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18.4.06

Você me odeia? Entra na fila!




Devidamente copiado e livremente adaptado de um post do Guetoblast. Mas é a mais pura verdade:

Verdade seja dita, a primeira vez que eu li isto foi no www.fotolog.net/anjinhadepantufa, onde ela simboliza muito bem os humores (bons e maus) que andam pela internet.

Por se esconderem em pseudônimos como Sandra Belzer, Daniel, Mario, Pit, Guetoblaster, Desiree, Sid & Nancy, O Gordo e O magro, se sentem à vontade para destilar seu fel em blogs, fotologs e outros og´s.

As reações muitas vezes são extremadas. Te amo, te odeio, te quero, te quero morto!! Sem os meios tons que existem no mundo real!!

Então, a todos que são de um extremo ou de outr, uma palavra antes de escrever: Você falaria isto ao vivo e a cores ?

E se vc me odeia mesmo, pega a senha e entra na fila, que tá enorme!!!!

16.4.06

Incesto e comensais

Sim, é um amor canibal
Tenho vontade de devora-lo a dentadas
Em uma festividade tribal.

Desfiar a carne
Chegar até a cartilagem
Desossar... sempre foi arte.

Dos ossos faço bela sopa
Suculenta, rica em proteínas
Rodeada de moscas.

Moscas. Crocantes.
Pequenos croutons voadores
Que se afogam nessa
Água suja que me alimenta

A sopa me encara
Com seus dois olhos verdes cozidos.
Vê a contradição?
A besta era eu,
Mas quem acabou besuntado em pão
Foi você, suculento e nefasto irmão.

Fal Azevedo - O BLOG NAS ESQUINAS DO COTIDIANO

“From the forests and highlands
We come, we come”
Shelley

Cheguei ao mondo blog no comecinho de 2002. O amigo que me indicou os blogs, disse vagamente que eles eram "páginas na internet, fáceis de montar, onde você pode escrever o que quiser, quando quiser". Eu usava a teia eletrônica desde 1997 e nunca tinha ouvido falar deles.
Tendo o blog (já extinto) do meu amigo como plataforma de lançamento, comecei um blog meio parado, e conheci o blog mineiro Mothern, e o blog da paulistana Zel.
Foi como se eu tivesse levado um tapa na cara.
Eu me reconheci ali, em cada palavra.
Eu sabia escrever daquele jeito, eu podia me expressar assim.
Se o cotidiano daquelas mulheres servia para a escrita, oras, o meu servia também.
Em 1999 eu havia lançado um livro pela Editora Iglu, Crônicas de Quase Amor, e havia despontado para o anonimato. Longe do esquemão de distribuição, apadrinhamentos e indicações das grandes editoras e livrarias, eu não tinha a mais vaga idéia de como encontrar leitores. Com o passar do tempo, eu me sentia sem ter o que dizer e nem para quem.
Nos blogs, produzindo o meu e lendo os dos outros, descubro, a cada dia, que sim, eu tenho o que dizer. Todos temos.

Não requer prática
Uma vez dentro desse mundo, descobre-se que a mecânica é muito simples. Diversos sites fornecem a qualquer um as ferramentas básicas para que se coloque um blog no ar em minutos. Juro. Minutos. Num blog você é produtor, editor, distribuidor e consumidor.
Com o tempo e, principalmente, com o contato com outros blogueiros, você fica mais espertinho.
Entende a delicada estrutura que sustenta o mondo blog, amparada na santíssima trindade do visitar-escrever-ser visitado.
Entende que a intrincada selva de links é o que mantêm seu blog sendo lido e visitado e que sim, você tem que fazer parte disso, lincando outros blogs, fazendo comentários sobre os textos dos outros, estabelecendo relações - os blogs fazem um jogo de referências, que sustenta e retro alimenta o sistema. Você também aprende o jargão da atividade (por exemplo, que você não é um “escritor”, é um “blogueiro”, que o que você escreve não são “textos”, são “posts”, e que, aliás, você não “escreve”, “posta”).
Aprende a postar imagens e inserir sons no seu blog.
Aprende a alterar o tamanho, tipo e cor das letras que usa.
E aprende a etiqueta do mondo blog: não deixar comentários quilométricos no blog alheio, não dar lição de moral, não usar posts e imagens dos outros sem dar os devidos créditos e que relevar alfinetadas é melhor que armar grandes barracos, só para começar.
E, ahá, você aprende a escrever especificamente para esse novo veículo. Seu olhar para o mundo muda. Você começa a ver seu dia, as pequenas coisas que formam suas horas, dum jeito diferente. Aprendi e aprendo, todo dia, a valorizar os pequenos gestos, os pensamentos rápidos, os lances rotineiros. Porque tudo pode virar post. Para cada pedaço do meu dia, se bem escrito, se apresentado duma forma atraente, eu tenho quem se interesse.
O blogueiro quer o público. O leitor é parte integrante e necessária do blog (não é por acaso que a enorme maioria dos blogs tem espaço para que seus leitores se manifestem, formas variadas de contatar seu autor e até medidores de visitas, que informam não apenas de onde vieram os leitores como, não raro, o IP, o número de identificação do computador de quem os lê).
Aliás, sem o olhar, a admiração, os apartes e comentários dos leitores, a maioria dos blogueiros nem teria a disciplina de atualizar em bases diárias, ou quase, seus blogs. Dos blogueiros que falam de seu cotidiano (porque há os que fazem de seus blogs colunas jornalísticas, gastronômicas ou policiais), temos de todos os tipos. Os compulsivos, que anotam nos seus blogs o itinerário exato das viagens que fizeram, as listas de supermercado, os livros que desejam comprar. Há os econômicos, que postam poucas linhas, que economizam seus dias e aventuras e só nos entregam flashes. Há os entusiastas do copy and paste (olha o jargão aí, gente), os que gostam tanto do blog dos outros que postam partes deles, com os devidos créditos. Alguns são confessionais, alguns falam em terceira pessoa (a divertida Flávia, uma das autoras do blog Bloggete , costuma contar as próprias histórias dizendo “Uma amiga minha....”). Há quem diga nome de marido e foto filho, há quem chame o marido de S. ou H. e não conte nem de que cidade fala.
Os blogs permitem que você encontre seu fluxo narrativo com calma, experimente, ponha-se à vontade, encontre a sua forma de usar sua voz.
Mesmo que você não queira, ou melhor, mesmo que não admita querer, num blog você escreve para os outros, exatamente como escreveria num livro, ou num jornal. Não fosse isso, sejamos francos, você não estaria escrevendo na internet, e sim num caderninho de capa florida. Mas diferente das respostas obtidas nos jornais e livros, num blog você poder ver a reação de quem lê quase que imediatamente. Você vai aprender, vai se ajustar para agradar um determinado grupo, o dos seus leitores. E eles também vão se adaptar a você. Ao seu estilo. É um ajuste de placas tectônicas, todo mundo tem que se mexer. No meu blog, não é incomum que novos leitores, ainda não acostumados com meu jeitão, escrevam para mim para perguntando se eu estava brincando ou falando sério. Eu nunca explico. Eles se acostumam.
A maioria dos blogueiros parte sim de suas lembranças, fatos cotidianos e idéias. Mas quando esse material é publicado no blog e posteriormente lido e comentado, ele vira uma outra coisa. Ao receber comentários, responder a eles, inseri-los num texto futuro, o blog se transforma num veículo da intimidade coletiva.
O autor do blog se expõe, mas seus leitores também.

Gordas e Patuscas
As vizinhas de Nelson Rodrigues, gordas, patuscas e cheias de brotoejas não inventaram a fofoca. Nem as janeleiras do Érico Verissimo. Nem as velhotas bigodudas do Eça de Queiroz. Mas elas nos ajudaram a entender uma verdade inegável, desde que o mundo é mundo: nós adoramos a vida alheia. Nos alimentamos dela. E queremos que alguém adore a nossa - ou melhor, o que queremos divulgar da nossa - também.
Não importa o quão anunciado como obra de ficção é o livro ou o filme. Queremos saber o que há ali de autoreferente, de autobiográfico. Perseguimos entrevistas com os envolvidos, queremos saber de onde veio aquilo tudo, queremos que a combinação mágica de palavras "baseado em fatos reais", legitime a obra, nossos sentimentos, nossas vidas. Claro. Se existir qualquer nesga de realidade, de biográfico, de "aconteceu comigo" (adoramos historinhas em primeira pessoa) no que lemos ou assistimos, pode acontecer conosco. Se alguém de carne e osso faz e sente aquilo, eu posso também.
O blog satisfaz essa nossa necessidade, mas pede que satisfaçamos a dos outros. E então, você se dará conta da vaidade, do encantamento de perceber que sua vida interessa ao outro. E do assombro de perceber-se enredado e realmente interessado pela a vida desse outro.

Amou daquela vez
Devagar, você entende que, ao transferir o diário íntimo para a internet, ele se torna de todos. Você quer ser lido, você teme ser lido. Blogs são donos de um exibicionismo tímido e, até certo ponto, controlado pelo autor. Mas não totalmente. O blog nos dá a dimensão do íntimo que se esconde e se exibe.
O autor do blog irá se construir diaria e lentamente perante seus leitores. Ele vai se revelando, uma anágua aparece aqui, um lenço cai ali. Um gosto, um medo, uma alegria, um sonho lançados em forma de post - o blogueiro fará pequenos comentários reveladores ao longo do processo, deixando que seus leitores percebam, não uma pessoa pronta, uma obra acabada, mas um narrador que está sempre em construção. E mesmo esse caleidoscópio, essa imagem difusa que formamos dos nossos blogueiros favoritos, tem que ser construída, ela vai se formando aos pedacinhos, é necessária a visitação freqüente a um blog, para que o seu autor se revele, ou pareça se revelar, para nós. Um diário, qualquer diário, virtual ou não, nunca é um relatório fiel e exato da vida de seu autor. Você não tem paciência ou tempo de contar tudo que vive. Nem tudo você quer manter como lembrança gravada. Você não se orgulha de todos os seus atos e pensamentos, não assume ou controla todas as suas paixões. Mesmo num diário de papel, o autor pode editar o que não deseja registrado. Num blog essa edição se amplia, porque você também quer proteger partes da sua realidade, de seus pensamentos e ações dos olhos alheios. Você quer ser lido sim, e amado, e admirado, mas pelo que filtra e permite que seja lido – você não quer dar munição para ninguém. Você quer, enfim, que seus leitores adorem o cara que está ali na tela. Quão parecido com você é com esse cara, depende de você mesmo. E do olhar de quem lê.

Extra Muros
A literatura começa quando alguém se propõe a falar de si mesmo e sobre o mundo por meio das palavras.
Literatura é, também, recriação da realidade.
Para Sartre, escrever era desnudar-se, era revelar o mundo e, em especial, o homem. Ele disse que cabia ao escritor propor ao leitor um pacto, para que juntos eles transformassem o que os cercava. Uia, o velho e bom Sartre ficaria feliz em saber que, em muitos blogs, isso acontece rotineiramente. Autores se desnudando e propondo pactos aos seus leitores é o pão com manteiga de um bom blog.
Não, não, nem todo blog faz literatura. E nem todos os que a fazem, fazem sempre. E a que é feita, nem sempre é de qualidade. Exatamente como em qualquer outro lugar.
É possível fazer literatura em blogs, sim, como não? E é possível não fazer.
Há que se entender que os blogs são mais um veículo para a palavra. Como os jornais. Como os livros. E, assim como em outros veículos, os blogs têm lá seus macetes. Há uma certa preferência, por exemplo, pelo textos curtos, de poucas linhas, recurso dominado com maestria por blogueiros como as meninas do Bloggete, a Maloca, e a Cé. Mas mesmo isso está mudando, blogueiros como a Esther – que também publica entrevistas com blogueiros - e a Marcinha costumam produzir textos grandes para os padrões blogueiros, sem perder o interesse da audiência.
Além disso, a possibilidade de publicação imediata do que foi produzido pode, muitas vezes, levar à superficialidades (e, hohohoho, no meu caso, a erros ortográficos abissais). Mas, que diabos, eu tenho uma boa quantidade de livros mal escritos e mal revisados nas minhas estantes, você não? Tem muita coisa boa e muita coisa ruim em blog. Como em toda a internet. Como na vida, aliás.
Se literatura é um trabalho de elaboração, de suor, de planejamento, ela é possível e realizada em diversos blogs pela rede.
É muito cedo para alguém afirmar o que vai ou não vai ficar do nosso tempo, e eu não falo só de blogs, mas de música, de tecnologia, de tudo. O que será visível daqui a 100 anos? Quem ficará? Em 400 anos, o que, do que fazemos hoje, terá relevância?
Então, do que eu sei, do que vivo, blog é algo novo, uma experiência pela qual estamos passando todos juntos e, juntos, aprendemos a conhecer esse meio de comunicação, subjetivo, inegavelmente... mas criador.
Os leitores do meu blog são personagens da minha história cotidiana. Minha audiência é, sem dúvida alguma, parte da minha narrativa. Da minha experiência com o Drops da Fal, vou tecendo meus livros. É fantástico para um escritor saber onde, em que ponto, tocar o leitor. No blog, aprendo quando e como agradar, tocar, emocionar, sacudir ou irritar meu público, porque a cada passo, obtenho respostas quase imediatas. Eu escrevo em interação direta com o leitor, para o bem e para o mal.
Blogs podem, ou não, ser efêmeros, exatamente como qualquer livro publicado aqui ou ali. É cedo demais para que se saiba o que ficará dos blogs. Ou de nós mesmos. Mas não é cedo para que se reconheça a literatura que alguns produzem.
Afinal, se não for literatura o que fazem, por exemplo, Ticcia e Ane, como meu chapéu.

Le journal
Diferente dos diários que são guardados na gaveta, os blogs têm público. Gente adorando o que você diz. Gente detestando o que você diz. Gente que manda e-mails fofos, presentes de aniversário, que estimula você, que torce por você, se lembra de suas palavras muito tempo depois. Gente que vai medir você, julgar você, achar que você é sensacional, achar que você é patético, se convidar para ir à sua casa no próximo final de semana, tentar salvar sua alma para Jesus, procurar para você num sebo secreto aquele livro que você não acha. Gente que vai consolar você e brigar com você, gente que vai dar mostras de amizade e de mesquinharia e de generosidade e de safadeza nunca dantes navegadas. É um mundo novo. É um mundo delicioso. É um mundo assustador. Porque, nunca se esqueça, trata-se sempre de gente. Pessoas reais. Não tem nenhum robô comentando no seu blog, todo mundo ali tem CEP. Aquelas luzes que piscam, aqueles nomes na sua tela? São pessoas. Com tudo que isso acarreta. O blogueiro, necessariamente, terá que lidar com cada uma delas. Você faz amigos ali, gente com quem se pode sair pra tomar sorvete. E você também (hahaha, minha especialidade), angaria antipatias. E é maravilhoso e novo e esquisito e excitante descobrir que uma máquina nada mais faz do que levar você a ter contato com... mais e mais pessoas. Jamais sonhei ser tão lida, conhecer tanta gente nova, ler tanto.
Leio muito mais hoje do que há três anos, porque hoje, além dos amados livros, leio blogs. O blog me permitiu ver o mundo de forma diferente a cada post, a cada link, a cada dia. É uma aventura, é um aprendizado e se manter um blog me mostra o outro, claro, também me ensina sobre mim, na mesma medida.
Das pessoas que se aproximam de mim via blog, e das quais eu me aproximo, algumas ficam, algumas não, como permanecem ou não, as pessoas que conheço sem ser via internet. Na minha experiência, os leitores se renovam, a cada poucos meses recebo uma nova leva de comentaristas, que se mesclam aos leitores mais antigos que permaneceram.

No seu “Por Que Ler Os Clássicos”, Ítalo Calvino nos diz que devemos ler os clássicos, enfim, porque é melhor ler clássicos do que não ler.
Aqui falamos da mesma coisa. Faça um blog. É melhor que não fazer.

Fal Azevedo
www.dropsdafal.blogbrasil.com

14.4.06

Priscila Andrade no Tá Boa Santa - III Semana Cultural em Santa Teresa

Tá Boa Santa? No Baixo Santa do Alto Glória, à partir das 22hs, com música para dançar, sem hora pra acabar...

A entrada é franca e vc só paga o que consumir, com direito a intervenção poética de JoÃO BRanDãO, PrISCIla AnDrADe, AnTonIo BiZeRRa, MArCiA LOMardO, ALDo MeDeIroS e ANDRea PaOla, nas carrapetas poéticas !!! E mais todos os poetas presentes !!!!!

De quebra a carnavalesca LiliAn RABelLo cria o clima... com algumas pinceladas cenográficas, a fim de que a fantasia e o encanto tomem conta da casa !!!!

No Sábado de Aleluia, venha desvirtuar o usual com a gente, malhar os Judas que rolam por aí e soltar a poesia!

III Semana Cultural em Santa.
Palavra de Honra e Tá boa Santa.
Baixo Santa do Alto Glória -
Rua Hermenegildo de Barros,73 - Santa Teresa / Gloria

6.4.06

Fênix

Observo a poeira em suspensão
No feixe de luz que atravessa o quarto.
Assim como eu,
Mormaço.

Suor escorrendo: tátil
Feixe de luz: intangível

Observo a poeira em suspensão
No feixe de luz que atravessa o quarto.
Assumo-o, tomo as rédeas de mim
E me encaro. Escancaro a janela:
Luzes solares de março.

O cheiro de Dama da Noite invade o quarto
De Tangerina, as mãos
Dos seus cabelos, as narinas.

E a vida recomeça.

30.3.06

Meus homens

Ele me ninava, fazia desenhos em sua mão e acendia Maria Preta atrás de Maria Preta na porta de casa, no início da noite. Só para mim. Me ensinou a desenhar, desdenhar e infernizar. Ensinou também que homem chora. Ouvia com paciência minhas descobertas, ria dos meus ataques de fúria e de minha guerra diária com o pijama. Eu desenhava um emaranhado de flores e heras que começavam sempre em meu tornozelo e subiam por minhas pernas – e ele dizia que era lindo. E eu confiava cegamente. Hoje manda e-mails desconexos, só fala na primeira pessoa e não sabe quem sou eu. Ele me botava para dormir, hoje é um estranho com quem esbarro pela rua.

Ele era o meu bebê, que nunca foi meu. Dormia atracado com meus cabelos, para ter certeza de que a noite não me tragaria. Me olhava com seus enormes olhos azuis tristes e sorria com aquela boquinha pequena que me tirava o ar. Contava a todos que quando crescesse seria meu namorado. Me beijava sempre, o tempo inteiro, pequenos selinhos sabor chocolate, calabresa, tuti-frutti. Ficava encardido. Nunca cheirava mal. Ainda cheirava como bebê. O meu bebê, que nunca foi meu. Dez anos depois o vejo do ônibus, andando na rua, quase tão grande quanto seu pai. Seus enormes olhos já não são azuis mas continuam tristes. Uma tristeza serena que se esvai com seu sorriso que ainda me tira o ar. Olho pai e filho andando com o mesmo passo, os mesmos trejeitos. Olho o meu bebê. Grande, bonito, distante. Ele não me vê.

Ele invade minha casa, tira sua roupa, toma sua cerveja e me põe nua em seu colo. Não, ele não me come. Me bebe e devora como que em busca de sua "energia vital". Da certeza de estar vivo. Depois, me dilacera falando atrocidades enquanto me acarinha. Quando se cansa da brincadeira veste-se, abandona a lata de cerveja e vai embora. Eu tenho que beijá-lo. Ele consente sem paciência. Quando vai embora, com seus passos firmes e hoje secos, afasta-se com a segurança de quem sabe que não deixa para trás apenas camisinhas usadas, embalagens de Engov e meia lata de cerveja. Sabe que deixa para trás também, junto com esse pequeno amontoado de lixo, um coração acelerado, uma cabeça inflamada e olhos que teimam em se manter secos. Nunca olha para trás.

22.3.06

Da Lua

Me agarro a causas perdidas
Me entrego a amores impossíveis
Busco a bala perdida
Quando só quero vida.

Confusão suicida
Conclusões espermicidas
Relações parricidas
Amizades Fratricidas

E cada passo leva ao abismo
distante com cheiro de absinto
E eu, que nem gosto de absinto?

Sinto muito por toda essa confusão mental
Essa incapacidade de avaliação
Essa leitura equivocada de tudo e de todos.

Meu código de barras se apagou.
Nele não estava o meu preço
Seria fácil demais
Nele estavam minhas coordenadas.

Hoje, observo os ratos que saem dos bueiros
As baratas que avançam na direção de meus pés quase descalços
Sempre cansados
Desvio do mendigo louco, totalmente roto
E me pergunto, quem é o indigente aqui?

Os livros na estante esfregam na minha cara:
Conhecimento e leitura só trazem sofrimento.
Não leia! Vá à praia, curta as Paineiras, beije na boca
Caia na noite, viva a balada.

Ansiolíticos, hipnóticos, álcool, ervas.
Consuma sua mente.
Torne-se um computador,
Uma Tv
Um rádio: um terminal burro, que apenas defeca informações.
Sem troca, sem interações.

Vamos alimentar os bueiros com ratos e baratas.
Vamos jogar o lixo mal fechado. A indigência precisa comer.
Precisa catar a comida no lixo: é a dignidade que lhe resta.
Caçadores de seus próprios alimentos.

E eu ouço Thelonious. Why Monk?
E eu ouço Tom Waits. Why Waits?
Wait for me, my misery.

Preciso de sapatos novos
Colo, cafuné e uma boa foda.
Preciso de menininhos deslumbrados
Que não perguntem nada.

Apenas me sirvam, me sirvam, me sirvam.
Meus servos
Meus escravos
Com seus cravos, espinhas e ar adolescente.

O voo de Ícaro.
A poeta se esfacelou no asfalto.
O letrista poetizou, sinalizando a opção por virar estrela.
Diz que optando por dançar, viramos constelação.

Constelações são estrelas.
Estrelas são astros que tiveram luz própria
mortos há séculos e séculos atrás.
Luz falsa, ouro de tolo.

E os cavalos passam por cima de nós
A poeira levanta
E saímos ilesos.

Somos ilusões.
Cerveja, cachaça, red label.
Trepada, Ressaca, Luz ofuscante na calçada.

Vamos meu anjo,
Fazer amor até amanhecer.
Vamos meu sacana
Fuder até a noite morrer.
Vamos meu nego
Trepar até adormecer.

O sol não brilha para mim.
O astro rei me diz
E eu já sei
Sou posse da lua.

Por isso ando nua,
Sou carne crua
Apodrecendo ao luar.
Mas sempre sua.

20.3.06

A Amante

Sou Amante da Poesia
Namorada da Palavra
Trepo com as Letras todos os dias

Fonemas me fodem
A Gramática me cavalga
E põe o Poema em pauta

Me domina o Léxico
Me entrego a cada sílaba
Cidadã da ilha de Lesbos

Sou Amante da Palavra
Da Poesia, da Prosa e da Rima.
Trepo com as letras todos os dias.

17.3.06

Acasalamento

Palavras podem ferir como aço
Estiletes de letras
Cortes proferidos por fonemas

Palavra escrita
Palavra no telefonema
Palavra na tela do cinema

Palavra ao pé-do-ouvido
Perigo, perigo, perigo
A palavra escapou!
Fugiu da minha boca
E expôs o pensamento!

Sacramento e sacrilégio:
Saca?
Tudo farinha
Do mesmo saco.

Ou não. Depende.
Vamos trocar,
experimentar novidade:
No lugar de Sacramento
Comunhão.
No lugar de Sacrilégio
Cumplicidade.
Argamassa: União.

Palavras podem acarinhar
toque de letras
perfume de fonemas

Palavra escrita
Palavra no telefonema
Palavra na tela do cinema

Palavra ao pé-do-ouvido
No meio da cama
A palavra escapou!
Fugiu das bocas
Abraçou os corpos e escreveu:
ACASALAMENTO

15.3.06

Casamata

palavraspalavraspalavras compulsivamente palavras. Palavras como tijolo cimento concreto. Palavra-casamata.

Palavras como fonemas, palavras não significante, palavras não significado.
Palavras esconderijo atrás do léxico, da gramática, da língua pelo ritmo. Palavra não significante, palavra não significado.

Ritmo-som-ritmo. Fonética. Palavras compulsivamente palavras, como máscara, como esconderijo, como personagem. Palavra não autor. Palavra pela palavra.
Palavra mentira palavra ilusão palavra desejo palavra defesa.

Palavras palavras palavras compulsivamente palavras.

E o autor, cadê?

12.3.06

A vaca da minha irmã nunca leu meu blog.
Para que minha mãe lesse, tive que obrigar.
Para meu pai Não ler, tenho que rebolar.
Não quero que ele leia, não quero que ele me conheça, que saiba onde estou, o que faço, onde e com quem vou.

Sugiro que se fodam todos.
Sim, não sou convencional. Mas isso não significa que eu não tenha os mesmos desejos e anseios atávicos de toda a humanidade. E isso também não dá o direito à ninguém de me pré-julgar e de fingir que não vê minhas qualidades - sim, eu tenho qualidades e não estou falando das literárias. Tenho mil defeitos, mas sou generosa, leal e defendo com unhas, dentes, palavras e ações os meus amigos e os meus amores. A recíproca não é verdadeira.

Sim, estou mal-humorada, mas com toda razão para isso.

Sim, estou me perguntando se vale à pena.
Por favor, alguém, se for capaz, me prove que vale.
Eu sou o fardo que ninguém quer carregar

3.3.06

Momento Umbigo: Priscila Andrade na visão de Bruno Cattoni

A Doce Visão da Luz do Inferno

Eu vejo uma virgem coberta de feridas
Que aquecem do frio no breu da manhã
E, pelos olhos dos tubarões, sua imagem
De ferro Cru, na tempestade devora e apavora
Não sei se devo prateá-la ou enferrujá-la
Me arvorar a defendê-la dos auto-coices
Ou encher sua vulva de bolas de mármore.

Eu vejo uma sílfide sem meias-medidas
Que imita o abandono cuspindo porra
Vomita pra dentro a palavra dos outros
Regurgita falos batidos no liquidificador
E pisoteia úlceras que extirpa a dentadas
E hasteia bandeiras rubras escrito "Fuja!"
Depois entrega a faca cega que amolou
Para que raspem a crosta funda que ama.

Eu vejo um estacionamento de corações
E um decote retrátil ao comando remoto
Onde estouram cachoeiras de lama podre
Que soterras as rochas de leite vencido
Eu vejo o cabo das catástrofes no coldre
E uma doce matricida abortando o caos
Que brota irrefreável ao mínimo tropeço.

Eu vejo o mesmo fim que nunca se repete
E os princípios coalhados numa cuia velha
Uma órfã sem dedos apoiando um mastro
Estandarte roto e sujo onde não se lê "Paz"
Uma horda de retirantes nus, exoftálmicos,
Que pára frente ao abismo e atira acordeões
Desce para buscá-los e nunca mais retorna.

Eu vejo agora que anoitece reabertas chagas
Ouço cânticos roucos que sangram o sereno
E o colo da sílfide se dobrando sobre o seio
E o peito desarmado sobre o colo das coxas
O gás carbônico fugindo pelos joelhos unidos
E os calcanhares disparando e batendo a terra
Ensebados da placenta ácida dos desumanos.

Que gosto tem a boca sonâmbula pelas escadas?
Escorre da memória entrevada essência de maçã
E quando as faces descoram e os lábios somem,
Um toldo de lona, da lona dos nocautes sem dor,
Avançam como um cúmulo-nimbo gigantesco
Logo acima das pálpebras encouraçadas da bela
E as palavras desembarcam na indolente surdez.

E seus gumes cinzelam num monolito, feito do lixo
Dos lares felizes, um ícone inútil de amor ao ódio
Ao ódio arrependido de quem ficou para trás e só
E, para passar o tempo com o ferro cru da imagem,
Arranca tiras de tecido necrosado e enrola-os bem
Para torná-los cordas que, presas nos pessegueiros,
Vibram melodiosamente enquanto as copas bailam.

Para ler mais Bruno Cattoni, procure um de seus cinco livros em qualquer boa livraria. Especial atenção para Osso (na cabeceira das avalanches) , editora 7 Letras.

22.2.06

O Novo

Sístole, assístole
Tum-tum
Tum-tum
Coraçãotaquicardia

Mas isso,
Isso foi ontem...

Hoje, quando te vê
Ele já nem bate

Apenas um leve pulsar delicado,
Doce, tranqüilo e discreto.
Por outro.

20.2.06

Um dos Desvarios da Patrícia - Patrícia Reis

O homem velho tinha cabelos brancos e desalinhados.
As linhas do rosto também eram desalinhadas, e o olhar,
ah, o olhar era completamente desalinhado.

Andava em linha reta, muito embora cambaleante, muito embora frágil, muito
embora
parecesse que nem andava. Parecia era que o mundo
passava assombrado do seu lado, e contra,
como um vento, ou um inverno.

E seus olhos se dirigiam para o nada, muito embora olhassem para todas as
direções, enquanto
enquanto ele praguejava.

Das beiradas o velho enxergava:
tudo: o meio-fio,
a morte inteira.

Para receber os textos da Patrícia é só escrever pra patrícia@lapisraro.com.br com o subject Quero receber os desvarios.

16.2.06

Paraeles

Paraty, não para mim
Para eles, não para nós

Paraty, com sua poesia construída
Me expulsa
Me agride
Esse lugar não me pertence

Devolvo os desaforos
Deixando em cada pedra
Ou fragmento de terra do centro histórico
Um pouco de mim

Fios de cabelo
Pedaços de unhas ruídas
Cutículas arrancadas a dentadas
Fazendo gotejar o sangue

E o sangue se mistura a terra
Estou vingada
Paraty e eu agora somos uma só

Deixo ali minha marca
Meu DNA
Meu sangue literal

Faço o mesmo na cidade dos locais
Na Paraty de verdade
Que não atrai festivas, jornalistas ou turistas
A Paraty pária, vergonha
Subúrbio abortado do Rio

Mas a cidade entende e entra no jogo
E começa a me devorar

Consome meu sono
Rouba-me o calor do corpo
Devora minhas energias

Deixa apenas
Propositalmente
Uma certa melancolia

Angústia
Tristeza
Apatia
A cidade me expulsa

Guardo de lá apenas
Beijos roubados
Olhares furtados
Batimentos acelerados
E uma certa falta de ar

Pequenas transgressões
Públicas, íntimas e secretas

Apenas nós, transgressores
E a cidade sórdida, cretina
Apenas nós sabemos

Mas a cidade não pode falar

15.2.06

Soneto - José Aloise Bahia

Eu, olho-me no espelho oval da parede,
Procuro detalhes desta minha presença.
Tento achar em minha verdadeira aparência
Ainda atraente, sentir algum contentamento
No limiar da idade estampada no rosto:
Sutilezas, algum sulco ao redor dos olhos,
Que faz o corpo pedir azul kleiniano e branco,
Deixando-me satisfeito, na expectativa, entregue.
Mas não pensem que é uma mudança radical
O que se passa em minha proposta pessoal,
Esta tentativa de ficar mais jovem e refeito,
Bonito pra mim mesmo. Prestem bem atenção:
A razão suficiente da minha imagem refletida
Demonstra o prazer em vestir as cores do céu.

Mais José Aloise Bahia em Cronópios

14.2.06

Em casa

Caos, desequilíbrio, sangue em ebulição:
Estou em casa.

Thanatos

Lânguidamente entrego-me a Eros e Thanatos
Criaturas onipresentes e inevitáveis

O gozo é bom
O gosto é quente
E o tempo se perde

Não quero acordar

O Nu, a Vergonha e a Hipocrisia

Só temos duas coisas que ninguém pode nos roubar, que são unicamente nossas: nosso corpo e nossos pensamentos. E o corpo é a nossa parte tangente nessa engrenagem que é a natureza. É funcional e é estético.Fala sobre quem somos, fala o que estamos sentindo. Se expressa.

Portanto, não há nada de ridículo na sua exposição se ela não é gratuita, se existe um objetivo que não alimentar o próprio ego. Aliás, acho que não há nada de ridículo em sua exposição nunca.

E ainda tem o grande barato de ser um instrumento de mistério, de sedução... E o instrumento de perpetuação do homem como espécie e como filosofia.

Ou seja, o corpo, é vida.

12.2.06

Momento Mulherzinha no Domingo


Porque às vezes, só subindo no salto alto.

Anunciação - Alceu Valença

Na bruma leve das paixões que vem de dentro
Tu vens chegando pra brincar no meu quintal
no teu cavalo peito nu cabelo ao vento
E o sol quarando nossas roupas no varal
tu vens
tu vens
eu já escuto os teus sinais
A voz do anjo sussurou no meu ouvido
e eu não duvido já escuto os teus sinas
que tuvirias numa manhã de doming
Eu te anuncio nos sinos das catedrais
Tu vens
tu vens
Eu já escuto os teus sinais

Domingo no Parque - Gilberto Gil

O rei da brincadeira - ê, José
O rei da confusão - ê, João
Um trabalhava na feira - ê, José
Outro na construção - ê, João
A semana passada, no fim da semana João resolveu não brigar
No domingo de tarde saiu apressado
E não foi pra Ribeira jogar
Capoeira
Não foi pra lá pra Ribeira
Foi namorar

O José como sempre no fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
Lá perto da Boca do Rio
Foi no parque que ele avistou
Juliana
Foi que ele viu
Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão
Juliana, seu sonho, uma ilusão
Juliana e o amigo João

O espinho da rosa feriu Zé
E o sorvete gelou seu coração
O sorvete e a rosa - ô, José
A rosa e o sorvete - ô, José
Oi, dançando no peito - ô, José
Do José brincalhão - ô, José
O sorvete e a rosa - ô, José
A rosa e o sorvete - ô, José
Oi, girando na mente - ô, José
Do José brincalhão - ô, José

Juliana girando - oi, girando
Oi, na roda gigante - oi, girando
Oi, na roda gigante - oi, girando
O amigo João - João

O sorvete é morango - é vermelho
Oi, girando, e a rosa - é vermelha
Oi, girando, girando - é vermelha
Oi, girando, girando - olha a faca!
Olha o sangue na mão - ê, José
Juliana no chão - ê, José
Outro corpo caído - ê, José
Seu amigo, João - ê, José

Amanhã não tem feira - ê, José
Não tem mais construção - ê, João
Não tem mais brincadeira - ê, José
Não tem mais confusão - ê, João

8.2.06

Prato Feito

Almoço baratas
Janto ratos
Engulo sapos

Quem serve? Eu

Lucy in the sky with diamonds
Mentira, Falácia.
Lucy in the sky with evil pills in her mind

Me alimento do pó
Que os cupins fazem do meu cérebro
Me nutro, me regozijo e celebro

3.2.06

Anjo Caído do Inferno - Ota




Menina, você nasceu
da pulada de cerca
de algum querubim.

Daí essa mistura louca
que você não sabe o que é
mas eu já decodifiquei.

A genética te entrega:
auréola, rabo pontudo,
os chifres você deixa pra mim.

Seu incêndio pessoal
é por que você não sabe
como apagar esse fogo.

Eu estava disposto
a descer ao Inferno
pra te resgatar.

Mas nem foi preciso:
você aprontou tanto
que foi expulsa de lá.

2.2.06

Orquídea

Minha pele se rasga da nuca ao cóccix
Dando liberdade a uma gigantesca lâmina
De cartilagem e penugem.

Meu peito se rasga
E dele sai em voo tumultuado
Um enxame de vespas
Que zunem, zunem, zunem

Minhas veias ultrapassam o limite
Das pernas e se tornam raízes grossas
E firmes, que me prendem ao solo.

Nesse momento, meu tronco se solta
E alço voo, com meus braços que já viraram asas.

Do alto observo o bailar das nuvens
E o gorjeio dos automóveis

As penas das asas se soltam
Uma a uma
Transformando-se em pétalas de orquídea
Que caem docemente pelo chão.

22.1.06

Autofagia

Deviam me amarrar com as minhas tripas
Em um tronco feito com meus ossos
Me alimentar apenas com minhas carnes
Matar minha sede com meu sangue

Assim, e somente assim
Me realimentaria de mim mesma
E voltaria a me reconhecer no espelho

21.1.06

Mandaram avisar

minha cama
meus seios
meus quadris
e minha língua

todos, todos
mandam avisar:

saudades de você!

--------*--------

Que bom que você Veio!

17.1.06

Genocídio

A janela exerce uma atração quase irresistível sobre mim. Penso no vento acariciando o corpo solto, queda livre e libertária, com membros já sem o comando da mente, movendo-se de forma desengonçada até terminar numa queda de baque seco, em que meu sangue se mistura com o da cidade, fazendo com que finalmente eu me torne parte da desgraçada. Inexoravelmente.

O forno e sua boca cheia de dentes, que soltam com intensidade controlada o gás mortal, me chama. E penso com certo deleite no horror dos rostos encontrando a cena patética do corpo morto, em posição ridícula, com a cabeça enfiada no forno como uma galinha de domingo.

Travamos, as giletes no armário do banheiro e eu, um diálogo telepático, em que tentam me convencer do conforto da água morna da banheira, do alívio da pressão provocado pelo sangue saindo de meus pulsos e da beleza plástica da cena: um corpo nu e alvo, numa pequena tina que o contorna, valorizando sua alvura com o vermelho das águas. A essa altura, já frias. A plasticidade da cena quase me demove da decisão.

O mar não me fala nada. A imagem das ondas se jogando violentamente contra a areia e depois arrastando para dentro do oceano tudo o que está no seu caminho, é por si só um convite.

O par de faróis a noite, vindo em minha direção, tem um poder magnético, quase um ímã. Não penso em dor, impacto. Penso em um silêncio profundo e apaziguador.

As pílulas piscam para mim, fazendo promessas de uma despedida em estado tranqüilo de torpor e leves alucinações. Drogas lícitas. Hipnóticos. Durma conosco, elas convidam. Será a melhor foda da sua vida. A mais relaxante, a mais intensa, a que provocará o sono mais profundo e reparador depois do coito lícitopsicotrópico.

Recuso todos os convites. Fico e incomodo com o brilho dos meus olhos, minha gargalhada tonitruante, meu toque quente e minha onipresença úbere de sarcasmo e simpatia.

Suicido os outros com a suavidade de minha presença.

22.06.05

Encefalocardia

Vermes em movimentos orgiásticos
Latejam em meu crânio
Substituindo a taquicardia
Encefalocardia
Ecefalolatente
Lateja, latejam
As têmporas expõem o
Movimento interno

O coração, essa bomba hidráulica
Tolamente romantizada
Necrosou

O céu da minha boca nublou
Meus olhos salgaram
As intempéries me saudaram
E eu apenas calei.

Calei os braços, as pernas e os cotovelos
De lã era o novelo em que me protegi
No meu silêncio.

Ssssssssssssss

S.i.l.ê.n.c.i.o.

22.08.2005

Vísceras

Percepções aguçadas, senso de humor mordaz e ferino.Personalidades singulares.
Ou a confortável conformidade comportamental e conceitual com o senso comum.

E no final somos pele, carne, ossos, sangue e vísceras: estômago, baço, pâncreas, fígado, vesícula biliar, intestino delgado ou grosso.

Não importa o nível social ou cultural, a ausência ou presença de finesse, elegância e savoir-faire. O intestino delgado ou grosso é igual e tem as mesmas funções em mim, nele e em você.

Bexiga urinária. Não importa quantos dígitos foram cobrados pelo seu vestido ou se seu terno é Armani. Você tem uma bexiga e mija. Você pode blindar o seu carro, mas vai continuar usando o troninho.

O cólon sigmóide. O maravilhoso cólon sigmóide! O que seria de nós sem o Intestino grosso?

Entrou tem que sair.

O pó, o álcool, a endorfina.
A raiva, o ódio, a apatia.
O vatapá, o caruru e a gelatina

Você de mim,
Eu daqui.
O cachorro da igreja
O mendigo da sarjeta.

Somos sensuais, sexys, sedutores. Irresistíveis.
Reto, órgãos genitais internos femininos e masculinos: vísceras.
Somos vísceras travestidas de humanidade, de corpos bem torneados e caridade.

Bobagem. Somos apenas um canal: entra e sai. Todos iguais. Assim como os vermes que irão devorar nossos corpos mortos, adubar a terra e recomeçar o ciclo.
Somos iguais. Decadência, putrefação, adubo.

Mas nada disso importa. Neste momento, o meu falo é maior que o seu.

06.07.2005

16.1.06

Planeta Letra! Bom e Gratuito

Tá no Rio? De bobeira? Sem grana?
Rola uma realmente boa hoje, gratuita, que eu repasso à seguir.

"Irmãos Abdalla no Planeta Letra!!!!!!

E o Astrobar do Planetário recebe nessa segunda feira os Irmãos Abdalla (Chacal+Mimi Lessa) para uma performance inesquecível. Também tem as poesias do
Karluxo, o Maurição, O duo poético Dudu Dada, e mais muito mais a nossa banda residente
"DOIDIVANAS"!!!!!! Planeta Letra nessa Segunda às 20 horas no ASTROBAR do Planetário da Gávea. 

PS: A homenagem ao Mauricio Garcia fica adiada em uma semana por motivos de gravação. (Ele vai estar gravando com o Canastra)."

Mãe! O cachorro comeu meus dentes!!!

Não acreditei quando ouvi a frase. Fiquei repetindo mentalmente o mantra, com os olhos fechados e quase em transe: "eu não estou ouvindo isso, eu não estou ouvindo isso, eu não estou ouvindo isso...”.

Minha irmã, que tem 27 anos, arrancou os quatro cisos de uma só vez. Por conseqüência privada do seu juízo, como uma criança de cinco anos trouxe a bizarra lembrança para casa. Jack, o vira-latas hiper-ativo que ela adotou na Suípa, sabe-se lá como conseguiu pegar o vidro, abrir e estava roendo os dentes. Dela. Dentes são ossos? Bom, a essa altura isso não faz a menor diferença.

Minha amada, idolatrada, salve-salve irmã é uma pessoa, digamos... sui generis. Faz pinto desmaiar e autografa bananas. Calma, explico.

Quando éramos crianças, ela por volta dos quatro anos, ganhamos um desses pintinhos de feira, alegria das crianças, desespero das mães. Minha irmã era uma criança linda, de olhinhos verdes e milhares de cachinhos. Mas tão delicada quanto um elefante. Um verdadeiro João Grandão.

Um dia ela olhou para o pintinho, deu um passo estremecedor de gigante na direção do pobre coitado e gritou enquanto batia as palminhas: lindo!

- Piu!

Eu juro. Ju-ro. O pinto caiu durinho no chão, desmaiado. Durante anos minha diversão predileta era receber os namorados novos da minha irmã dizendo:

- Cuidado... você já sabe que ela faz pinto cair?

Eu sei que vocês me entendem. Eu sou irmã e toda irmã é espírito de porco. Ou eu não estaria contando essas histórias.

O auge das bizarrices, o momento Top Ten das paradas da Mais Nova, foi aos doze anos. Ela não podia encontrar um cacho de bananas, principalmente se elas estivessem naquele amarelo lindo, reluzente: autografava todas. Sim, caros leitores. A artista da casa dava autógrafos em bananas.

Bom, hoje ela é formada pela "tríplice A" do MEC, a diabólica IBMEC, fez MBA na Fundação Getúlio Vargas, é contratada da Petrobrás e foi pedida em casamento. Enfim, uma típica moça bem sucedida.

Mas, só por via das dúvidas, minha mãe e eu já fizemos o noivo dela assinar um documento registrado em cartório, com três vias autenticadas e firma reconhecida, afirmando que está ciente de que não aceitamos devoluções.

15.1.06

Bufão

O onanista envelhecido
Trepida no ar sua língua viperina
Espalhando sobre tudo e todos
Seu cuspe nocivo

Caricatura de um Pã
Que nunca foi dionisíaco
Durante os séculos envelheceu
E macerou seu espírito pérfido
Em tonéis podres de carvalho

Sua figura vipérea pode ser vista
Ainda hoje, a qualquer hora da madrugada
Espalhando pelos bares
Seu hálito fraudulento
Mentiroso, burlesco

Regozija-se verbalizando representações
Propositada e milimetricamente grotescas
Do outro, do semelhante,
Do amigo e do inimigo

Bufão tolo
Patético
Figura do descrédito

Ao amanhecer
O bufão-da-corte, que se crê víbora
Penetra com seu corpo roliço a terra
Até desaparecer, assim como uma doninha

31.07.05

Cartuns - Pryscila



O mundo dos cartuns se renova sempre com qualidade. Vão !

13.1.06

Blues da Piedade - Roberto Frejat/Cazuza

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas

Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça

Vamos pedir piedade
Pois há um incêncio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Estado de Espírito

"...não é que eu vou fazer igual
eu vou fazer pior..."

Livro de Visitas

Galera, O livro de visitas é para ser usado, como essa galera aqui fez e eu respondo, hoje, de público:


Guetoblaster, baby, também adoro champanhe. Mas preciso me
tornar uma moça mais... sóbria. Quanto ao terror, temos matéria-prima
diariamente, não é não? Que tal Você me fotografar?


Oi Lu, o Nas Colchas está o máximo! A-do-ro!


Oi José Aloise, bom que você gostou. Pinta sempre que
agora vou atualizar com mais freqüência, explorando as fissuras do corpo e da
alma.


Fefê!!! Feliz ano novo atrasado moça!


Oi Fábio, teu site está bem interessante.


Ju, eu acho que eles servem para fornecer falo sim, mas
também para cozinhar, lavar e arrumar a casa.


Aten, Idade é uma coisa que botaram na sua cabeça...


Fala Shivakana! Dedo de Moça é para todos, é só pegar.


Oi Bernardo, vamos marcar outro encontro da galera?


Salve Grande Mano
Melo
!!! Lindo é ter você por aqui, uma
delícia...


Fala Sinoti! Estar nos teus Favoritos é uma Honra.


Oi Prof. Que lindo que você escreveu... claro que lembro
do recado no Orkut. E adorei você ter vindo. Volte sempre, ok?

Corporal foi maravilhoso,
José Aloise. Adorei, vou
incorporar.


Ah, Karla, cozinhar e lavar para mim é pré-requisito básico,
por isso que eu nem citei...


Oi Rômulo, tô em falta com você, mas vou arrumar uma
forma de me redimir. Que bom que você gostou.


Mimizeca, aqui tudo tranquilo. Não sei por que os posts
estão aparecendo minúsculos para você. Já experimentou, no seu browser,
fazer o seguinte caminho: Exibir<Tamanho do Texto<Máxima? Quanto ao msn,
não faço idéia, mas parece que tá cheio de bug mesmo. E nossa bibi? Quero
fotos. Movimento Fotos Já!


La Loba em meus territórios? Uau! É querida, você tem
razão, eles querem nos enlouquecer de amor...


Caro Cel. Kurtz. E Aqui, quando é que você vem?


Gabi
bibiela
, que saudades maluquete!


Sachêt, te amo. Gente, vocês têm que ir ao site dessa
mulher!


Chacalito de los ticos, my monster, é claro que é
mulherzinha afinal, eu sou mulherzinha. Mas se em vez de vir de passagem você
olhasse com mais atenção, ia ver que não é tão mulherzinha assim. Aliás,
dou a cara à tapa de que você ia gostar.


Pois é Pato Puto,
o mundo é pequeno como uma ervilha...


Minha pimentinha branca, vamos tomar chopp? É deinha, o
Ota sabe de tudo!


Oi Mani, declamava
Orquídea. Qualquer hora dessas vou
postar por aqui. Aguardem.


Oi Tony, tô precisando de fotos sim, mas elas têm que me
retratar. Quer fazer?


Conta pra mim alemòn, já comeu alguém com esse tipo de
comentário?


Oi Christiana, se tudo der certo, vamos conversar sobre
isso em breve.


Fala Guiga, muita meditação?


Bem vinda Clara. Vou dar uma olhada com atenção no seu
boteco.


Bueno, a partir de hoje as respostas voltam a ser no Livro
de Visitas
mesmo que é mais prático.

11.1.06

Lascívia

Minha feminilidade está no meio de minhas pernas.
Com essa concavidade escura, quente e úmida, domino,
convenço, destruo e construo.
Manipulo.

Manipulo com minhas mãos ágeis o que minha língua
Não consegue guardar ou convencer.
E uso minha boca hábil para impor o silêncio, a concordância e o consentimento.

Consinto que pensem que estou à disposição
Que sou parque de diversão
Transgressão e perversão.

Perversão, lascívia e dor.
Dor prazerosa, consentida e às vezes mentirosa.
Geralmente prazerosa.

O prazer de meus cabelos que são crina que são rédeas
Suas mãos que são esporas
E a falsa dominação.

Minha feminilidade está nas ações entre linhas
Na erotização do dia-a-dia, da dor e das trivialidades.

Lascívia no café da manhã.
Luxúria na lavagem da louça.
Obscenidades na secagem dos pratos.

A mesa da cozinha é o cenário ideal para libidinagens.
Comensais, vamos nos jantar.

Minha feminilidade está em ver que o outro acredita
na volúpia que vislumbra no meu olhar.

Minha feminilidade na verdade é masculina:
Monossilábica, evasiva e apaixonada pelo poder.
Poder físico. Dominação. Controle.

Animal do sexo feminino.
Não se engane com meus cílios longos,
Meus cabelos compridos
E minha voz delicada, quase irritante.

Gosto mesmo é de uma boa foda.
De um rapaz que me coma
de quatro no ato
e me acalme os sentidos.

21/06/2005

8.1.06

Eu, no Poesia Voa


















Eu, em 27.11.2005, recitando no Poesia Voa, no Circo Voador.

Lu, a Sábia que fala por mim

"Adultério e amor não estão relacionados. Há quem ame sem ser fiel e quem seja fiel sem amar. Às vezes um relacionamento é apenas um compromisso estereotipado sem nenhuma profundidade amorosa. A traição dói porque atinge a auto-estima é uma 'ferida narcísica' ".

Nas Colchas

Ah, eu? Sou solteira.

6.1.06

Homem



Homem de mão quente
De pé grande
De voz grossa

Homem que imposta
e aposta

Homem que respeita
Homem que me despe
E me deita

Homem que fala com o falo
Tudo o que quero ouvir
E as bocas são silêncios
gemidos, mordidas, lambidas
Instrumentos de provocação e prazer

Gosto de Homem
Homem que não fala, faz
Homem Falo.

26.12.05

Natal

Ele veio, fez minha decoração de natal, tomamos suco de pêssego e comemos gelatina. Pus o anjo sobre a tv e tive um dia iluminado. Amém.

Natal e o Complô Masculino

Então ele olha bem no fundo dos meu olhos e fala muito sério e len-ta-men-te, como se eu fosse surda e retardada - e eu vejo um gostinho de prazer no canto da sua boca:
- Eu não te amo.

Dois dias depois o interfone toca sem aviso e é ele. E quando eu vou ver a gente já está trepando, mete, mete, mais, mais e os vizinhos estão ouvindo, isso, vai, vai, vai, foi, ah!!!.... e ele já está olhando de novo encantado e abestalhado para a minha foto que está na geladeira.

Se veste com pressa e ordena: vamos pro mercado que você não pode ficar desabastecida.

Sim queridas: é um complô masculino. Sim queridas, eles querem nos enlouquecer.
Sim queridos: eu não tenho vergonha na cara. Graças a Deus.

Feliz Natal.

22.12.05

Como o gelo que vira água
Como a manteiga que derrete
Como a chama que apaga
Como a poeira que o vento espalha

Assim quero ser eu.
Hoje.
Somente hoje. Eternamente

Mas você vem
e acelera meu coração
inflama minha pele
dispara minha pulsação

E eu continuo aqui
Sendo eu. Inteira, una.
E só.

20.12.05

Ponto Morto

Pisar nas feridas
Arrancar as peles soltas
Morder a língua
Arrancar as gazes envoltas

Lamber as feridas
Arrancar os olhos
Chupar o sangue
Regurgitar a bílis

Não toco piano
Toco tendões
Comer a própria carne
É minha única tentação

13.12.05

Beija-flor, Pintassilgo, Rouxinol e Colibri

Beijei a flor
Ela me mordeu
Bebi o orvalho
Ele me afogou
Toquei a rosa
Ela me espetou

Natureza de merda:
Vai toda pro caralho!

Hoje, Natal, Ano Novo

Não aguento mais tanto tapa na cara
tapa na cara
tapa na cara
tapa na cara

Não, isso não é um poema. Isso é angústia.

Natal + Ano Novo. Presentinhos, famílias reunidas em volta de fartas
mesas e muitas fotinhas.

E aonde é que eu fico nisso tudo? Sempre foi horrível. Sempre foi a
pior época do ano para mim, sempre foi um desespero.

Todo os meus natais sempre acabei em algum momento me trancando no
banheiro para chorar. Mas esse ano está insuportável.

Ver a sua casa iluminada doeu. Doeu com D maiúsculo. Ver uma árvore
montada na casa da minha mãe doeu. Ver minha avó se referir a mim como
alguém sem caráter e perigoso, como se eu não estivesse ali e na
frente de uma visita doeu.

Eu sinto sua falta, eu queria ser um pouco mais ignorante.

Aí como é que eu te digo que eu preciso de, sei lá, 15 minutos de colo
quando você diz que eu sou infantil? Ás vezes é só isso que eu quero
mesmo: colo. Ou ouvir a sua voz no telefone. Ou ficar abraçada em
silêncio. Ou trepar violentamente como se o mundo fosse acabar no
instante seguinte. Ou ter uma daquelas conversas deliciosamente tolas
que temos, que acabam com risadas maldosas sobre tudo e sobre todos,
os dois espíritos de porco, eu e você. E eu gosto disso.

E eu acabo ficando com medo de falar as coisas para você por que eu
não quero ser fonte de angústia, não quero que os meus problemas te
afastem de mim (como sempre afastaram todo mundo), pq não quero que
você encare a espontaneidade que eu tenho com você como infantilidade.

Eu sei que essa carta está andando em círculos, cachorro atrás do
próprio rabo, estou me repetindo, mas eu escrevo e escrevo e escrevo e
continua tudo aqui dentro, peito congestionado, tumultuado. Eu sei que
amanhã você está aqui. Mas nesse momento irracional amanhã é tanto
tempo... é tão distante... é como se fossem 28 anos passados, jogados
para frente, para o futuro. E eu me vejo com 5 anos, loirinha e miúda na foto amarelada, colhendo tomate e então penso: coitada, nem imagina as cagadas que vem pela frente.

E não consigo entender aonde foi parar a força quase sobre-humana que
eu sempre tive. De onde está vindo tanta fragilidade. Tanta vontade de
saltar do carro. Parar o jogo, sair fora.

Mas sigo em frente, pisando firme - totalmente no escuro, mas mantendo a pose.

E sinto sua falta. Demais.

Sinto a minha energia sendo sugada quando estou com outras pessoas,
salvo duas ou três exceções. Sinto uma Paz enorme quando estou com
você. As energias voltam. Arrumo a casa, corro atrás das coisas, me
sinto mais segura, menos proscrita.

Como dizer o que você já sabe? Queria cuidar de você. Gosto de cuidar
de você. Sinto falta de cuidar de você. Sinto falta de você.

Mas não estou paralisada não. Sinto sim, tudo que escrevi, mas hoje,
especialmente, está sendo um dia muito, muito estranho, de sensações
extremamente desconcertantes, desagradáveis, indescritíveis.

Olho meu móvel de telefone, que finalmente trouxe da casa da minha mãe
e, de repente, ele tem uma importância enorme, gigantesca. É quase um
ícone. De uma fase da minha vida em que eu sabia. Ou acreditava que
sabia... mas era tão mais confortável...

Sinto sua falta.
Te amo,
Bjs,
Pri

12.12.05

Doações

Não quero mais trabalhar com publicidade.
Não quero mais trabalhar com marketing.
Não quero mais trabalhar com internet.
Não quero mais trabalhar.

Aceito doações.

Banco do Brasil
0287-9
24.151-2

Escritora desempregada agradece.

11.12.05

Olivério Girondo - É a Baba // Encalhado nas Costas do Pacífico

É a baba.
Sua baba.
A efervescente baba.
A baba hedionda,
cáustica;
a negra baba rançosa
que baba esta espécie babosa de alimárias
por seus ruminantes lábios carcomidos,
por suas pupilas de ostra putrefacta,
por suas turvas bexigas empedradas de cálculos,
por seus velhos umbigos de ponteira gasta,
por suas corcovas plenas de interesses compostos,
de ações usurárias;
a pestilenta baba,
a boba doutorada,
que envergonha a felpa das bancas com dieta
e outras brandas poltronas não menos cuspidas.
A baba tartamuda,
adesiva, viscosa,
que impregna as paredes forradas de corcho
e contempla o desastre através da algibeira.
A baba dissolvente.
A acre baba oxidada.
A baba.
Sim! É sua baba…
o que enferruja as horas,
o que perverte o ar,
o papel,
os metais;
o que infecciona o cansaço,
os olhos,
a inocência,
com seus vermes de asco,
com seus vírus de fastio,
de idiotice,
de cegueira,
de mesquinhez,
de morte.

------------------x------------------

Corta os dedos múmias
a jugular marinha
dos algosos hóspedes que dobram tua pensativa omoplata de chuva
a veia de presságios que lavram em tua areia os caranguejos escribas
o tendão que te amarra a tanto ritmo morto entre gaivotas
e foge com tua terráqua estátua pestanejante
sem um mítico corno sob a neve menina recostada em tuas têmporas
porém com onze antenas fluorescentes investindo o mistério.
Foge com ela em chamas do braço de seu medo
toma-a das rosas se preferes em chagas a casca
porém abandona o eco desse hipomar hidrófobo
que fofopolvoduende te dilata o abismo com seus viscosos zeros absorventes
quando não te transmuta em migratório voo circunflexo de nostalgias sem rumo.
Furiosamente afasta tua Sigismunda rata introspectiva
tua teia de aranha faminta
desse trasmundo enteado de lava em mística abstinência de cactus penitentes
e com teu doguearcanjo aureolado de moscas
e tuas fiéis polainas melancólicas
de sonhos dissecados e gritos de desbaste cor de crime
foge com ela dentro de teu claustral aroma
mesmo que seu céuinferno te condene a um eterno "Te quero".
Deixa até desprender-se a cálida folhagem que brota de tuas mãos
junto a esse móvel totem de coxas água viva
flagela-te se queres com as violentas tranças que furtaste do esquecimento
porém por mais que sofras em cada cruz vazia uma paixão suicida
e tua própria cisterna com semivirgem lua reclame tua cabeça
já sem veleiro ocaso
nem chicha de pestanas
nem caixas onde lateja a agônica seca
foge pelos caminhos que arrancam de teu peito
com teu filho entre parênteses
teu formigueiro de espectros
tuas bisavós lâmpadas
e todas as frutíferas lembranças florescidas que alimentam tua sesta.
Foge com ela envolto em seu orquestral cabelo
e seu olhar sigilo
mesmo que te cruzes de asas
e o averritmo ferido que aninha no dorso onde te sangra o tempo
entardeça seu canto entre seus seioslotos
ou em seus braços de estátua
que perdeu os braços em altares de vestais e faunos inumados
e foge com tuas grilhetas de prófugo perpétuo
teu nimbo sem eclipses
teus desnudos complexos
e o sempiterno talho de fluviais trevas que te partem os olhos
para que vertam coágulos de rançosa an´gustia pai
impulsos prenatais
e meteóricas ânsias que lhe mordam os crótalos
os sonhoscobras do leito onde rema ambarmente desnuda
tua ninfômana estrela
enquanto teu corpo grasna um "Nunca mais" de pedra.

2.12.05

Poesia - Chacal

"Se os editores afirmam: poesia não vende; replicamos: poesia não é vendida! Se os colunistas que se tornaram mais importantes que as notícias que escrevem afirmam: poesia não é notícia; replicamos: poesia é a própria notícia! Se alguém insiste em dizer: poesia é chata; reiteramos: poesia chateia os medíocres. Se afirmarem: poesia é coisa de doido e de otário; corrigiremos: poesia coloca os imbecis e os canalhas em seus devidos lugares!" (Chacal).

22.11.05

Poesia Voa - Me apresento no Domingo

:: poesia falada :: performance :: dança :: música :: happening :: audio-visual

De 23 a 27 de novembro a poesia decola no Circo. Vinte anos depois, o Circo Voador vai reeditar o festival de poesia que revelou Fausto Fawcett, Renato Russo e lotou as ruas da Lapa.

Nesse link a programação completa.
Eu me apresento Domingo, a partir das 18:00, no evento Poetas em Viva Voz, junto com Bruno Cattoni, Alexei Bueno, Salgado Maranhão, Leonardo Fróes, Olga Savari, Claudia Arimsa, Claudia Roquette-Pinto, Alberto Pucheu, Carlos Lima, Afonso Henriques Neto, Geraldo Carneiro, Armando Freitas Filho, Suzana Vargas, Denise Emmer e Antônio Carlos Secchin.

Estão todos intimados a comparecer!
Bjs,
Priscila Andrade

16.11.05

Paulo Mendes Campos - O Amor Acaba

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Comprem!

11.11.05

Honra

Diz o dicionário Michaelis que honra são “Manifestações exteriores de respeito ou de saudade.”
Prefiro ver honra como manifestação interior de respeito à si próprio e ao próximo e saudade de quando não era necessário definir a palavra.
Será que esse tempo existiu?

Mas quase isso também diz o dicionário: “Sentimento de dignidade própria que leva o homem a procurar merecer e manter a consideração pública.” Prefiro que o homem procure merecer e manter a própria consideração.

Indo um pouco além, o léxico nos fala: “Consideração ou homenagem à virtude, ao talento, às boas qualidades humanas; Probidade; Fama, glória.” Seria então a honra um exercício de vaidade pública e comunitária?

Prefiro contrariar o dicionário e ver Honra como Ética. “Conjunto de princípios morais que se devem observar no exercício de uma profissão”.
Mas diria, contrariando um pouco mais o dicionário: no exercício de uma vida, de nossas vidas. Princípios morais, ideais da conduta humana, harmonia, educação, gentileza, delicadeza e verdade: Poesia.
“Caráter do que desperta o sentimento de belo; inspiração.”.
É dessa honra que precisamos para viver. A honra de viver PoÉticamente.

15.10.05

Imortal no Circo

"Ivan Junqueira, o presidente da Academia Brasileira de Letras, vai ler suas poesias no Circo Voador. A alta cultura dos fardões e a poesia de bermudas dos mambembes se encontram dia 23 de novembro, no Festival de Poesia do Circo, organizado por Bruno Cattoni e Maria Juçá. Além do Ivan, outros 299 poetas, simples mortais, participarão com seus versos."

Coluna Gente Boa, de Joaquim Ferreira dos Santos, Segundo caderno do Jornal O Globo, em 15 de outubro de 2005.

"poesia de bermudas dos mambembes" - hahahahaha,hihihihi, hohohoho!!!

19.9.05

RAPINAGEM NA LAGOA

Rapinagem explícita. Há mil maneiras de passar a perna em alguém neste
mundo ingrato. A pior delas é a rapinagem sobre a autoria. E foi o
que aconteceu no episódio das Segundas Poéticas do quiosque Drink
Café. A dona do quiosque tinha um litígio com a Prefeitura, pediu
ajuda a mim, eu pedi ajuda ao Bruno Cattoni, e uma reportagem do RJTV
logo solucionou o problema dela, que pôde voltar a realizar seus
espetáculos ao ar livre.

Com o espaço e o caminho abertos depois da interferência
do Bruno, uma idéia minha foi levada a efeito, com a participação dos
eventos que compõem o panorama poético do momento, o Festival Segundas Poéticas.

Um texto de apresentação, de luxo, diga-se de passagem, redigido pelo Bruno,
ajudou a emplacar a idéia. Pois bem, quatro semanas de espetáculos e
casa cheia depois, além de exposição gratuita na mídia (RJTV, Jornal O Globo, Jornal do Brasil,
Coluna da Márcia Peltier) a dona do quiosque dispensou os meus serviços e fez
contato com os eventos para dar prosseguimento à minha idéia. E os
responsáveis pelos eventos não só aceitaram continuar participando,
como se eximiram de, por delicadeza, devolver o convite e a lembrança.
Fui dispensada também por eles.

Não pode haver poesia onde não há, no
mínimo, delicadeza e verdade. Então o que vai acontecer no Drink Café
nas próximas segundas-feiras? Rapinagem. Rapinagem explícita e
deletéria. Uma aula ególatra de indelicadeza e desrespeito à autoria,
onde gente que se diz poeta assume o lugar do professor. Que pobreza!

31.8.05

Casulo

Mudo de pele a cada manhã
abandono a alma pelo caminho toda a tarde
e renasço ao fim do dia

Os ânimos dançam um ciranda louca
tribal e selvagem
E eu apenas sinto
como um reflexo tardio
os seus cabelos nas minhas mãos

E me deixo levar pelo vento
como folha seca em prenúncio de tempestade
Retomo a alma no caminho de casa
Sempre acho que ainda não é tarde.

11.8.05

Festival Segundas Poéticas

A Lagoa Rodrigo de Freitas é um coração a ceu aberto. Em volta dele, os quiosques são conchas que abrigam gente que busca o prazer de Viver.

Música, paisagem, degustação e liberdade fazem a composição de um enredo carioca.

Mas Alguma coisa pararece estar faltando: a Poesia. A melhor maneira de sentir e traduzir a vida e os bons momentos.

A partir do dia 15, esse enredo estará completo.


Festival Segundas Poéticas
O Festival "Segundas Poéticas", na Lagoa Rodrigo de Freitas, busca valorizar os eventos de poesia que já acontecem diariamente na cidade.

O quiosque Drink Café abrigará o Festival nos meses de Agosto e Setembro, sempre às segundas-feiras.

Serão doze grupos que já se apresentam pela cidade, compondo uma vitrine do movimento poético que já se tornou uma referência cultural do Rio: Academia dos Poetas da Amendoeira, Arranjos Para Assobio, Ateliê Performático, Dizer Poesia, Movimento Letras Poéticas, Palavra de Honra, Panela Poética, Poema Show, Poesia Digital, Terça ConVerso No Café, Ver o Verso e Versos da Meia Noite.

Cada um desses grupos vai trazer um projeto e uma ação poética em processo, com pesquisa de fusão de linguagens da poesia com outras áreas de expressão artística e criativa.


Quando : 15, 22 e 29 de agosto; 05 de setembro
Onde : Drink Café - Parque dos Patins - Lagoa - quiosque nº 5
Horário : 20:00
Como : Dois a três eventos homenageados por edição + roda aberta de Poetas


Entrada Franca


Idealização e Organização: Priscila Andrade - Pit - Dedo de Moça
Organização: Thiago Espósito


Programação:

15/08: Dizer Poesia, Versos da Meia Noite
22/08: Panela Poética, Poesia Digital
29/08: Movimento Letras Poéticas, Arranjos Para Assobio
05/09: Academia dos Poetas da Amendoeira, Ver o Verso, Terça ConVerso, Palavra de Honra, Poema Show

Mais informações com Priscila Andrade
segundaspoeticas@gmail.com
priscilagandrade@gmail.com

1.8.05

Bruno Cattoni - O Destino do Chão

Olhando a chuva interminável

Concluo que o segredo extremo da vida

É esperar com firmeza o sol

Achando música nas gotas

E imaginando todos os pobres aconchegados.



Lembro da Marcha para o Mar, de Gandhi

E traço um movimento similar

Em direção à fonte do amor. Todo o povo

Indo em busca da doçura, em vez do sal.



A chuva desaba indiferente ao que atinge

Nas estradas do peito rolam carros-de-boi

As curvas e as retas vão chegando às retinas...

Como se minha alma fosse o destino do chão.


In: CATTONI, Bruno. Osso (na cabeceira das avalanches). Rio de Janeiro: 7Letras, 2005.

4.7.05

Estou voltando. Aos poucos. Segue
abaixo o primeiro do movimento lento de retorno. Em seguida, minhas leituras
atuais.

Ana Cristina César

FAGULHAS


Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria rir, chorar,
ou pelo menos sorrir
com a mesma leveza com que
os ares me beijavam.
Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça,
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando.

Eu queria até mesmo
sabe ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio.

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las.

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.

Poema extraído do livro "INÉDITOS
E DISPERSOS", editora Brasiliense

27.6.05

Armando Freitas Filho - Entre nós até o segredo

Entre nós até o segredo
mais cheio de dedos
é escrito
e escarrado
no olho da rua, nos muros — para todos —
sem temer que venha a furo
a dor do tumor
e o que era antes
de um inaudível vermelho
agora ruge
feito uma ferida
fora das grades.


In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série
Durante.

26.6.05

Hilda Hilst - PORQUE HÁ DESEJO EM MIM, É TUDO CINTILÂNCIA

E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

(Do Desejo - 1992)



* * *



Colada à tua boca a minha desordem.

O meu vasto querer.

O incompossível se fazendo ordem.

Colada à tua boca, mas descomedida

Árdua

Construtor de ilusões examino-te sôfrega

Como se fosses morrer colado à minha boca.

Como se fosse nascer

E tu fosses o dia magnânimo

Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

( Do Desejo - 1992)



* * *



Que canto há de cantar o que perdura?

A sombra, o sonho, o labirinto, o caos

A vertigem de ser, a asa, o grito.

Que mitos, meu amor, entre os lençóis:

O que tu pensas gozo é tão finito

E o que pensas amor é muito mais.

Como cobrir-te de pássaros e plumas

E ao mesmo tempo te dizer adeus

Porque imperfeito és carne e perecível



E o que eu desejo é luz e imaterial.



Que canto há de cantar o indefinível?

O toque sem tocar, o olhar sem ver

A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.

Como te amar, sem nunca merecer?

Do Desejo - Campinas, SP: Pontes, 1992.

25.6.05

Clarice Lispector - Atenção ao Sábado

Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.

No sábado é que as formigas subiam pela pedra.

Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.

De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.

Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?

No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.

Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.

Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã.

Domingo de manhã também é a rosa da semana.

Não é propriamente rosa que eu quero dizer.


Texto extraído do livro "Para não Esquecer", Editora Siciliano - São Paulo,
1992.

20.6.05

Cacaso - Terceiro Amor

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os afluentes
como passam as correntes
que desencontram do mar
Como qualquer atitude
também passa a juventude
que nem findou de chegar

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os espelhos
como passam os conselhos
ilusões de pedra e cal
Como passam os perigos
e tantos muitos amigos
sem deixar nenhum sinal

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam as gaivotas
as vitórias as derrotas
fantasias carnavais
as inocências perdidas
como passam avenidas
corredores temporais
A correnteza dos rios
como passam os navios
que a gente acena do cais

In: CACASO. Mar de mineiro: poemas e canções.
Poema integrante da série Papos de Anjo da Guarda.

4.6.05

Game Over

"é, minha linda,
parece que agora é
game over
o jogo acabou
c'est fini

adversários sob o mesmo teto
nos degladiamos tanto
sem saber
que nesse jogo
o amor não tem extra life

agora
o segundo round
é entre nossos advogados"




Pedro Tostes

15.5.05

Fechado para Obras

Por versos menos cambetas
Por leitores que deixem comentários
Por editoras mais ousadas

Mas relaxe. É por pouco tempo.

Enquanto isso, deixaremos links, muitos links.

Leia Leminski, Camus e Borges.
Assista Fellini, Bergman e Glauber.

Descubra quem é Rodchenko,
critique a semana de 22
e defenada Andrade- mas não diga qual.

Voltarei em breve, com programação nada normal.

Priscila Andrade


Comente no Livro de Visitas ou mande e-mail

20.4.05

Muito Prazer

O menino Henrique me pergunta quem eu sou. Eu sou uma convulsão menino,uma trovoada, um raio na tempestade. Sou o mar de ressaca.As folhas secas levadas pelo vento. O cisco que entra no olho.

Sou a gata mercenária que finge dormir no colo de qualquer um que lhe faça um afago suave nas costas, ronronando sem pudor.

Tenho medo de elevador. Tenho medo de muita gente junta. Tenho medo de gente.

Mato barata com detergente, só pra não ter que ouvir o barulhinho nojento que ela faz quando é esmigalhada.E não posso ver bicho morto.

Sou desconfiada, arredia, espinhosa. Mas sou generosa e ainda me apaixono. Paixões ridiculamente tolas e intensas como todas as paixões adolescentes. Por que eu não cresci. Continuo uma menina tonta, encantada com as Marias-sem-vergonha e suas sementes que explodem ao mais leve toque. Assim como eu. Explosões de fúria ou de paixão. Frouxos inexplicáveis de riso.Rompantes de apatia.

Tenho olhos transparentes. Não precisa perguntar. Eu não preciso dizer. Meu olhos falam tudo. Me delatam, os traidores.

Sou transparente: Olhos que falam e uma língua maior que a boca. Quer saber como eu sou, menino Henrique? É só me olhar.

18.4.05

Outono

Acarinho as cabeças de minha cria natimorta
e ouço seus chorinhos miúdos.
Sinto o leite talhado escorrendo
de meus seios inchados e doloridos.

O rio logo se forma,
com seu chão lodoso
e pequenos redemoinhos que tentam me sugar.

Meus pequenos natimortos sugam meu leite talhado.

Pelo rio, boiando, passam
folhas secas,
frutos maduros que o vento derrubou
e algumas flores.

O sol se põe.
Nino a cria.
Adormeço também.

8.4.05

Silêncio

Sabe quando as mãos são quentes e envolvem a sua cintura? Quando os cílios são negros e longos e os olhos castanhos e claros?
E o cabelo é de menino, emoldurando um rosto forte e doce?
Pois é. Eu sei.

Sabe quando você não precisa estar do lado para sentir e só a lembrança já te abre o sorriso?
Pois é, eu sei.

Sabe quando a cama é o mundo e o silêncio diz tudo?
Sabe quando o silêncio é bom?
Eu sei disso também.

E sabe do que mais? Eu durmo muito, muito bem.

6.4.05

Fal

"Ele me promete colo e sussurros, vinho e conversa. Quando podemos, nos encontramos. Sorrimos e somos encantadores, extremamente cuidadosos. De vez em quando, indo para casa, ele me telefona da Marginal pelo celular... e ri das minhas piadas e ouve como foi meu dia e sorri quando digo que sinto saudades. Diz que me adora. Gostar dele é tão fácil que dá medo."

Gostaram? Vão lá.

25.3.05

Angelical

Sou mulher, o diabo de saias, criatura angelical.

Você vai se perder no meio das minhas pernas,
se achar.
E vou te dominar, com meus braços atados,
meu corpo sob o seu.

Escrava, submetida aos seus caprichos,
controlo seus atos e movimentos,
com meu falso olhar submisso.

Anjos caídos, voltamos juntos,
ainda que por um instante,
clandestinamente,
às bênçãos celestiais.

11.3.05

6.3.05

Escória

Secreção, pus, pruridos, necrose.
A necrose traz o puz. Os pruridos o mal cheiro.
O mal cheiro se espalha. Somos eu e você, em decomposição, reafirmando a decrepitude inevitável e certa da espécie humana, realimentando a exuberante opulência da natureza.

Somos um lixo de merda, que se transmuta, aduba a terra, gerando clorofila e oxigênio, para que os outros lixos viventes, para que o resto da escória orgânica, possa seguir sua vida gerando o caos, alimentando a discórdia, celebrando a desarmonia.

Evoé povo das trevas, criaturas do mal. Somos a escória, a praga e a peste. Estamos aqui, parasitas do mundo, apenas para infectar e destruir, aniquilar com qualquer possibilidade de bons fluidos. Somos podres, a essência do mal. E nisso, meus caros, somos imbatíveis.

1.3.05

Digestão

Elaboração dos alimentos nas vias digestivas para depois ser deles assimilada a parte útil e expelidos os resíduos.

Útil: que ou quem tem ou pode ter algum uso. Proveitoso.

Expelido, expelir: lançar fora com violência, expulsar, ejetar. Expectorar. Lançar de si. Proferir com ímpeto.

Resíduos: resto. Fezes, borra, sedimento.

Neste momento estou digerindo você.

ELP I, de H.R. Giger

9.2.05

Dormindo com o inimigo

Será que pega mal se eu sair dizendo que ele ronca, tem as costas peludas, parece prenhe de 9 meses, tem pau pequeno e saco grande? Será que vai parecer dispeito? Será que eu vou parecer uma mocinha vulgar?

Honestamente? Ca-guei.

27.10.04

Não Voe Gol. Gol Contra

Dia 25 de outubro de 2004 embarquei no vôo 1605 da Gol, Salvador-Rio. Dez minutos depois da decolagem uma sensação estranha de que havia algo errado. Não deu tempo de terminar o pensamento: em segundos a aeronave escureceu, as máscaras de oxigênio caíram sobre nossas cabeças, o cheiro de queimado tomou conta do ambiente, a temperatura subiu significativamente e toda a equipe de bordo surgiu do nada gritando para que todos colocassem as máscaras. Tudo ao mesmo tempo.

Foi tão rápido que até entender o que estava acontecendo já tinha levado três berros de uma comissária nos ouvidos. A máscara não se soltava e quando soltou, bem... não funcionava. As outras três ao meu alcance também não. Comecei a pedir ajuda da comissária que estava mais perto - e percebi que não era a única. A maioria das máscaras não estava funcionando, ou não funcionava satisfatoriamente. A comissária foi grosseira e impaciente. E não ajudou.

Ninguém explicava nada, os passageiros em pânico, eu inclusive e, confesso, principalmente. Depois de um típico ataque de pelanca de outra passageira a equipe de bordo que inicialmente explicou tudo como um acidente ("as máscaras não deviam ter caído, é que alguém acidentalmente esbarrou no alarme, e quando o alarme é acionado elas são liberadas) mudou sua versão. Havia uma falha na pressurização da cabine, ou seja, estava acontecendo uma despressurização da cabine. Continuávamos no escuro, a aeronave cada vez mais quente e instável. Os comissários começaram a se contradizer até que sumiram todos.

Foi com o ouvido quase explodindo de dor que ouvi do comandante (é isso mesmo, comandante?) que havia uma falha na pressurização da cabine e voltaríamos imediatamente para salvador.

Em Salvador um funcionário não identificado queria convencer os passageiros de que após uma rápida manutenção poderíamos reembarcar. NO CU, PARDAL! Fui para um hotel e embarquei no dia seguinte num vôo da Varig. Os custos correram por conta da Gol.

Mas ficam aqui as seguintes colocações:
- Manutenção deveria ser regular e preventiva e não corretiva, certo?
- As máscaras de oxigênio deveriam estar TODAS funcionando perfeita e plenamente, não é mesmo?
- A equipe de bordo deveria sim ser firme, mas deveria também, mais do que nunca, ser hábil em acalmar, tranqüilizar pessoas que estavam naquele momento se imaginando churrasquinho no fundo do mar, não é mesmo?

Finalizando: nenhuma satisfação foi dada.

Em palestra recente na CCFB, um publicitário palestrante falou durante sua apresentação que a Gol até hoje não pagou a logomarca criada por eles. E que vários outros fornecedores estão até hoje com suas faturas em aberto. É verdade? Não sei. Mas considerando as desventuras do vôo (vôo?) 1605, dá para pensar no assunto...

11.10.04

Fernando Sabino

Um soco na boca do estômago, um chute no saco. Enquanto me recomponho, dou passagem para o mestre:

'A Última Crônica'*, de Fernando Sabino

"A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."

* Crônica publicada no livro "A Companheira de viagem" (Editora Record, 1965)