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24.10.07

Os devaneios e a vaca

O som que invade o quarto não ofusca o silêncio que pesa em minha cama. O dia corre, nuvens negras desabam, o banheiro inunda. A gata só me olha. Ela não se importa com o córrego que se forma e toma a direção da sala. Ração seca, areia limpa e água fresca é tudo de que toma ciência. Hoje não seria mau se ela estivesse certa e a bichana de estimação fosse eu, esticada no meio da passagem, barriga pra cima, exigindo chamegos sem pudor. E uma sardinha. Ou duas. Alfazema é o cheiro do quarto. Aqui as verdades usam as lombadas descascadas dos livros para dizer: estamos aqui, não é possível nos ignorar. Sempre fui dada aos impossíveis da vida. Certas coisas não mudam. Ainda bem. Um desejo enorme de mostrar à vizinhança ignara toda minha capacidade de baixar, baixar muito o nível. Mas ando esses dias, elegante demais. Isso sim é pecado. Então deixo. Deixo o som invadir o quarto, o dia correr, a água inundar o banheiro. E sentada elegantemente, deixo os berros histéricos do pensamento - que é divinamente inaudível - dizerem pra velha-vaca-filha-da-puta que mora aqui ao lado que eu desejo de todo o meu coração que ela morra. Que morra lenta e dolorosamente, pra sofrer bastante. Com o cu arrombado, na Praça Paris. Mas quem me olha, nem imagina.

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