse espaço também para apresentar o trabalho de outras poetas. Quarta-feira agora é dia de poesia das meninas no Dedo de Moça. Escrita, em áudio ou vídeo.
O poema Estação da Carioca, de Alice Sant'Anna torna-se um cinepoema onírico, leve e cativante. O vídeo conta com direção de Jô Serfaty, co-direção de Geraldine Pasztor e Jonas Sá e concepção da própria Alice com os três..
Observando a prevalência de autores masculinos em premiações, coletâneas e antologias, resolvi usar esse espaço também para apresentar o trabalho de outras poetas. Quarta-feira agora é dia de poesia das meninas no Dedo de Moça. Escrita, em áudio ou vídeo.
O poema Estação da Carioca, de Alice Sant'Anna torna-se um cinepoema onírico, leve e cativante. O vídeo conta com direção de Jô Serfaty, co-direção de Geraldine Pasztor e Jonas Sá e concepção da própria Alice com os três..
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