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31.8.05

Casulo

Mudo de pele a cada manhã
abandono a alma pelo caminho toda a tarde
e renasço ao fim do dia

Os ânimos dançam um ciranda louca
tribal e selvagem
E eu apenas sinto
como um reflexo tardio
os seus cabelos nas minhas mãos

E me deixo levar pelo vento
como folha seca em prenúncio de tempestade
Retomo a alma no caminho de casa
Sempre acho que ainda não é tarde.

11.8.05

Festival Segundas Poéticas

A Lagoa Rodrigo de Freitas é um coração a ceu aberto. Em volta dele, os quiosques são conchas que abrigam gente que busca o prazer de Viver.

Música, paisagem, degustação e liberdade fazem a composição de um enredo carioca.

Mas Alguma coisa pararece estar faltando: a Poesia. A melhor maneira de sentir e traduzir a vida e os bons momentos.

A partir do dia 15, esse enredo estará completo.


Festival Segundas Poéticas
O Festival "Segundas Poéticas", na Lagoa Rodrigo de Freitas, busca valorizar os eventos de poesia que já acontecem diariamente na cidade.

O quiosque Drink Café abrigará o Festival nos meses de Agosto e Setembro, sempre às segundas-feiras.

Serão doze grupos que já se apresentam pela cidade, compondo uma vitrine do movimento poético que já se tornou uma referência cultural do Rio: Academia dos Poetas da Amendoeira, Arranjos Para Assobio, Ateliê Performático, Dizer Poesia, Movimento Letras Poéticas, Palavra de Honra, Panela Poética, Poema Show, Poesia Digital, Terça ConVerso No Café, Ver o Verso e Versos da Meia Noite.

Cada um desses grupos vai trazer um projeto e uma ação poética em processo, com pesquisa de fusão de linguagens da poesia com outras áreas de expressão artística e criativa.


Quando : 15, 22 e 29 de agosto; 05 de setembro
Onde : Drink Café - Parque dos Patins - Lagoa - quiosque nº 5
Horário : 20:00
Como : Dois a três eventos homenageados por edição + roda aberta de Poetas


Entrada Franca


Idealização e Organização: Priscila Andrade - Pit - Dedo de Moça
Organização: Thiago Espósito


Programação:

15/08: Dizer Poesia, Versos da Meia Noite
22/08: Panela Poética, Poesia Digital
29/08: Movimento Letras Poéticas, Arranjos Para Assobio
05/09: Academia dos Poetas da Amendoeira, Ver o Verso, Terça ConVerso, Palavra de Honra, Poema Show

Mais informações com Priscila Andrade
segundaspoeticas@gmail.com
priscilagandrade@gmail.com

1.8.05

Bruno Cattoni - O Destino do Chão

Olhando a chuva interminável

Concluo que o segredo extremo da vida

É esperar com firmeza o sol

Achando música nas gotas

E imaginando todos os pobres aconchegados.



Lembro da Marcha para o Mar, de Gandhi

E traço um movimento similar

Em direção à fonte do amor. Todo o povo

Indo em busca da doçura, em vez do sal.



A chuva desaba indiferente ao que atinge

Nas estradas do peito rolam carros-de-boi

As curvas e as retas vão chegando às retinas...

Como se minha alma fosse o destino do chão.


In: CATTONI, Bruno. Osso (na cabeceira das avalanches). Rio de Janeiro: 7Letras, 2005.

4.7.05

Estou voltando. Aos poucos. Segue
abaixo o primeiro do movimento lento de retorno. Em seguida, minhas leituras
atuais.

Ana Cristina César

FAGULHAS


Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria rir, chorar,
ou pelo menos sorrir
com a mesma leveza com que
os ares me beijavam.
Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça,
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando.

Eu queria até mesmo
sabe ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio.

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las.

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.

Poema extraído do livro "INÉDITOS
E DISPERSOS", editora Brasiliense

27.6.05

Armando Freitas Filho - Entre nós até o segredo

Entre nós até o segredo
mais cheio de dedos
é escrito
e escarrado
no olho da rua, nos muros — para todos —
sem temer que venha a furo
a dor do tumor
e o que era antes
de um inaudível vermelho
agora ruge
feito uma ferida
fora das grades.


In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série
Durante.

26.6.05

Hilda Hilst - PORQUE HÁ DESEJO EM MIM, É TUDO CINTILÂNCIA

E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

(Do Desejo - 1992)



* * *



Colada à tua boca a minha desordem.

O meu vasto querer.

O incompossível se fazendo ordem.

Colada à tua boca, mas descomedida

Árdua

Construtor de ilusões examino-te sôfrega

Como se fosses morrer colado à minha boca.

Como se fosse nascer

E tu fosses o dia magnânimo

Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

( Do Desejo - 1992)



* * *



Que canto há de cantar o que perdura?

A sombra, o sonho, o labirinto, o caos

A vertigem de ser, a asa, o grito.

Que mitos, meu amor, entre os lençóis:

O que tu pensas gozo é tão finito

E o que pensas amor é muito mais.

Como cobrir-te de pássaros e plumas

E ao mesmo tempo te dizer adeus

Porque imperfeito és carne e perecível



E o que eu desejo é luz e imaterial.



Que canto há de cantar o indefinível?

O toque sem tocar, o olhar sem ver

A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.

Como te amar, sem nunca merecer?

Do Desejo - Campinas, SP: Pontes, 1992.

25.6.05

Clarice Lispector - Atenção ao Sábado

Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.

No sábado é que as formigas subiam pela pedra.

Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.

De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.

Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?

No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.

Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.

Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã.

Domingo de manhã também é a rosa da semana.

Não é propriamente rosa que eu quero dizer.


Texto extraído do livro "Para não Esquecer", Editora Siciliano - São Paulo,
1992.

20.6.05

Cacaso - Terceiro Amor

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os afluentes
como passam as correntes
que desencontram do mar
Como qualquer atitude
também passa a juventude
que nem findou de chegar

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os espelhos
como passam os conselhos
ilusões de pedra e cal
Como passam os perigos
e tantos muitos amigos
sem deixar nenhum sinal

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam as gaivotas
as vitórias as derrotas
fantasias carnavais
as inocências perdidas
como passam avenidas
corredores temporais
A correnteza dos rios
como passam os navios
que a gente acena do cais

In: CACASO. Mar de mineiro: poemas e canções.
Poema integrante da série Papos de Anjo da Guarda.

4.6.05

Game Over

"é, minha linda,
parece que agora é
game over
o jogo acabou
c'est fini

adversários sob o mesmo teto
nos degladiamos tanto
sem saber
que nesse jogo
o amor não tem extra life

agora
o segundo round
é entre nossos advogados"




Pedro Tostes

15.5.05

Fechado para Obras

Por versos menos cambetas
Por leitores que deixem comentários
Por editoras mais ousadas

Mas relaxe. É por pouco tempo.

Enquanto isso, deixaremos links, muitos links.

Leia Leminski, Camus e Borges.
Assista Fellini, Bergman e Glauber.

Descubra quem é Rodchenko,
critique a semana de 22
e defenada Andrade- mas não diga qual.

Voltarei em breve, com programação nada normal.

Priscila Andrade


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20.4.05

Muito Prazer

O menino Henrique me pergunta quem eu sou. Eu sou uma convulsão menino,uma trovoada, um raio na tempestade. Sou o mar de ressaca.As folhas secas levadas pelo vento. O cisco que entra no olho.

Sou a gata mercenária que finge dormir no colo de qualquer um que lhe faça um afago suave nas costas, ronronando sem pudor.

Tenho medo de elevador. Tenho medo de muita gente junta. Tenho medo de gente.

Mato barata com detergente, só pra não ter que ouvir o barulhinho nojento que ela faz quando é esmigalhada.E não posso ver bicho morto.

Sou desconfiada, arredia, espinhosa. Mas sou generosa e ainda me apaixono. Paixões ridiculamente tolas e intensas como todas as paixões adolescentes. Por que eu não cresci. Continuo uma menina tonta, encantada com as Marias-sem-vergonha e suas sementes que explodem ao mais leve toque. Assim como eu. Explosões de fúria ou de paixão. Frouxos inexplicáveis de riso.Rompantes de apatia.

Tenho olhos transparentes. Não precisa perguntar. Eu não preciso dizer. Meu olhos falam tudo. Me delatam, os traidores.

Sou transparente: Olhos que falam e uma língua maior que a boca. Quer saber como eu sou, menino Henrique? É só me olhar.

18.4.05

Outono

Acarinho as cabeças de minha cria natimorta
e ouço seus chorinhos miúdos.
Sinto o leite talhado escorrendo
de meus seios inchados e doloridos.

O rio logo se forma,
com seu chão lodoso
e pequenos redemoinhos que tentam me sugar.

Meus pequenos natimortos sugam meu leite talhado.

Pelo rio, boiando, passam
folhas secas,
frutos maduros que o vento derrubou
e algumas flores.

O sol se põe.
Nino a cria.
Adormeço também.

8.4.05

Silêncio

Sabe quando as mãos são quentes e envolvem a sua cintura? Quando os cílios são negros e longos e os olhos castanhos e claros?
E o cabelo é de menino, emoldurando um rosto forte e doce?
Pois é. Eu sei.

Sabe quando você não precisa estar do lado para sentir e só a lembrança já te abre o sorriso?
Pois é, eu sei.

Sabe quando a cama é o mundo e o silêncio diz tudo?
Sabe quando o silêncio é bom?
Eu sei disso também.

E sabe do que mais? Eu durmo muito, muito bem.

6.4.05

Fal

"Ele me promete colo e sussurros, vinho e conversa. Quando podemos, nos encontramos. Sorrimos e somos encantadores, extremamente cuidadosos. De vez em quando, indo para casa, ele me telefona da Marginal pelo celular... e ri das minhas piadas e ouve como foi meu dia e sorri quando digo que sinto saudades. Diz que me adora. Gostar dele é tão fácil que dá medo."

Gostaram? Vão lá.

25.3.05

Angelical

Sou mulher, o diabo de saias, criatura angelical.

Você vai se perder no meio das minhas pernas,
se achar.
E vou te dominar, com meus braços atados,
meu corpo sob o seu.

Escrava, submetida aos seus caprichos,
controlo seus atos e movimentos,
com meu falso olhar submisso.

Anjos caídos, voltamos juntos,
ainda que por um instante,
clandestinamente,
às bênçãos celestiais.

11.3.05

6.3.05

Escória

Secreção, pus, pruridos, necrose.
A necrose traz o puz. Os pruridos o mal cheiro.
O mal cheiro se espalha. Somos eu e você, em decomposição, reafirmando a decrepitude inevitável e certa da espécie humana, realimentando a exuberante opulência da natureza.

Somos um lixo de merda, que se transmuta, aduba a terra, gerando clorofila e oxigênio, para que os outros lixos viventes, para que o resto da escória orgânica, possa seguir sua vida gerando o caos, alimentando a discórdia, celebrando a desarmonia.

Evoé povo das trevas, criaturas do mal. Somos a escória, a praga e a peste. Estamos aqui, parasitas do mundo, apenas para infectar e destruir, aniquilar com qualquer possibilidade de bons fluidos. Somos podres, a essência do mal. E nisso, meus caros, somos imbatíveis.