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16.4.06

Fal Azevedo - O BLOG NAS ESQUINAS DO COTIDIANO

“From the forests and highlands
We come, we come”
Shelley

Cheguei ao mondo blog no comecinho de 2002. O amigo que me indicou os blogs, disse vagamente que eles eram "páginas na internet, fáceis de montar, onde você pode escrever o que quiser, quando quiser". Eu usava a teia eletrônica desde 1997 e nunca tinha ouvido falar deles.
Tendo o blog (já extinto) do meu amigo como plataforma de lançamento, comecei um blog meio parado, e conheci o blog mineiro Mothern, e o blog da paulistana Zel.
Foi como se eu tivesse levado um tapa na cara.
Eu me reconheci ali, em cada palavra.
Eu sabia escrever daquele jeito, eu podia me expressar assim.
Se o cotidiano daquelas mulheres servia para a escrita, oras, o meu servia também.
Em 1999 eu havia lançado um livro pela Editora Iglu, Crônicas de Quase Amor, e havia despontado para o anonimato. Longe do esquemão de distribuição, apadrinhamentos e indicações das grandes editoras e livrarias, eu não tinha a mais vaga idéia de como encontrar leitores. Com o passar do tempo, eu me sentia sem ter o que dizer e nem para quem.
Nos blogs, produzindo o meu e lendo os dos outros, descubro, a cada dia, que sim, eu tenho o que dizer. Todos temos.

Não requer prática
Uma vez dentro desse mundo, descobre-se que a mecânica é muito simples. Diversos sites fornecem a qualquer um as ferramentas básicas para que se coloque um blog no ar em minutos. Juro. Minutos. Num blog você é produtor, editor, distribuidor e consumidor.
Com o tempo e, principalmente, com o contato com outros blogueiros, você fica mais espertinho.
Entende a delicada estrutura que sustenta o mondo blog, amparada na santíssima trindade do visitar-escrever-ser visitado.
Entende que a intrincada selva de links é o que mantêm seu blog sendo lido e visitado e que sim, você tem que fazer parte disso, lincando outros blogs, fazendo comentários sobre os textos dos outros, estabelecendo relações - os blogs fazem um jogo de referências, que sustenta e retro alimenta o sistema. Você também aprende o jargão da atividade (por exemplo, que você não é um “escritor”, é um “blogueiro”, que o que você escreve não são “textos”, são “posts”, e que, aliás, você não “escreve”, “posta”).
Aprende a postar imagens e inserir sons no seu blog.
Aprende a alterar o tamanho, tipo e cor das letras que usa.
E aprende a etiqueta do mondo blog: não deixar comentários quilométricos no blog alheio, não dar lição de moral, não usar posts e imagens dos outros sem dar os devidos créditos e que relevar alfinetadas é melhor que armar grandes barracos, só para começar.
E, ahá, você aprende a escrever especificamente para esse novo veículo. Seu olhar para o mundo muda. Você começa a ver seu dia, as pequenas coisas que formam suas horas, dum jeito diferente. Aprendi e aprendo, todo dia, a valorizar os pequenos gestos, os pensamentos rápidos, os lances rotineiros. Porque tudo pode virar post. Para cada pedaço do meu dia, se bem escrito, se apresentado duma forma atraente, eu tenho quem se interesse.
O blogueiro quer o público. O leitor é parte integrante e necessária do blog (não é por acaso que a enorme maioria dos blogs tem espaço para que seus leitores se manifestem, formas variadas de contatar seu autor e até medidores de visitas, que informam não apenas de onde vieram os leitores como, não raro, o IP, o número de identificação do computador de quem os lê).
Aliás, sem o olhar, a admiração, os apartes e comentários dos leitores, a maioria dos blogueiros nem teria a disciplina de atualizar em bases diárias, ou quase, seus blogs. Dos blogueiros que falam de seu cotidiano (porque há os que fazem de seus blogs colunas jornalísticas, gastronômicas ou policiais), temos de todos os tipos. Os compulsivos, que anotam nos seus blogs o itinerário exato das viagens que fizeram, as listas de supermercado, os livros que desejam comprar. Há os econômicos, que postam poucas linhas, que economizam seus dias e aventuras e só nos entregam flashes. Há os entusiastas do copy and paste (olha o jargão aí, gente), os que gostam tanto do blog dos outros que postam partes deles, com os devidos créditos. Alguns são confessionais, alguns falam em terceira pessoa (a divertida Flávia, uma das autoras do blog Bloggete , costuma contar as próprias histórias dizendo “Uma amiga minha....”). Há quem diga nome de marido e foto filho, há quem chame o marido de S. ou H. e não conte nem de que cidade fala.
Os blogs permitem que você encontre seu fluxo narrativo com calma, experimente, ponha-se à vontade, encontre a sua forma de usar sua voz.
Mesmo que você não queira, ou melhor, mesmo que não admita querer, num blog você escreve para os outros, exatamente como escreveria num livro, ou num jornal. Não fosse isso, sejamos francos, você não estaria escrevendo na internet, e sim num caderninho de capa florida. Mas diferente das respostas obtidas nos jornais e livros, num blog você poder ver a reação de quem lê quase que imediatamente. Você vai aprender, vai se ajustar para agradar um determinado grupo, o dos seus leitores. E eles também vão se adaptar a você. Ao seu estilo. É um ajuste de placas tectônicas, todo mundo tem que se mexer. No meu blog, não é incomum que novos leitores, ainda não acostumados com meu jeitão, escrevam para mim para perguntando se eu estava brincando ou falando sério. Eu nunca explico. Eles se acostumam.
A maioria dos blogueiros parte sim de suas lembranças, fatos cotidianos e idéias. Mas quando esse material é publicado no blog e posteriormente lido e comentado, ele vira uma outra coisa. Ao receber comentários, responder a eles, inseri-los num texto futuro, o blog se transforma num veículo da intimidade coletiva.
O autor do blog se expõe, mas seus leitores também.

Gordas e Patuscas
As vizinhas de Nelson Rodrigues, gordas, patuscas e cheias de brotoejas não inventaram a fofoca. Nem as janeleiras do Érico Verissimo. Nem as velhotas bigodudas do Eça de Queiroz. Mas elas nos ajudaram a entender uma verdade inegável, desde que o mundo é mundo: nós adoramos a vida alheia. Nos alimentamos dela. E queremos que alguém adore a nossa - ou melhor, o que queremos divulgar da nossa - também.
Não importa o quão anunciado como obra de ficção é o livro ou o filme. Queremos saber o que há ali de autoreferente, de autobiográfico. Perseguimos entrevistas com os envolvidos, queremos saber de onde veio aquilo tudo, queremos que a combinação mágica de palavras "baseado em fatos reais", legitime a obra, nossos sentimentos, nossas vidas. Claro. Se existir qualquer nesga de realidade, de biográfico, de "aconteceu comigo" (adoramos historinhas em primeira pessoa) no que lemos ou assistimos, pode acontecer conosco. Se alguém de carne e osso faz e sente aquilo, eu posso também.
O blog satisfaz essa nossa necessidade, mas pede que satisfaçamos a dos outros. E então, você se dará conta da vaidade, do encantamento de perceber que sua vida interessa ao outro. E do assombro de perceber-se enredado e realmente interessado pela a vida desse outro.

Amou daquela vez
Devagar, você entende que, ao transferir o diário íntimo para a internet, ele se torna de todos. Você quer ser lido, você teme ser lido. Blogs são donos de um exibicionismo tímido e, até certo ponto, controlado pelo autor. Mas não totalmente. O blog nos dá a dimensão do íntimo que se esconde e se exibe.
O autor do blog irá se construir diaria e lentamente perante seus leitores. Ele vai se revelando, uma anágua aparece aqui, um lenço cai ali. Um gosto, um medo, uma alegria, um sonho lançados em forma de post - o blogueiro fará pequenos comentários reveladores ao longo do processo, deixando que seus leitores percebam, não uma pessoa pronta, uma obra acabada, mas um narrador que está sempre em construção. E mesmo esse caleidoscópio, essa imagem difusa que formamos dos nossos blogueiros favoritos, tem que ser construída, ela vai se formando aos pedacinhos, é necessária a visitação freqüente a um blog, para que o seu autor se revele, ou pareça se revelar, para nós. Um diário, qualquer diário, virtual ou não, nunca é um relatório fiel e exato da vida de seu autor. Você não tem paciência ou tempo de contar tudo que vive. Nem tudo você quer manter como lembrança gravada. Você não se orgulha de todos os seus atos e pensamentos, não assume ou controla todas as suas paixões. Mesmo num diário de papel, o autor pode editar o que não deseja registrado. Num blog essa edição se amplia, porque você também quer proteger partes da sua realidade, de seus pensamentos e ações dos olhos alheios. Você quer ser lido sim, e amado, e admirado, mas pelo que filtra e permite que seja lido – você não quer dar munição para ninguém. Você quer, enfim, que seus leitores adorem o cara que está ali na tela. Quão parecido com você é com esse cara, depende de você mesmo. E do olhar de quem lê.

Extra Muros
A literatura começa quando alguém se propõe a falar de si mesmo e sobre o mundo por meio das palavras.
Literatura é, também, recriação da realidade.
Para Sartre, escrever era desnudar-se, era revelar o mundo e, em especial, o homem. Ele disse que cabia ao escritor propor ao leitor um pacto, para que juntos eles transformassem o que os cercava. Uia, o velho e bom Sartre ficaria feliz em saber que, em muitos blogs, isso acontece rotineiramente. Autores se desnudando e propondo pactos aos seus leitores é o pão com manteiga de um bom blog.
Não, não, nem todo blog faz literatura. E nem todos os que a fazem, fazem sempre. E a que é feita, nem sempre é de qualidade. Exatamente como em qualquer outro lugar.
É possível fazer literatura em blogs, sim, como não? E é possível não fazer.
Há que se entender que os blogs são mais um veículo para a palavra. Como os jornais. Como os livros. E, assim como em outros veículos, os blogs têm lá seus macetes. Há uma certa preferência, por exemplo, pelo textos curtos, de poucas linhas, recurso dominado com maestria por blogueiros como as meninas do Bloggete, a Maloca, e a Cé. Mas mesmo isso está mudando, blogueiros como a Esther – que também publica entrevistas com blogueiros - e a Marcinha costumam produzir textos grandes para os padrões blogueiros, sem perder o interesse da audiência.
Além disso, a possibilidade de publicação imediata do que foi produzido pode, muitas vezes, levar à superficialidades (e, hohohoho, no meu caso, a erros ortográficos abissais). Mas, que diabos, eu tenho uma boa quantidade de livros mal escritos e mal revisados nas minhas estantes, você não? Tem muita coisa boa e muita coisa ruim em blog. Como em toda a internet. Como na vida, aliás.
Se literatura é um trabalho de elaboração, de suor, de planejamento, ela é possível e realizada em diversos blogs pela rede.
É muito cedo para alguém afirmar o que vai ou não vai ficar do nosso tempo, e eu não falo só de blogs, mas de música, de tecnologia, de tudo. O que será visível daqui a 100 anos? Quem ficará? Em 400 anos, o que, do que fazemos hoje, terá relevância?
Então, do que eu sei, do que vivo, blog é algo novo, uma experiência pela qual estamos passando todos juntos e, juntos, aprendemos a conhecer esse meio de comunicação, subjetivo, inegavelmente... mas criador.
Os leitores do meu blog são personagens da minha história cotidiana. Minha audiência é, sem dúvida alguma, parte da minha narrativa. Da minha experiência com o Drops da Fal, vou tecendo meus livros. É fantástico para um escritor saber onde, em que ponto, tocar o leitor. No blog, aprendo quando e como agradar, tocar, emocionar, sacudir ou irritar meu público, porque a cada passo, obtenho respostas quase imediatas. Eu escrevo em interação direta com o leitor, para o bem e para o mal.
Blogs podem, ou não, ser efêmeros, exatamente como qualquer livro publicado aqui ou ali. É cedo demais para que se saiba o que ficará dos blogs. Ou de nós mesmos. Mas não é cedo para que se reconheça a literatura que alguns produzem.
Afinal, se não for literatura o que fazem, por exemplo, Ticcia e Ane, como meu chapéu.

Le journal
Diferente dos diários que são guardados na gaveta, os blogs têm público. Gente adorando o que você diz. Gente detestando o que você diz. Gente que manda e-mails fofos, presentes de aniversário, que estimula você, que torce por você, se lembra de suas palavras muito tempo depois. Gente que vai medir você, julgar você, achar que você é sensacional, achar que você é patético, se convidar para ir à sua casa no próximo final de semana, tentar salvar sua alma para Jesus, procurar para você num sebo secreto aquele livro que você não acha. Gente que vai consolar você e brigar com você, gente que vai dar mostras de amizade e de mesquinharia e de generosidade e de safadeza nunca dantes navegadas. É um mundo novo. É um mundo delicioso. É um mundo assustador. Porque, nunca se esqueça, trata-se sempre de gente. Pessoas reais. Não tem nenhum robô comentando no seu blog, todo mundo ali tem CEP. Aquelas luzes que piscam, aqueles nomes na sua tela? São pessoas. Com tudo que isso acarreta. O blogueiro, necessariamente, terá que lidar com cada uma delas. Você faz amigos ali, gente com quem se pode sair pra tomar sorvete. E você também (hahaha, minha especialidade), angaria antipatias. E é maravilhoso e novo e esquisito e excitante descobrir que uma máquina nada mais faz do que levar você a ter contato com... mais e mais pessoas. Jamais sonhei ser tão lida, conhecer tanta gente nova, ler tanto.
Leio muito mais hoje do que há três anos, porque hoje, além dos amados livros, leio blogs. O blog me permitiu ver o mundo de forma diferente a cada post, a cada link, a cada dia. É uma aventura, é um aprendizado e se manter um blog me mostra o outro, claro, também me ensina sobre mim, na mesma medida.
Das pessoas que se aproximam de mim via blog, e das quais eu me aproximo, algumas ficam, algumas não, como permanecem ou não, as pessoas que conheço sem ser via internet. Na minha experiência, os leitores se renovam, a cada poucos meses recebo uma nova leva de comentaristas, que se mesclam aos leitores mais antigos que permaneceram.

No seu “Por Que Ler Os Clássicos”, Ítalo Calvino nos diz que devemos ler os clássicos, enfim, porque é melhor ler clássicos do que não ler.
Aqui falamos da mesma coisa. Faça um blog. É melhor que não fazer.

Fal Azevedo
www.dropsdafal.blogbrasil.com

2 comentários:

  1. agora entendi o que é blog,posto blogs semanais nos murais da camara dos deputados ha 25 anos,tenho 3 livros edtados,o ultimo voce pode ver no site da livraria cultura .dia 7 de julho estarei na tv futura com o renato janine ribeiro as 2245h...vamos blogar?

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  2. Gleice Glaucianequi nov 22, 07:56:00 PM

    uau acho q nunca imaginei que precisaria de tudo isso só para um blog!até q o texto ensina muita cisa mesmo,mas como sou catolica (mesmo q n seja levado a sério) n gostei de trem dito que a santíssima trindad era: visitar, escrever ,e ser visitado pra mim santíssima vai cotinuar sendo as coisas que desrrespeitam a igreja e a santíssima trindade é: PAI, FILHO, E ESPIRITO SANT0!

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