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7.1.16

"Cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180"


CONTRA O FEMINICÍDIO  E A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA LIGUE 180


(Para ler ouvindo Elza Soares cantando Maria da Vila Matilde*)
A skatista Giselle Alves foi assassinada no dia 30 de dezembro de 2015 em Paraty, de acordo com blogs e sites internacionais. A nossa imprensa não nega nem confirma, por enquanto. No dia 1 de janeiro já havia matérias em sites no exterior identificando fato e vítima. Aqui deram a notícia identificando a vítima como "uma mulher". Não falam sobre suspeitos e o crime é resumido como "pancada na cabeça". Em um único parágrafo conferiram invisibilidade a Giselle reduzindo-a à "uma mulher" em vez de a skatista brasileira reconhecida no país e no exterior Giselle Alves.
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Natural é se perguntar por que no Brasil a notícia está praticamente escondida. Afinal, Giselle é uma skatista brasileira famosa. As notícias publicadas no exterior e comentários em redes sociais chegam a apontar um suspeito, caracterizando o crime como violência doméstica. Considerando que as investigações mal foram iniciadas, uma imprudência. Se lá foram imprudentes, aqui parecem não se importar. Os questionamentos e a desconfiança fazem sentido uma vez que, em 2013, 4.762 mulheres foram assassinadas no Brasil. Em 1980 foram 1.353. Mais do que o triplo em 3 décadas (fonte: Mapa da Violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil). Mesmo com Lei Maria da Penha, com as Delegacias Especializadas de Defesa da Mulher (veja aqui a relação por estado) e campanhas como Ligue 180, da Central de Atendimento à Mulher.

O assassinato de mulheres tem uma particularidade especialmente perversa que é um segundo assassinato cometido logo em seguida, o do caráter da vítima. Culpam a vítima!

Ângela Diniz foi assassinada por Doca Street em 1976. Não sei onde encontrar dados sobre aquele período. Mas o que importa é que não foi o primeiro assassinato do tipo e está longe de ser o último. Doca foi condenado, no segundo julgamento, à 15 anos de prisão mas cumpriu apenas 3 e teve direito a liberdade condicional. Em entrevista dois anos após o assassinato o pai de Doca faz insinuações sobre o caráter de Ângela (sempre culpam a vítima) enquanto a mãe de Ângela fala o óbvio, que até hoje não é ouvido: "Ela tinha direito de fazer da vida dela o que ela quisesse. Ela tinha direito de não viver mais com esse homem, que ela não queria viver mais com ele. É um direito que ela tinha. E ele quer fazer acreditar que a matou por amor. Por que que ele não morreu também por amor? Por que que ele não dividiu a crueldade?"

No primeiro julgamento Doca foi condenado à apenas 1 ano e meio de prisão, mas conseguiu sursis e já saiu  do fórum em liberdade e aplaudido. As pessoas na rua, homens e mulheres, declaravam para repórteres sua satisfação com a liberdade do assassino. Apenas duas mulheres se declararam contra.

Essa era e continua sendo a cultura no país em relação à mulher: apenas um objeto, sem direitos, nem mesmo o mais básico de todos, o direito à vida. A claque na porta do fórum aparentava concordar com o escritor (adjetive como achar mais adequado) Carlos Heitor Cony, que declarou, na época:

‘Vi o corpo da moça estendido no mármore da delegacia de Cabo Frio. Parecia ao mesmo tempo uma criança e boneca enorme quebrada… Mas desde o momento em que vi o seu cadáver tive imensa pena, não dela, boneca quebrada, mas de seu assassino, que aquele instante eu não sabia quem era’.

Doca só teve um segundo julgamento porque a reação popular (especialmente de feministas) foi negativa frente a uma condenação branda e substituída por liberdade. O julgamento foi anulado e ocorreu então o segundo.

Agir. Agir é o que traz mudança.

Passaram pela mesma tragédia do assassinato físico seguido do moral as famílias de Mônica Granuzzo e Daniella Perez. O pai de Mônica chegou a ser chamado de palhaço pelo juiz que conduzia o caso que, não satisfeito, mandou que a segurança o retirasse do recinto. Sobre Mônica falou-se até que era travesti - como se isso fosse uma ofensa. O assassino de Mônica, o ex-modelo Ricardo Peixoto, hoje dá aula na praia de Copacabana. Brilha vivo sob o sol.

Com Daniella Perez não foi diferente: culparam a vítima e foram além, culpando sua mãe, que estaria exibindo a filha na novela.

Glória Perez agiu. Recolheu 1,3 milhão de assinaturas, conseguindo que homicídio qualificado se tornasse crime hediondo. Há discussão se foi ou não iniciativa popular, se deveria ou não ser hediondo, se a privação de liberdade é solução mas, convenhamos, discussões irrelevantes. Relevante é a lei só ter se debruçado sobre o assunto quando assassinaram uma atriz famosa e branca, filha de uma diretora de tv famosa e branca. Que bom que a repercussão trouxe resultados positivos para as mulheres em alguns casos posteriores ao de Daniella perez. Mas não podemos ignorar que entre 2007 e 2013 o aumento de assassinatos de mulheres negras aumentou em 54% e o de mulheres brancas, no mesmo período, diminuiu em parcos 9,8%.

São tantos casos que não caberíam em um único tomo: Claudia Lessin Rodrigues, Viviane Alves Guimarães Wahbe, Ana Carolina Vieira, Raquel Rodrigues Soares e tantas, tantas mais.

O feminicídio é uma realidade e uma cultura e não só no Brasil. Agir é o único caminho possível. Ligando 180 se a vítima for você ou a outra, escrevendo sobre se for escritora, legislando se estiver na política etc, etc. Use sua área de atuação para mudar essa realidade e essa cultura.

Aja!



  • Para ligar quando for preciso, por você ou por outra: 180, Central de atendimento à Mulher
  • Para saber mais: Lei Maria da Penha
  • 4 comentários:

    1. Essa luta e grande,mas e possivel. Basta de feminicidio. As mulheres tem o direito a uma vida sem violencia !

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    2. Sim, Bel! E um passo importante é passar adiante as informações sobre proteção: o número 180, o endereço das Delegacias de Atendimento a Mulher, o que é e como funciona a Lei Maria da Penha. Os links estão no texto. Obrigada por comentar.

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    3. Sou amiga da Giselle, e venho explicar o porque nao se cita que foi o namorado: Porque por hora, nada se sabe! Os amigos do exterior que publicaram que ela foi assassinada pelo namorado se deixaram levar por comentários feitos no FB, por pessoas que nem conheciam a Gi, que são da cidade onde o crime ocorreu. A Gi não foi "só" assassinada com uma pancada na cabeça (como se isso ja não fosse bárbaro o suficiente!) A Gi foi arrastada pelos cabelos, violentada sexualmente com um pedaço de madeira e seu crânio afundado por, provavelmente, uma pedra. Ainda não temos o laudo do IML para saber se o assassino manteve relações sexuais ou nao. Divulgo isso para que saibam, sim, a Gi merece que você escreva sobre o que aconteceu com ela, ela era uma mulher incrível, uma esportista de qualidade, viajada, cheia de amigos pelo mundo, os jornais abafaram o que realmente aconteceu com ela e por ignorância ou propósito, não citaram quem ela era. Agora...peço que por hora, não diga que foi o namorado. Eu não estou protegendo ele, sequer o conheço, mas o que fizeram com a Gi foi bárbaro demais, se os boatos não se comprovarem, se o rapaz for inocente...imaginem so, viver sendo acusado de tamanha violência sem ter culpa, não é justo com ninguém. Estamos em campanha pedindo Justica pela Giselle e por todas outras mulheres que sofreram e sofrem abuso, seja sexual ou emocional, isso tem que parar, que nenhuma outra mulher tenha que sofrer o que nossa Gi sofreu, nada trará a Gi de volta, mas que o assassino seja preso, que a policia rastreie e mapeie todos homens que tem perfil de estuprador ou molestador e mantenham eles sob vigilancia (como ja ocorre no exterior) que as penas se tornem mais severas. #somostodasgiselle #mexeucomumamexeucomtodas #niunamas

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      1. Fabi, você tem razão, corrigi o texto. Não econtrei mais notícias sobre o caso, se surgirem, agradeço se você puder compartilhar.

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