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29.6.16

É o Momento Fudeu


Não é a queda, o impacto no chão, ralados e sangue. É o momento que precede a queda. Aquele átimo de instante em que não há contato com nenhuma superfície, nem nada, nem tempo nem ninguém em quem se agarrar e a única visão é a do chão duro, inexorável e indiferente se aproximando da sua cara. A sua cara sem ar, a sua cara muda, a sua cara que vai quebrar. Também conhecido como Momento Fudeu.

Há o Momento Fudeu gastronômico. Quando, por exemplo, o bolo já está no forno há mais de 10 minutos e o gás acaba.

Há o Momento Fudeu informático. Quando você finaliza um e-mail com um SUA VACA, assim, em caixa alta só pra desopilar e quando vai apertar o botão de delete o gato salta do lado e aperta o botão da direita que está sobre o enviar.

Há o Momento Fudeu Agora-vou-morrer, quando o médico da 4a opinião te informa, assim como o da 3a, que o primeiro errou, errou feio e que agora o seu câncer inicial encontra-se em estágio avançado e rádio e químio e famílias e amigos evaporando. Nesse Momento Fudeu a tônica é a solidão. A solidão e a gincana desumana promovida por Anvisa e receita federal. Morram vocês, seus putos! Que eu vou é dar a volta por cima!

Não é a queda, o impacto no chão, ralados de sangue. Não é o cheque sem fundo. Não é a morte inesperada, não é o pão que caiu no chão - filho único - com o último tiquinho de manteira virado pra baixo.

É aquele instante, criatura, de consciência lúcida, segundos antes da sua cara estraçalhar no chão. O segundo entre a identificação do número do banco no visor do celular e a voz protocolar da atendente de telemarketing da empresa de cobrança. É aquele instante ao telefone segundos antes do interlocutor dizer - morreu. Mas você já sabe. Você já sabe que morreu assim como sabe que aquele pão era o último e você não tem um puto para comprar outro amanhã.

É, enfim, aquele segundo eterno em que o muro ainda está longe mas você já percebeu que o carro está há 180km/h e os freios não funcionam.

O Momento Fudeu é o momento em que não há. Saída. Não há. Solução. Não há. Não há mais ninho.


22.6.16

Agora eu entendi


Nos últimos dias entendi coisas que eu já sabia. Eu já sabia que passei dos 40. Mas agora entendi. Eu já sabia que tenho uma doença crônica. Mas agora entendi. Eu já sabia que sou mortal. Agora entendi.

Agora entendi aquelas camadas ocultas de informação que já estavam lá nas lembranças de infância, entremeadas nas falas de pai, de mãe, de avós.

Eu já sabia que quando ela disse para ele com um tom doce e infantilizado “eu não te suporto, meu amorzinho” ela estava apenas camuflando a agressão por causa das crianças presentes. Porque, claro, ela não aguentou esperar as crianças saírem de perto para gritar “eu não te suporto, seu filho da puta!”. Mas agora eu entendi que quando eu repeti para ele “eu não te suporto, meu amorzinho” imitando a voz e o tom doce e infantilizado porque os meus seis anos de idade ouviram a camuflagem e não as palavras, bem, agora eu entendi que eu feri ele profundamente. Porque ela me fez faca, estilete.

Eu já sabia que isso e outras coisas mais foram e são problema deles. Agora eu entendi.

Eu já sabia que um dia eu ia crescer e entender. Agora eu entendi que eu não tinha a menor ideia. Agora eu entendi.

15.6.16

Central do Textão


Imagina todos aqueles blogs ótimos que você lia já há mais de uma década juntos. Imaginou? Pois existe. E eu também estou lá, Central do Textão!

Porque as redes sociais são ótimas.
Mas acabam, desvirtuam, não têm indexação.
Porque aquele conteúdo ótimo foi na postagem de quem, mesmo? Ou foi num comentário? Quando?

Porque lá você encontra de uma tacada só a Fal, a Telinha, o Paulo Candido, o Ricado Cabral,   o Biscate Social Club, o Claudim Luiz e uma pá de gente que escreve de um tudo, para todos os corações, mentes e ouvidos àvidos pela palavra doce, pela palavra árida, pela palavra seca, pela palavra força, pela palavra. Pela palavra.

13.6.16

Boa noite



Sopinha quente, meia macia, cobertores, pijamas, ele, gatinhos.

Meia luz, aquecedor travesseiros muitos.

Maritacas adiantadas, cigarras atrasadas, isso é uma coruja?

Boa noite.

31.5.16

A casa dorme, eu não.

Insonia

A pata da gata na minha cara. Ele ronronando ao lado. Suspirinhos peludos atados aos meus pés. Silêncio de grilos e folhas secas caindo. A casa dorme, ressona, com respiração profunda e compassada. Eu não. Ele dorme tranquilo, a gatinha tem pesadelos, o gatão acha que é hora de brincadeira. Eu não encontro o botão de desligar.

Mas já deixei para trás o noticiário, a maledicência nas salas de espera, os comentários medievais e hidrófobos nos curtos trechos dentro de um ônibus preguiçoso e trôpego.

Já deixei para trás os trolls, os hatters, os odiosos, os medíocres, os revoltados on e off line.

Agora somo só eu e você, insônia velha de guerra, embebida em zolpidem, rindo litros do hemitartarato. Só observo. Quem sabe se eu ficar bem quietinha, se eu respirar miúdo, se eu só pela metade? Se eu só? Se eu? Bem quietinha, fingindo dormir. Quem sabe você acredita? Quem sabe?

26.5.16

Estupro não é piada




Uma adolescente de 16 anos foi estuprada por um grupo de homens no Rio de Janeiro. O vídeo do estupro foi compartilhado em redes sociais e os comentários variavam entre piadas e acusações contra a vítima. A vítima seria culpada pela agressão sofrida. O caso ainda está em investigação.

Entre os vários problemas que a notícia aponta, muitos da esfera criminal, escolhi um para falar sobre. A vítima e a postagem de um homem afirmam que foram mais de 30 envolvidos. Cultura de estupro é isso. Mais de 30 homens e ninguém sequer cogitou a possibilidade de estar cometendo um crime. Poderia falar sobre a cultura do estupro.

Poderia falar sobre a falta de ações eficientes e regulares para coibir o crime de estupro, sobre como culpam sempre a vítima, sobre como a questão é minimizada. Poderia falar sobre a tranquilidade com que pessoas presenciam assédios nos ônibus, trens, ruas, escolas, casas e não impedem. Poderia, ainda, falar sobre o fato de 30 homens terem escolhido praticar um crime. Um crime contra uma pessoa incapacitada de se defender, uma mulher dopada. Um crime que não fala só de gênero, fala de ódio, de subjugar, de humilhar. Um crime que passa por tirar do outro as escolhas, portanto, a autonomia. Um crime mais que violento, um crime autoritário. Homens violentos, perigosos, medíocres e pequenos: precisam da vítima sedada para se sentirem poderosos e no controle. Porque sim, trata-se também de controle. E porque esta não é a única vítima sedada. Quando mulheres não denunciam os estupros que sofrem por vergonha, é porque estão sedadas. Quando pessoas não impedem, é porque estão sedadas. Poderia falar da sociedade doente da qual fazemos parte, que naturaliza o estupro, minimiza e culpa a vítima. Acha a minissaia uma ofensa passível de punição através da prática de um crime. Use uma minissaia e seja sentenciada a sofrer um estupro. Está aí: poderia falar sobre as roupas como instrumento de controle e submissão da mulher. Mas escolhi falar das piadas.

Sim, escolhi falar das piadas. O que leva as pessoas, homens e algumas mulheres também, a acharem que estupro é piada? Que não só não há problemas em cometer estupros e estupros coletivos contra vítimas sedadas, como também achar que é natural fazer piada? É razoável imaginar que isso seja fruto de uma sociedade machista e fortemente influenciada por vertentes religiosas cada vez mais fundamentalistas. Algumas, inclusive, nem podem ser consideradas como religião, são na realidade empresas com lucratividade alta, abençoadas pela isenção fiscal – que deveria acabar já, seria uma excelente fonte de recursos para saúde, educação e cultura.

É neste cenário, alimentado por propagandas idealizando a mulher como “boazuda” disponível ou princesinha submissa, que uma presidência interina extingue o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos. Essa extinção é a um só tempo alimento e reflexo desse cenário. Assim como o atual ministério: sem mulheres, sem negros, sem representatividade. Um país que não se importa com a integridade física de suas mulheres não pode mesmo se importar com o fato de agressões virarem piada.

Enquanto terminava de escreve esse texto vi a notícia de mais um estupro coletivo, dessa vez no Piauí. A situação é gravíssima. Não é mais possível se omitir em relação à violência contra a mulher. Não é mais possível permitir ou relevar discursos que apontam feminismo como opressão ao homem e feministas como mulheres mal amadas (seja lá o que isso signifique), homossexuais (qual o problema?), que não se depilam (qual o problema?) e que praticam linchamento virtual (quem faz linchamento virtual não é feminista, é linchador). Não é mais possível permitir que as pessoas, desconhecendo o que é o feminismo, propaguem conceitos errados. Não é mais possível.

Vou me repetir: quem é da escrita, escreva. Quem é da foto, fotografe. Quem é da música, cante. Mas aja. Positivamente, amorosamente, incisivamente. Mas aja.

2.3.16

A vida selvagem dos gatos

A vida selvagem dos gatos deu as caras aqui em casa hoje. Acordei com um barulho de helicóptero, olhei para o lado e, ó que lindo! um beija-flor dentro do quarto! Ah, que coisa mais lin... Não! Socorro, putaquepariu, para Eva, sai Flor! E quase vou de cara no chão: o beija-flor estava se debatendo no vidro da janela e tentando desesperadamente não virar café da manhã das gatas. Nada lindo. Literalmente voei, dei uma rasteira Duplo Twist Carpada nas gatas, abri a janela, tudo ao mesmo tempo agora, e salvei o beija-flor. Ufa!

Ufa nada, no quarto ao lado jazia uma rolinha. Pausa. Pausa nada, Eva pegou com a boca e está correndo! Com o cadáver na boca! Para o meu quarto, para a minha cama! Não, Eva! (nesse momento sou o homem de seis milhões de dólares, ou seja, corro em câmara lenta). Eva abandona o de cujus no meio do quarto contrariada. Eva me abandona no meio do quarto, desolada. Me concentro no beija-flor. Não se pode ganhar todas.

7.1.16

"Cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180"


CONTRA O FEMINICÍDIO  E A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA LIGUE 180


(Para ler ouvindo Elza Soares cantando Maria da Vila Matilde*)

Em 2013, 4.762 mulheres foram assassinadas no Brasil. Em 1980 foram 1.353. Mais do que o triplo em 3 décadas (fonte: Mapa da Violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil). Mesmo com Lei Maria da Penha, com as Delegacias Especializadas de Defesa da Mulher (veja aqui a relação por estado) e campanhas como Ligue 180, da Central de Atendimento à Mulher.

O assassinato de mulheres tem uma particularidade especialmente perversa que é um segundo assassinato cometido logo em seguida, o do caráter da vítima. Culpam a vítima!

Ângela Diniz foi assassinada por Doca Street em 1976. Não sei onde encontrar dados sobre aquele período. Mas o que importa é que não foi o primeiro assassinato do tipo e está longe de ser o último. Doca foi condenado, no segundo julgamento, à 15 anos de prisão mas cumpriu apenas 3 e teve direito a liberdade condicional. Em entrevista dois anos após o assassinato o pai de Doca faz insinuações sobre o caráter de Ângela (sempre culpam a vítima) enquanto a mãe de Ângela fala o óbvio, que até hoje não é ouvido: "Ela tinha direito de fazer da vida dela o que ela quisesse. Ela tinha direito de não viver mais com esse homem, que ela não queria viver mais com ele. É um direito que ela tinha. E ele quer fazer acreditar que a matou por amor. Por que que ele não morreu também por amor? Por que que ele não dividiu a crueldade?"

No primeiro julgamento Doca foi condenado à apenas 1 ano e meio de prisão, mas conseguiu sursis e já saiu  do fórum em liberdade e aplaudido. As pessoas na rua, homens e mulheres, declaravam para repórteres sua satisfação com a liberdade do assassino. Apenas duas mulheres se declararam contra.

Essa era e continua sendo a cultura no país em relação à mulher: apenas um objeto, sem direitos, nem mesmo o mais básico de todos, o direito à vida. A claque na porta do fórum aparentava concordar com o escritor (adjetive como achar mais adequado) Carlos Heitor Cony, que declarou, na época:

‘Vi o corpo da moça estendido no mármore da delegacia de Cabo Frio. Parecia ao mesmo tempo uma criança e boneca enorme quebrada… Mas desde o momento em que vi o seu cadáver tive imensa pena, não dela, boneca quebrada, mas de seu assassino, que aquele instante eu não sabia quem era’.

Doca só teve um segundo julgamento porque a reação popular (especialmente de feministas) foi negativa frente a uma condenação branda e substituída por liberdade. O julgamento foi anulado e ocorreu então o segundo.

Agir. Agir é o que traz mudança.

Passaram pela mesma tragédia do assassinato físico seguido do moral as famílias de Mônica Granuzzo e Daniella Perez. O pai de Mônica chegou a ser chamado de palhaço pelo juiz que conduzia o caso que, não satisfeito, mandou que a segurança o retirasse do recinto. Sobre Mônica falou-se até que era travesti - como se isso fosse uma ofensa. O assassino de Mônica, o ex-modelo Ricardo Peixoto, hoje dá aula na praia de Copacabana. Brilha vivo sob o sol.

Com Daniella Perez não foi diferente: culparam a vítima e foram além, culpando sua mãe, que estaria exibindo a filha na novela.

Glória Perez agiu. Recolheu 1,3 milhão de assinaturas, conseguindo que homicídio qualificado se tornasse crime hediondo. Há discussão se foi ou não iniciativa popular, se deveria ou não ser hediondo, se a privação de liberdade é solução mas, convenhamos, discussões irrelevantes. Relevante é a lei só ter se debruçado sobre o assunto quando assassinaram uma atriz famosa e branca, filha de uma diretora de tv famosa e branca. Que bom que a repercussão trouxe resultados positivos para as mulheres em alguns casos posteriores ao de Daniella perez. Mas não podemos ignorar que entre 2007 e 2013 o aumento de assassinatos de mulheres negras aumentou em 54% e o de mulheres brancas, no mesmo período, diminuiu em parcos 9,8%.

São tantos casos que não caberíam em um único tomo: Claudia Lessin Rodrigues, Viviane Alves Guimarães Wahbe, Ana Carolina Vieira, Raquel Rodrigues Soares e tantas, tantas mais.

O feminicídio é uma realidade e uma cultura e não só no Brasil. Agir é o único caminho possível. Ligando 180 se a vítima for você ou a outra, escrevendo sobre se for escritora, legislando se estiver na política etc, etc. Use sua área de atuação para mudar essa realidade e essa cultura.

Aja!




  • Para ligar quando for preciso, por você ou por outra: 180, Central de atendimento à Mulher
  • Para saber mais: Lei Maria da Penha
  • 1.1.16

    "Cría cuervos, y te sacarán los ojos" ou "Proteger eternamente a cria pretensamente frágil será seu atestado de óbito"

    Para ler ouvindo: Música: Mamãe, não chore

    Para assistir depois: Crya Cuervos, de Carlos Saura, com Geraldine Chaplin. Aqui um trecho.


    Qual a semelhança entre o texto e o filme? A crença fictícia de Ana de que a morte dos pais é culpa dela. Não é. Assim como esse filho torto não é culpa da mãe. Só será se ela concordar em criar e sustentar um universo paralelo




    Para reflexão uma breve história.

    Mas poderiam ser duas, três ou mais. Poderiam ser mais leves ou mais pesadas. Envolver ou não agressões físicas ou verbais. Onde se lê filho pode-se ler filha. Todos negam (Que horror! O que os vizinhos vão pensar?), mas toda família tem um núcleo assim. Às vezes apenas não sabem.

    Uma mãe sofre agressões verbais do filho. Essas agressões, acompanhadas de furtos de pequenos objetos, dinheiro e joias progridem para agressões físicas. A mãe faz o registro de ocorrência mas desiste, coitado do filhinho... Não vai à delegacia quando é chamada e quando vai retira a queixa. O filhinho agressor continua em casa, alimentando agressões morais e físicas (cada vez mais intensas), depredando o patrimônio, o caixa e a autoestima da mãe. Em pouco tempo parará de trabalhar e passará a ser sustentado por ela, mesmo que já tenha passado dos 30. Geralmente esse filho também tenta isolar a mãe do relacionamento com o outro filho ou filha, com o resto da família e com os amigos.

    A mãe, por sua vez, nas poucas conversas que tem fora desse ambiente, atribui ao outro filho ou filha (a essa altura já expulso de sua casa, de sua família e de sua história) a falta de caráter e a violência daquele que ela acolhe: se uma mãe está falando mal do filho, ele deve ser três vezes pior do que isso, pensam os ouvintes. Está arruinada aí a primeira vida: a do outro filho. Que vira a ovelha negra sem voz. Ninguém ouve um filho que foi desacreditado pela mãe. A conta emocional, familiar, social e profissional que esse filho pagará é alta. E será cobrada em cada centavo.

    A mãe será desconstruída e destruída a cada dia, com agressões verbais ou físicas, com o desmonte do seu lar. Essa é a segunda vida perdida.

    O filho protegido perderá o contato com a realidade, perderá a empregabilidade ou a capacidade de empreender. Passará a ter uma visão da vida social, familiar e profissional totalmente distorcida, alimentada pela mãe. O que será desse filho quando essa mãe não estiver mais presente? Essa é a terceira vida destruída.

    Se você é o outro irmão

    Queridos e queridas: se você é outro irmão ou irmã, entenda que ninguém adoece sozinho e que aquilo não é só mau caratismo. A família toda está doente. Afaste-se para preservar sua integridade física e mental. Você precisará das duas para salvar sua mãe ou mesmo seu irmão ou irmã – isso, claro, se eles quiserem ser salvos. Às vezes não querem. É como dizem as aeromoças: adultos saudáveis, em emergências, devem colocar suas máscaras de oxigênio primeiro, para ter condições físicas de colocar as máscaras em seguida nas crianças, nos idosos e nos doentes.

    Se você é a mãe

    Acredite: você não está protegendo o seu filho (seja porque ele é o mais novo ou o mais frágil ou o que for). Você está condenando essa pessoa a impossibilidade de reintegração à uma vida social saudável. Esse mundo que você está alimentando em que um adulto tem cama, comida e roupa lavada de graça, em que aqueles que "incomodam" não podem estar presentes mesmo sendo seus amigos ou sua família não é real. Humilhar e diminuir o outro filho não tornará esse melhor, nem mesmo por comparação. E quando você não estiver mais presente? Como essa pessoa adulta, já passada da meia idade, vai aprender sozinha a lidar com as dificuldades e realidades do mundo? Você não está protegendo seu filho, está condenando. Pior, está condenando o outro também. E, acredite: você precisará do outro, porque essa doença, psiquiátrica ou não, cresce em escala progressiva. Você precisará de ajuda.

    O que fazer

    Não sou psiquiatra e cada caso é um caso. Mas algumas coisas são básicas. Sua integridade física e mental primeiro. Se a única forma de mantê-las for se afastando, afaste-se. Isso vale para a mãe e para o outro irmão ou irmã. Em seguida procure a orientação de um psiquiatra e de um advogado. Abra a situação para a família, não é vergonha nenhuma. Não faça nada sozinho. Mas faça alguma coisa.

    Relações abusivas não devem ser aceitas, prejudicam a todos e nunca acabam bem.

    30.12.15

    Parangolizemos 2016!


    Vestir textos, palavras, fonemas, sons, cores, tons, formas, texturas grafismos e mover o corpo e mover a alma e criar a ação e ser a obra e o autor. Num só golpe, despindo-se de vírgulas e parágrafos. Protagonize-se.

    Para ler ouvindo Tropicália.

    27.12.15

    (...) e só então retornemos.

    Enquanto não entra 2016 e o retorno, deixo aqui alguns escritos antigos que estão entre os meus preferidos:

    21.1.06
    Mandaram avisar

    minha cama
    meus seios
    meus quadris
    e minha língua

    todos, todos
    mandam avisar:

    saudades de você!

    --------*--------

    Que bom que você Veio!

    --------------------------------------------------

    2.2.06
    Orquídea

    Minha pele se rasga da nuca ao cóccix
    Dando liberdade a uma gigantesca lâmina
    De cartilagem e penugem.

    Meu peito se rasga
    E dele sai em vôo tumultuando
    Um enxame de vespas
    Que zunem, zunem, zunem

    Minhas veias ultrapassam o limite
    Das pernas e se tornam raízes grossas
    E firmes, que me prendem ao solo.

    Nesse momento, meu tronco se solta
    E alço vôo, com meus braços que já viraram asas.

    Do alto observo o bailar das nuvens
    E o gorjeio dos automóveis

    As penas das asas se soltam
    Uma a uma
    Transformando-se em pétalas de orquídea
    Que caem docemente pelo chão.

    --------------------------------------------------

    22.2.06
    O Novo 

    Sístole, assístole
    Tum-tum
    Tum-tum
    Coraçãotaquicardia

    Mas isso,
    Isso foi ontem...

    Hoje, quando te vê
    Ele já nem bate

    Apenas um leve pulsar delicado,
    Doce, tranqüilo e discreto.
    Por outro.

    --------------------------------------------------

    8.2.06
    Prato Feito 

    Almoço baratas
    Janto ratos
    Engulo sapos

    Quem serve? Eu

    Lucy in the sky with diamonds
    Mentira, Falácia.
    Lucy in the sky with evil pills in her mind

    Me alimento do pó
    Que os cupins fazem do meu cérebro
    Me nutro, me regozijo e celebro


    8.11.15

    Tsunami de Lama, Drama Invisível
    Sobre Mariana, "Conformados"não pode mais fazer parte do nosso dicionário. Indignação, informação e ação, por favor.

    12.10.15

    Não tenho saudade nenhuma da minha infância. Gosto de ter a idade que tenho hoje e sempre fui assim, sempre senti assim. A melhor idade sempre é a que tenho no momento e fico feliz em ver que estavam erradas as pessoas que diziam "quero ver pensar assim quando chegar aos quarenta". Tenho saudade de ir tomar Banana Split com tia Bibi antes do almoço, transgressão e cumplicidade. De roubar camarão seco na cozinha a cada cinco minutos na véspera dos Carurus e Vatapás, deixando Virgilina fula da vida. Mas fula só pra constar, porque me dava logo um pratinho de sobremesa cheio, rindo e mandando não contar pra minha avó. De participar "como adulta" das conversas de Bebeta, cheias de palavrões que me diziam que o concreto, a realidade, eram os fatos ou as ideias e não a formalidade boboca e propositalmente castradora dos ditos bons modos - Bebeta era dessas pessoas que podiam falar a maior barbaridade, o palavrão mais cabeludo, sem que ninguém pensasse em palavras como vulgaridade, sem que o assunto perdesse o foco. Na boca dela palavrão era vírgula bem usada, era ritmo e cor, era gostoso. Não tenho mesmo saudade da minha infância. Tenho saudade de pessoas. Pessoas que já foram ou que não estão ao alcance dos olhos. E das impressões e sensações que essas pessoas me permitiram experimentar com todos os significados gigantescos que estavam ali em gestos aparentemente pequenos e em palavrões de duas letras que falavam mais que um alfabeto inteiro. Pensando bem, acho que não tenho saudade, tenho é um patrimônio afetivo incomensurável.

    14.11.12

    Vila


    São dois andares, três quartos, dois banheiros, meia cozinha, uma sala, um quartinho de fundos, alguma muvuca.

    Dois Sancho - muito pança -, nenhum Quixote. Um nu, duas cópias e um retrato. O retrato segue a gente com os olhos. Duros.

    Duas gatas, seis cachorros, três crianças, cinco avós. Uma divorciada, um alcoólatra, uma viúva, uma incógnita, um charme.

    Muitos carros, todos caros, todos gastos.

    É uma vila, quase uma ilha. Todos em paz.

    18.6.12

    Sou aquela que toma dois Stilnox de 20 mg e não dorme.

    Que tem tanto medo de não conseguir dormir - porque sabe que não vai conseguir - que depois de tomar os dois comprimidos à meia-noite vai lavar a louça e à uma da manhã põe a roupa na máquina. Depois senta no sofá e pensa: e agora? Água sanitária no chão da cozinha ou organizar os livros da estante por autor?

    Sono? Presente. Cair no sono? Vai sonhando...

    11.6.12


    liquidação de cérebros:
    bom e barato.
    é só pegar.

    liquidificação de cérebros.
    bom, é barato.
    E nem precisa pegar.

    coisificação do cérebro.
    bom...que ba-rat...
    vai pegar?

    22.5.12

    Nada contra

    ‎"Não tenho nada contra homofóbicos. Eu, inclusive, tenho muitos amigos que são. O problema é que tem uns homofóbicos escandalosos, que não conseguem ser discretos. Ficam dando pinta que não gostam de gay, sabe?"
    Nada contra


    18.3.12

    Ericson Pires.



    Ericson falou e disse e fez. Depois falou mais. Bons sonhos poeta.


    Poema em feitio de oração - Ericson Pires
    para Zé Celso

    Santo Santo Santo
    3 x Santo
    Rio São Sebastião
    Geral Sebastião
    Não vejo outro Rio
    O Rio vira Mar

    Santo Santo Santo
    3 x Santo
    Cidade de retalho
    Flechada
    Villegaignon
    A baía é uma latrina
    Guanabara

    Santo Santo Santo
    3 x 3
    20 do 01
    40 graus
    7 flechas
    Cidade aberta
    Cidade fechada
    O último Tamoio

    Santo Santo Rio
    Praia lotada
    Sub Urbe caos
    Estácio de Sá
    Flechado
    Praia
    Rio Sebastião
    Caos

    Santo São Santo
    Corte de lixo
    Flamengo
    Globo = biscoito
    Era no tempo do Rei... era no tempo do Rei
    Já era...
    Só vejo flechas

    São São Sebastiões
    Em cada esquina
    Em cada barraco
    Em cada papelão
    São Sebastiões
    Flechados
    Ignorados
    Ofendidos

    Sebastiões
    Sem terra
    Com fome
    Sorrindo
    Com a boca banguela
    Da docidade maravilhosa

    Sou Sou Sou Sou Sou
    Sebastião sorrindo
    Amarrado flechado
    Na solar guanabara
    ê, ê
    Terra de índio brabo.



    Ericson Pires nasceu no Rio de Janeiro. É poeta, performer. Fundador do Grupo Hapax, também é editor da Revista Global Brasil e militante da Rede Universidade Nômade. Doutor em Estudos de Literatura pela Puc-Rio é Professor Adjunto do Instituto de Artes da UERJ e participa do PACC (Programa Avançado de Cultura Contemporânea) da ECO-UFRJ. Publicou Cinema Garganta, em 2002; Cidade Ocupada, 2007 e Pele Tecido em 20 10.

    17.9.11

    aí vou levantar da cama, me espreguiçar, por qualquer coisa com tênis e correr. na praia.

    mentira.

    aí vou acordar, sentar na beira da cama, por o chinelo e fazer o café.

    mentira.

    aí vou acordar, descer descabelada, matar o resto do iogurte e me largar no sofá.

    mentira.

    aí vou acordar. virar de lado e dormir de novo.

    bom dia.

    5.9.11

    Se tem alguém que fez um instantâneo preciso e precioso da produção literária atual foi o Ramon. Vale muito conferir: ramonmello.com.br

    8.6.11

    O Livro sobre Nada
    Manoel de Barros. 


    Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.

    Tudo que não invento é falso.

    Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.

    Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.

    É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.

    Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.

    Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.

    A inércia é o meu ato principal.

    Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.

    O artista é um erro da natureza.  Beethoven foi um erro perfeito.

    A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.

    Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.

    Por pudor sou impuro.

    Não preciso do fim para chegar.

    De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.

    Do lugar onde estou já fui embora.

    E precisa de mais? Claro que não.

    19.3.11

    Figura e Fundo

    Os livros, as cadeiras, as mesinhas: lembranças. A presença de uma história. E trazem a presença de. Então a partida se torna mais suportável. Os objetos de uma vida inteira, nessa nova casa, não se descaracterizam. Iniciam uma nova história, um novo compêndio de lembranças. Se tornarão no futuro a lembrança e a presença de outros. A minha talvez. Nessa nova casa a história que eles carregam não se perde. Se soma a uma nova, que tem início agora.

    15.1.11

    Leio Caio



    Então é isso. O ano acabou, o ano começou. E eu continuo em branco. Não tenho vontade de escrever, então leio. Estou apaixonada por Caio F. Completamente. Poderia passar três dias trancada lendo. Mas faz sol e faz chuva e eu vou pra rua. Porque os dias são mais longos e a noite tarda e o fim da tarde - o fim da tarde é silêncio reconfortante. Então vou pra rua. E não escrevo. Leio. Leio Caio.


    A foto é do Veríssimo. O Marcos.

    21.11.10

    Marcos Veríssimo:

    Ruminando - http://ruminando.wordpress.com/

    Ter estudado no Cap foi mesmo um privilégio.

    5.10.10

    os edifícios parecem tão altos. os pés se afundam na calçada, sob a chuva. tão fria, tão fina. a estrada tão distante. meus pés tão no chão.

    leve. muito leve.


    O tempo passa rápido e eu sorrio.




    -----------------------------------------------------

    - Por que você não tem atualizado o blog?
    - Porque a vida toma muito tempo.


    12.9.10



    A paciente não reconheceu o entregador de frutas. Demonstrou evidente confusão mental.
    Obs: tentou fazer o pagamento com biscoitos.

    29.8.10

    O Relatório Ota do Sexo



    O cartunista Ota, que entre outras coisas foi editor da MAD por mais de 30 anos, está lançando pela editora Leya Cult/Barbanegra seu livro O Relatório Ota do Sexo.
    Quer um preview do livro? Tá aqui.
    Quer comprar pela internet? Tá aqui.
    É do Rio e quer um desconto? Pra já.

    O meu vou querer com autógrafo. Comprem, leiam e depois me contem.

    28.4.10

    Laranjeiras durante a minha adolescência inteira, como se não bastasse a falta de ônibus a partir das nove da noite, não tinha necas para se fazer.

    Agora tem vários barzinhos, dois restaurantes/pizzarias razoáveis, umas cafeterias e delicatessens bacanas, vinho e champagne. E duas boites (de garotada, mas tem). Ah, e o chorinho no dia da feira!

    Mas isso tudo é beeeeem recente. Morar em Laranjeiras era como morar numa tumba.Só tinha velhinho, babá e bebê. Um saco. Continua cheio de velhinhos, babás e bebês. E garotada. Mas agora também tem pessoas interessantes em cafés charmosos. Bem melhor...

    26.4.10

    Sarcasmo Involuntário

    "Eu hoje aprendi que se a gente não tiver dinheiro para comprar um advogado o governo dá um pra gente."

    Em rede nacional! Uns 10 anos? Cara, sou fã.

    7.4.10

    roxo



    Chuva enviesada, da esquerda para a direita. O vento de trás pra frente. E a lama da poça que o ônibus atropela. No meio desse lamaçal ocre, marrom e cinza, meu guarda-chuva roxo alegra o dia. Roxo. A cor do clero, da nobreza, da prosperidade, da depressão, das orquídeas e do luto. Na última contagem, estávamos em 120. Mas na Presidente Vargas meu guarda-chuva roxo alegra meu dia.

    4.3.10

    O pinguelo do Aurélio

    Segundo o Aurélio, resumidamente:

    Pinguelo (s.m.) - 1.(chulo) O pênis. 2. (chulo) O clitóris.

    E a minha preferida:

    3. Antiga designação do partido liberal monárquico e de seus sectários.

    Chulo.

    O problema

    As calcinhas dele eram mais rendadas que as minhas.

    24.2.10

    O ponto do silêncio

    Kandinsky:

    (...) Assim, o ponto geométrico é, de acordo com nossa concepção, a derradeira e única união do silêncio e da palavra.

    É por isso que o ponto geométrico encontrou sua forma material em primeiro lugar na escrita - ele pertence à linguagem e significa silêncio.

    E ponto final.

    19.2.10

    Nada não

    Já que a vida escorre vou criar mitos.

    Tanta sobriedade inebria.

    Pensamentos etílicos no autoexílio da lucidez.

    18.2.10

    15 de fevereiro de 2010

    Meu Caríssimo Amigo,

    Só por hoje falo o silêncio. Você está bom? Tudo vai bem? Por aqui segue o oco. Ao que parece, hoje só lembranças. Vários momentos, edição não-linear, sem pontos de interseção. Lambidas. Muitas estórias e histórias nesses poucos metros quadrados. Muito papel em branco. muito papel passado. Muito passado. Muito. Sinto muito (mentira, sinto não).

    Caríssimo Amigo, lembra quando fomos? Já faz tanto tempo... muito tempo. Muito. Te digo, Caríssimo Amigo, que a caneta desliza pelo papel e é tão bom que já não importa o que sai dali. Todas as palavras já foram ditas, escritas, lidas e relidas. E refletidas. E questionadas. E revisitadas. E reinventadas. Então a caneta no papel é para cumprir a função da caneta de canetar. Do papel de arrebanhar cada rabisco. O que é do papel que não escrito? Mas então, como eu ia dizendo... não-linear. Corte-seco. Telegráficos sejamos. Tempos de MSN. Literatura em 140 caracteres: kra uq vc vai faZr? UAHUAHUAH! :) ;) :D

    Caro Caríssimo Amigo, hoje te peguei na estante e lembrei de Manoel dizendo "eu não queria dizer nada". Bendito seja o Manuelês. Devemos todos Monumentar o Barros. Monumentemos o Barros!

    Caro Caríssimo Amantíssimo Amigo: não pulo carnaval, não sou carne de sol e pouco me importa a inexistência dos vinte e dois desocupados que gastam noventa minutos correndo atrás de uma bola. Eles estão com a vida ganha com seus salários milionários, suas aflicetas oxigenadas e seus rebentos extraconjugais com pensões estratosféricas. Eu, extasiada com tanta repetição: o futebol é uma caixinha de surpresas, agente damos tudo pelo time e pelo popozão da mulher fruta consumidora padrão de Blondor. Agente vestimos a camisa, mas agente não vestimos camisinha. Agente vestimos aparelho nos dentes. Agente somos foda! Somos penta! É-CAM-PE-ÃO!

    Caríssimo amigo, não devolvi o seu CD e nem vou devolver. E nem lamento. Bota na conta. Na conta do tempo, na conta da intimidade, na conta, na conta. Bota na conta.

    Tenho pensado muito no silêncio. Tenho vivido o silêncio. Vestido, sorvido, engolido, deglutido o silêncio, silenciosamente. Acho que lá da esquina dá pra ouvir esse silêncio todo reverberando em graves e agudos, em graves e agudos, em graves e agudos - ritornello.

    ||: Acho que lá da esquina dá pra ouvir esse silêncio todo reverberando em graves e agudos, em graves e agudos, em graves e agudos - ! :||

    Essa noite o silêncio mordeu minha virilha, passou a mão na minha bunda e mordeu a minha nuca. O silêncio me comeu. E eu gostei. O silêncio é foda.

    Meu amado amantíssimo Caro Amigo, saudades de você, do BG, dos porres homéricos (diz um amigo que certas palavras só existem em função de uma outra específica. Por exemplo: porre homérico. Não existe sono ou fome homérica. Homérico só o porre. Pra mim, a fome é de cão). Mas o BG e os porres homéricos não me cabem mais. Cabem você, as estórias, as histórias, as lembranças e as lambidas.

    Carerérrimo Amigo, sinto sua falta e dos dias de dezoito anos atrás.

    Beijo na bunda,

    Amém

    19.12.09



    Uma noite inteira sem dormir. Tensão. A gata sente o clima. A gata entra no clima. E em cinco minutos se transforma num canguru cheirado que sobe-pela-tela-pula-na-estante-quebra-o-pote-vira-a-lata-de-lixo-puta-que-pariu! Miiiiiiiiiiiiiia. E Miiiiiiiiiia.

    Vou ser defenestrada do prédio.

    A pergunta que não quer calar: Catarina é a única felina que só responde com sobrenome? Catarina Ai Caralho, venha cá!

    -------------------------------------------------------------

    Co-dependente =

    5.11.09

    Luiz Fernando Prôa - Chega de Hipocrisia!

    Chega de Hipocrisia!
    Domingo, 08 de novembro, 14h
    Concentração: Posto 6 - Copacabana


    O convite está feito, gostaria muito de ver por lá cidadãos decentes e entidades como o Viva Rio, o grupo Basta, membros do Crack Nem Pensar, Movimento pela Ética na Política, ecologistas e quem mais quiser aderir.

    Chega de hipocrisia! Precisamos de ação, paz e um pouco de HUMANIDADE!

    Obrigado!

    Luiz Fernando Prôa


    Carta na integra:

    Caros amigos, os antigos e os que chegaram agora,

    Gostaria de agradecer o apoio de todos numa hora tão difícil como esta. Precisou acontecer um fato chocante, um abalo que não atingiu apenas as famílias envolvidas, para que a sociedade se mostrasse perplexa e comovida perante a tragédia diária que vivemos em todos os cantos do país. Não tive tempo para acompanhar nada do que saiu nos noticiários, mas, segundo ouço falar, há um clima de indignação generalizado. O acontecimento lamentável do sábado, dia 24 de outubro (quando meu filho viciado em crack matou a amiga que tentava ajudá-lo a largar as drogas), fez emergir questões difíceis do dia-a-dia, que todos nós enfrentamos e já não aguentamos. Vocês não me verão mais lamentando os eventos que passaram, isso agora fica na minha esfera pessoal. Só me interessa olhar para frente e fazer alguma coisa.

    Dentro dessas questões, o crack é um deles. De uma cracolândia em São Paulo se multiplicaram centenas pelo país. Daqui a um ano serão milhares! A cola de sapateiro foi substituída pela pedra maldita, o consumo disseminado entre todas as classes e o combate intensificado contra o crime organizado transformou o Rio de Janeiro num teatro de guerra, perdida, e que será maquiado para as Olimpíadas de 2016. Mas essa guerra não é só aqui, está espalhada e em expansão por todas as capitais, periferias e áreas pobres principalmente, no interior e nas cidades de fronteira.

    O poder público, apesar da boa vontade de alguns setores, se mostra incapaz de deter a marcha vertiginosa das coisas. Há dinheiro para o FMI, para submarino nuclear, para aviões militares sofisticados, para Angra 3 e até para o Haiti, mas o que vemos aqui é a estrutura complemente falida, seja na área da saúde, da segurança pública, na defesa do meio ambiente, apesar dos esforços valorosos do ministro Carlos Minc, e em outras áreas.

    Não podemos continuar a ser esmagados e acuados pela falta de recursos, pelo poderio de grandes grupos econômicos, como o setor privado de saúde e a poderosa indústria da bebida, que sabemos ser uma droga pesada, apesar de lícita. Dois exemplos são emblemáticos. O primeiro é a aliciação através da propaganda de cervejas e similares sem nenhum controle, em nome da democracia – a deles, é claro – e do direito de informação. Chega a me doer ver atletas se prestando a isso, por dinheiro. A segunda é pessoal. Passando mal na sexta, final da tarde, fui até uma clínica em Laranjeiras, a mesma em que morreu a Cássia Eller, e que agora mudou de nome. Com a emergência aparentemente vazia, duas pessoas apenas na minha frente, esperei no mínimo uma hora e quarenta para ser atendido, ainda tendo que aturar a cara de nojo que a médica plantonista me lançou, quando com educação reclamei com a enfermeira sobre a demora. Mas meu caso não era de emergência, apenas uma dor profunda no coração, um possível enfartezinho qualquer. Saí de lá indignado e me dirigi a outra clínica, com um pique de pressão que poderia ter consequências graves. Por sorte fui atendido prontamente por lá. Isso em plena zona sul do Rio e com um cidadão comum que, naquela semana, havia se tornado assunto corriqueiro até no exterior.

    Esta semana foi a pior que já tive na vida! Contudo, houve fatos positivos e que me surpreenderam. A imprensa, muitas vezes criticada, teve um papel importantíssimo neste debate que se desenrolou, cobrando das autoridades ação. A população a “cada esquina” debateu entre si a sua indignação. Os que têm alguma voz na mídia se pronunciaram. E até um pai ousou falar em humanidade.

    Por isso me dirijo aos amigos e aos inconformados com este estado de coisas, para agradecer e alertar.

    A imprensa e as pessoas comuns seguraram em minhas mãos nestes dias, mas nenhuma autoridade se dirigiu a mim nem me ofereceu qualquer apoio, não sei se por falta de jeito ou com o intuito de não querer ouvir alguém que grita em seu ouvido.

    Não posso gritar sozinho. É muito fácil tirar de cena quem aponta o dedo para setores tão poderosos. Mas se formos milhões a gritar, a apontar o dedo, a coisa fica bem diferente.

    Alguns gestos que tenho recebido – centenas de e-mails, scraps e depoimentos pelo orkut – têm me comovido: relatos de famílias desesperadas e até uma comunidade no referido orkut chamada Poemas à Flor da Pele, que criou um movimento em apoio a meu grito.

    No domingo que vem, dia 8 de novembro, às 14 horas, mesmo que não apareça ninguém, irei caminhar na praia de Copacabana dizendo não à hipocrisia, à falta de ética, ao descaso e à propaganda de bebidas na tevê. O convite está feito, gostaria muito de ver por lá cidadãos decentes e entidades como o Viva Rio, o grupo Basta, membros do Crack Nem Pensar, Movimento pela Ética na Política, ecologistas e quem mais quiser aderir.

    Não pretendo me promover nem me candidatar a nada. Estou muito feliz sendo escritor e promotor de cultura na Internet. Tenho certeza de que ninguém gostaria de estar na minha pele neste momento. Mas não vou me omitir. Saí do armário e espero que outros façam o mesmo.

    Chega de hipocrisia! Precisamos de ação, paz e um pouco de HUMANIDADE!

    Obrigado!

    Luiz Fernando Prôa

    Peço que divulguem em suas listas este grito!
    E quem quiser promova manifestações deste tipo em sua cidade!

    Luiz Fernando Prôa

    Não há o que dizer, nem para o Prôa, nem para a família e amigos de Bárbara, então segue a carta:

    "Meu filho começou na droga pelo álcool, no colégio, esta droga LEGAL com que a propaganda bombardeia nossas crianças e jovens todo dia, escancaradamente, e que produz milhares de mortes no trânsito, destrói lares, pessoas do bem e é, como se sabe, a primeira droga que os jovens experimentam. A maioria segue pela vida em maior ou menor grau se drogando com ela, o álcool, outros acabam provando das ilegais, sendo que uns fogem delas, outros se viciam numa espiral crescente e veloz. Em geral, passam pela maconha, vão na boca adquiri-la, e os comerciantes, felizes, lhes oferecem um variado cardápio, self-service: cocaína, crack, haxixe, êxtase, ácido...

    Sei que há seis anos perdi meu filho para o crack, mas apesar das sequelas e problemas, ele nunca deixou de ser carinhoso e educado com todos, o que lhe granjeou um número sempre crescente de amigos.

    Ele passou por várias internações - tinha, desde pequeno, outros problemas mentais que se exacerbaram com as drogas. Sempre que saia das internações ficava bem. Até encontrar os amigos, tomar umas cervejas e ai a coisa saía novamente de controle. Nestes tempos o vício, apesar de grave, ainda não tinha produzidos todos seus efeitos devastadores. Mas, com o tempo e a reincidência, o crack foi o devastando. Nos últimos tempos, dizia-se derrotado para o vício, vivia muito deprimido e voltara a frequentar o NA, Narcóticos Anônimos. Tentei de tudo para convencê-lo a se internar, mas vai pedir para um pinguço largar sua garrafa. É inútil. Ele foi cada vez mais descendo a ladeira. De mãos atadas, fiquei esperando pelo pior ou por um milagre, já que segundo os "especialistas", que ditam as políticas públicas para o tratamento de drogas, o drogado tem de se internar por vontade própria.

    A reportagem que o Brasil assistiu esta semana, da mãe que construiu uma cela em casa, para tentar salvar o filho viciado em crack, é bem representativa de como as famílias vítimas deste flagelo estão abandonadas pelo Estado, e se virando à própria sorte. É bem possível que ela seja punida por isso. Na mesma reportagem, uma psicóloga inteligente afirmava que o viciado em crack tem de vir voluntariamente para tratamento. Este é o método correto, segundo a maioria dos que estão à frente das políticas para esta área. Será que essa profissional é incapaz de entender o estrago que o crack/cocaína ocasiona nas mentes de seus dependentes? Será que ela é capaz de perceber o flagelo que o comportamento desses doentes causam sobre as famílias?

    Um drogado, ou adicto, que já perdeu o senso de realidade e o controle sobre sua fissura, torna-se um perigo para a sociedade, infernizando a família, partindo para roubos, prostituição e até assassinatos, por surto ou por droga. Esperar que uma pessoa com a mente destruída por droga pesada vá com seus próprios pés para uma clínica é mera ingenuidade destes profissionais. O Estado tem de intervir nesta questão para preservar as famílias e os inocentes. A internação compulsória para desintoxicação e reabilitação destes doentes, que já perderam todo o limite, é uma necessidade premente. Ou será que todas as famílias que vivem esse problema terão de construir jaulas em casa?

    Se meu filho fosse filhinho de papai, como falaram, eu já teria pago uma ou mais internações. Mas infelizmente o papai aqui não tem grana para isso, assim como a maioria das famílias vítimas deste, que insisto em reafirmar, flagelo.

    Hoje vi uma pessoa boa se transformar num assassino, assim como aquele pai de família correto, que um dia bebe umas redondas, dirige, atropela e mata seis num ponto de ônibus.

    As drogas, ilegais ou não, estão aí nas ruas fazendo suas vítimas diárias, transformando pessoas comuns em monstros e o Estado não pode ficar fingindo que não vê.

    Dizem que vão gastar 100 milhões para equipar a polícia, mas e as vítimas diretas das drogas como ficam? E os jovens humildes atraídos pelos criminosos para seu exército? E os policiais mortos em combate nesta via indireta da guerra do tráfico? Está na hora de acabar a hipocrisia!

    Meu filho destruiu duas famílias, a da jovem e a dele, além de a si próprio. Queria sair do vício, mas não conseguia. Eu queria interná-lo à força e não via meios. Uma jovem, a quem ele amava, queria ajudá-lo e de anjo da guarda virou vítima.

    Ele irá pagar pelo que fez, será feita justiça, isso não há dúvida. O arrependimento já o assola, desde que acordou do surto do crack deu-se conta do mal que sua loucura havia lhe levado a praticar. Ele me ligou, esperou a chegada da polícia e se entregou, não fugindo do flagrante. Não passarei a mão na cabeça dele, mas não o abandonarei. Ele cumprirá sua pena de acordo com a lei, dentro da especificidade de sua condição.

    Infelizmente, só consegui interná-lo pela via torta da loucura, quando já não havia mais nada a fazer, num surto fatal.

    Este é um caso de saúde pública que virou caso de polícia.

    Que a família da Bárbara possa um dia perdoar nossa família por este ato imperdoável. Chorei por meu filho 6 anos atrás. Hoje minhas lágrimas vão para esta menina, que tentou por amor e amizade salvar uma alma, sem saber que lutava contra um exército que lucra com a proibição (que não minimiza o problema, pelo contrário, exacerba), por um bando de tecnocratas e suas teorias irreais, e para um Estado que, neste assunto, se mostra incompetente."

    Luiz Fernando Prôa, o pai

    18.10.09

    Convicção



    Eu acho que eu tenho certeza.

    Vinis Mofados, de Ramon Mello

    O quê: Lançamento do livro Vinis Mofados, de Ramon Mello

    Onde: No Brecho de Salto Alto.
    Rua Siqueira Campos, 143, sl. 44/2º andar
    Copacabana, Rio de Janeiro, RJ

    Quando: Dia 20 de outubro de 2009, terça-feira
    às 19h30

    Como: Com a playlist de João Paulo Cuenca

    VINIS MOFADOS

    resolvi organizar
    a bagunça na estante:

    palavras empoeiradas
    fotografias letras de
    música vinis mofados

    e uma coleção de
    romances fracassados



    Nesta terça-feira Ramon Mello, meu parceiro de FL@P! e coletivo|RIOSEMDISCURSO, lança seu Vinis Mofados em Copa.

    Programação obrigatória: vá!

    Te espero lá.

    4.9.09

    9.9.9. RJ. JB

    Quarta que vem, dia 09, participo do Sarau Inaugural da Oficina de Poesia. A organização e apresentação é da Christiana Nóvoa.

    Conheci Christiana em 2005 ou 2006 e convidei para o evento de Andrea Paola, na Semana Cultural de Santa, em Santa Teresa. Gosto de sua poesia, suave e relevante.

    No Sarau do dia 09 terei as excelentes companhias de Cabelo, Dado Amaral, Juca Filho, Justo Dávila, Paula Cajaty. Bom lembrar do Boato.

    O Sarau é de graça e o microfone é aberto. Veja o convite aqui.

    Sarau Inaugural da Oficina de Poesia
    Organização de apresentação de Christiana Nóvoa
    Dia: 09 de setembro de 2009
    Hora: 21h
    Lugar: espaço-café Lunático. Rua Visconde de Carandaí, nº 6 - Jardim Botânico (primeira à esquerda na Lopes Quintas)
    ENTRADA FRANCA

    30.7.09



    Tenho um enterro hoje, soube a pouco. Meu tio-avô. Fiquei me lembrando do enterro do meu avô, irmão dele, 21 anos atrás. O mesmo céu cinza, a mesma chuvinha fina e chata.

    18.7.09

    Parto do porto (in)seguro
    parto o porto que construo
    para quê porto
    se o que vale é que sempre parto?

    9.7.09

    trecho

    A gata olhava Maria. Maria nada dizia. O silêncio era tudo que se precisava saber. Qualquer algo mais era excesso. Desnecessário.

    Maria olhava a gata. Olhar vago como seu pensamento, que apenas extensão da imobilidade de seus braços, mãos, pernas.

    Silêncio de água parada.

    O sofá comportava Maria e a gata. Imóveis. O silêncio, movimento sem eco, era pleno. A sala era plena.

    Lá fora a rua com motores e buzinas e passantes tagarelas: tolo algo mais.

    27.6.09

    Mau, muito mau

    Nunca fui fã de Michael Jackson, não foi meu ídolo. Mas impossível não ficar no mínimo num clima de "putz...".

    E vai além da questão de ter talento ou não, de ser bizarro ou não, comedor de criancinhas ou não. A questão é mais pessoal. Quem da minha idade não dançou MJ nas festas? Não achou Thriller com Vincent Price o máximo? Não pulou na pista com o gritinho de Beat It? É aquele 'putz' de pedacinho da história da gente indo embora.

    Tá, tô piegas. Mas pra compensar, ele tá afiadíssimo: Peter Pan é o Caralho! Meu Nome é Charlie's Angel


    Mau, muito mau... Adoro!

    25.6.09

    Por quê?



    Por que diabos toda vez que alguém lê um texto que gosta passa pra todo mundo por e-mail atribuindo a autoria ao pobre do Arnaldo Jabor?

    17.6.09

    Memória olfativa

    Quando passa alguém na rua e aquele cheiro põe aquela pessoa na sua frente. Aquela nada desconhecida. Aquela com quem você dormia, com quem ainda sonha às vezes.

    O cheiro da fruta, impregnado nas suas mãos, te levando pra tão longe, tão longe mas com sons tão claros.

    E aí você lembra das texturas. E do gosto. Gosto de ontem, gosto de outro. Gostar dessa lembrança momento presente. Ninguém passa impune por esse lugar que foi ontem.

    13.6.09

    Simonal e o Caramelo

    Ando sensível demais. Então vou ao cinema. Mas é necessário cuidado extremo com o cinema quando se está à flor da pele. Esclarecimento feito, em frente.

    Fui ver o filme do Simonal na terça. Amei. E fiquei devastada. Hoje, dando uma geral no Blowg acabei fazendo um comentário sobre o filme. Me atormentou tanto que, mesmo querendo, resolvi não escrever sobre, vou só reproduzir o que comentei por lá, copy & paste sem pudor:

    Pois eu resolvi não esperar o DVD. O filme é bem feito, a abertura é linda e no começo tive que me segurar para não cantar e dançar na poltrona.

    Mas o filme avança e, nessa história, ninguém é bom moço.

    O Arthur da Távola resume bem o que aconteceu: um linchamento. Só que ele não foi linchado pelo que fez (e se tivesse sido, também não justificaria). Ah, foi feio...

    Saí do cinema engasgada, com o rosto pegando fogo. Fazia tempo que um filme não me pegava assim. Não tenho vergonha de dizer que me acabei de chorar no banheiro feminino.

    Mas Claudio Manoel e companhia, na minha humilde e inútil opinião, estão de parabéns. Não tem floreio. O filme é bem feito e não dá refresco pra ninguém - nem pro espectador.


    Bom, depois do vexame na saída do Simonal, quando me chamaram ontem para ver Três Macacos fiquei receosa. Aceitei, mas no fundo torcendo para os ingressos terem acabado. E tinham!

    Mas Caramelo ainda tinha disponível. "Mulheres em beirute... será?"

    Resumindo: o filme é delicado, despretensioso e não fala nada que a gente já não saiba. E não deixa de ser um alívio ver que gente, no final das contas, feitas certas concessões culturais, é tudo igual. Aqui, em Beirute, Madagascar ou Kyoto. E saí do cinema em paz.

    27.5.09

    No corredor

    Nina respira fundo, se concentra e, olhos fechados, enfia a chave na fechadura. Abre a porta num supetão de taquicardia, numa efusão de congelado-sorriso-social-semi-histérico sem esquecer – isso é por demais importante - , sem esquecer que tem que chegar de uma passada só até a lixeira, imaculada. E... ai, que susto!

    Ele está lá. Descalço, cuecão e sem camisa. Que peitoral, ela pensa. Faço um estrago num desses.

    Ele ri, meio constrangido, meio jogando charme. Não é amor, é esporte. Não é sexo, é esporte. Ela segura a gata numa mão, três sacolas na outra e o chaveiro no mindinho da mão esquerda. A mão que segura a gata. Só então ele percebe que está só de cueca. Ela de camisolinha. No corredor, na frente da porta do síndico.

    - Quer uma ajuda?

    “Quero. Me ajuda a tirar a camisola, depois me ajuda a arrancar a calcinha e aí me ajuda a entender o que é sexo selvagem.”

    - Não, obrigada. Você é muito gentil.

    - Tem certeza? Qualquer coisa... estou aqui – insiste ele, em franco discurso direto. Direto para os peitos dela.

    Ela percebe a cueca. Ele, a camisola.

    Rápido constrangimento. Mas o difícil mesmo é manter a língua dentro da boca e não propor:

    - Sua casa, eu preparo o jantar, você abre o vinho. Hoje a gente brinca. Amanhã é outro dia.

    “Que peitão, que bundão, que tes...”

    - Olha, na verdade agradeço se você capturar a gata, que fugiu escada acima.

    Ele captura a gata que fugiu escada acima. Na devolução, olhos nos olhos, qual é o seu nome mesmo?

    - Pablo, sou argentino. Ninguém é perfeito – e sorri, com aquela boca perfeita.

    - Então boa noite.

    - Boa noite, então. Dorme bem com a gatinha.

    - Dorme bem.

    Fecham as portas lentamente. Ela mordendo os lábios sem perceber. Ele com a boca aberta, sem reparar. Hoje tem insônia no prédio.

    23.5.09

    Quem leva?

    "Dos 50 primeiros finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa anunciados, em cerimônia no Consulado de Portugal no Rio, quase a metade está nas mãos de dois dos maiores grupos editoriais do País, Record (13 autores) e Companhia das Letras (12 autores. É um dado importante, considerando que a edição atual do prêmio teve 100 editoras inscritas, das quais apenas 13 chegaram a essa primeira lista de finalistas, da qual fazem parte premiados escritores como Milton Hatoum, colunista do Estado, o português Gonçalo Tavares, além de representantes da nova geração de autores - Daniel Galera e Carola Saavedra -, e um dos maiores nomes das artes plásticas no Brasil, Nuno Ramos, revelado também como autor em Ó, classificado como livro de contos."

    "Os independentes finalistas são quase todos poetas. É um gênero cada vez menos presente no prêmio."

    Leia completo aqui, na Verdes Trigos. Também na Verdes Trigos a lista dos 50 primeiros selecionados. Aliás, já leram o Rodrigo de Souza Leão? Muito bom.

    19.5.09

    Vesti Azul

    "vesti azul
    minha sorte então mudou
    vesti azul, minha sorte então mudou..."




    "me apareceu um brotinho lindo
    que me convenceu, dizendo
    que eu devia vestir azul,
    que azul é cor do ceu e seu olhar tbm..."


    Simonal entoando Nonato Buzar. Não tinha como ser melhor!

    12.5.09

    Desencontro

    O reencontro inesperado.
    Os olhares surpresos.
    Ele ansioso - para que ela se vá.
    Ela constrangida - por ter acreditado.
    Meia dúzia de palavras vazias, estéreis; sorrisos polidos; um beijo não se sabe onde.
    E se despedem.
    Seria frugal, se não tão indigesto.

    9.5.09

    Hoje, corre que ainda dá tempo!

    Hoje, a partir de 19h, no Bar Bukowski (Rua Álvaro Ramos, 270 - Botafogo / RJ), lançamento de pequenasBiografias NÃO-AUTORIZADAS, de Leonardo Marona. Editora 7 Letras. Vai lá.

    3.5.09

    Ele não anda, desfila.
    Passos a meio metro do chão.
    Flutua.

    E se crê
    aristocrático,
    fleumático
    um Dândi.

    Em delírio, um nobre
    - que mata por meio cobre
    na verdade, tolo Dom Quixote

    - só há nobreza em seus gestos nos sonhos
    que habitam sua oca cabecinha

    E ele pluma
    pela rua, leve.
    paira
    nas alturas.


    Decrépito
    sombra de um passado
    que não foi,
    patético.

    23.4.09

    Da qui prá frente...

    Daqui pra frente, tudo vai ser diferente...


    Adotei esse trecho da canção de Roberto e Erasmo como meu lema para 2009. Nem que seja para descobrir que eu preferia como era antes. Inclusive os erros. Estamos em abril e, até agora, tudo certo.

    Com isso, estou acordando às 6:20 e às 7:00 já estou na academia. Sim, a boêmia de alma agora acorda e malha cedo, muito cedo. Sinceramente? Estou achando esquisitíssimo. As duas da tarde me sinto como se já fosse meia noite e minha cabeça me prega uma peça bizarra: me lembro da aula como se tivesse sido na véspera.

    Amores. Diferentes também. Ok, não chegam a ser amores. Peguetes. Aha, sim! Agora eu tenho... Peguetes! E tudo quase ao contrário do meu histórico sentimental. São mais novos, não são lá muito afeitos à leitura, veem Big Brother (e não sabem quem foiGeorge Orwell), gostam de raves, etc. E quer saber? Estou adorando. Não quero discutir a gestalt do objeto, não quero ir ao MAM, não quero discussões inteligentes. Aliás, não quero discussões. Ano sabático no que diz respeito a intelectualices (ui! neologismei ou errei mesmo?). Só quero que a criatura seja espontânea, que me faça rir. E que seja potente, claro. Claro também que continuo a mesma, então tem aquele peguete por quem sou quase apaixonada e aquele amor antigo que ainda me balança. Mas estou firme na decisão de experimentar. E experimentar diferente.

    Trabalho. Bem, aí não dá para escolher muito. Pintou a gente pega. Mas, mesmo com contas para pagar, estou evitando aqueles que cheiram a problema.

    Aliás, falando em problema e cheiros, estou evitando quem cheira a problema, quem cheira a loucura.

    Estou fazendo muito faxina. Jogando fora. E não é só lixo não. Lembranças e pessoas também. Parece cruel? Não, não é não... Jogamos fora e somos jogados também. Tem gente que tem que ficar no passado e lembranças que devem sobreviver só na nossa cabeça. Nada de guardar certas cartas, objetos, presentes. Ok, ok, foto pode. Jogar fora às vezes é apenas um ato de libertação. O que na verdade é o que venho fazendo. Venho me libertando e me liberando. Estou me dando alforria. Certas situações não têm solução. Algumas pessoas não mudam. Ou não mudam em certos aspectos que são justamente os que nos incomodam. Todo mundo é assim. Eu inclusive.

    Outro dia um queridíssimo (que anda sumido, será que me jogou fora?) falou: você nunca mais escreveu um poema. Não, querido, escrevi sim. Só não mostrei para você. E não publiquei no blog. Por quê? Porque estou em momento de maturação. Dos poemas, das escolhas.

    Porque não basta ser diferente. Tem que ser pra valer.

    Daqui prá frente
    Tudo vai ser diferente
    Você tem que aprender
    A ser gente
    Seu orgulho não vale
    Nada! Nada!...


    7.4.09

    Tomara que chova
    uma chuva bem fininha
    prá molhar a sua cama
    e voçê dormir na minha
    *

    quando passa de meia noite ele sai pra jogar o lixo de cuequinha.
    adoro quando ele sai pra jogar o lixo.



    *Chuva Fininha, de Roberto e Meirinho

    25.3.09

    politrauma

    no politrauma do miguel couto todas aquelas personasgrafitadas e suas algemas fechadas em cadeiras e camas e macas, e aí irmão, dançô também. chão de sangue. segue o rastro, raspão na cabeça. projétil protegido aninhado na cartilagem de um joelho que não vê um dedão - munição arrancou.

    sala de ressucitação:lotação esgotada

    Raio-x: lotação esgotada

    Lotação: incendiada.

    no politrauma do miguel couto ninguém entra ninguém sai, fora todo mundo que é visitante, é para sua própria segurança. aí babaca, larga mão da pulseira, fica quieto senão você pode cair, bater com a cabeça e morrer.

    aí tia, dá uma água pra mim, na boa, na paz.

    tiros, o táxi sai voado, é fechado pelosomi. O puliça da portaria vem carregado. braço estilhaçado, hospital desprotegido. hospital bala perdida. a tia entubada não viu nada.

    no politrauma do miguel couto não tem parada. dia animado, clima saudável e ótimas companhias.

    17.3.09

    Espingardinha

    Lembrando da própria infância, comprou pro aniversariante de cinco anos a espingardinha que nunca teve. Ficou tão entusiasmado que ele mesmo abriu o presente, mostrou todos os detalhes, pôs no ombro e começou a marchar de um lado para o outro. Um, dois, um, dois. O aniversariante, olhinhos de tédio, suspira:
    - Boboca.

    16.3.09

    Sesta

    Nunca mais encontrei miolo no mercado ou na feira. Miolo frito, à milanesa... no Cervantes ainda tem. Onde se compra miolo hoje nessa cidade?

    O único miolo que ainda encontro, mais que frito, passado do ponto, é o meu. Não sai nada dessa cabecinha. Devíamos adotar a sesta até que os dias se tornem mais amenos. Não há como pensar assim. Pensar, escrever, comer, andar, amar, odiar, respirar. Impossível. O ar quente entrando pelas narinas, pulmão al dente no vapor.

    Que caia a chuva! Enquanto isso, devíamos adotar a sesta. Das 8h da manhã às 6h da tarde. Embaixo do ventilador. No ar condicionado. No chão de lajota do banheiro. No piso de mármore do corredor. Aboli aquecedor e toalhas. Agora só gelo e varanda. Janelas escancaradas. Vamos adotar a sesta. Abram as redes, os tecidos precisam respirar.

    13.2.09

    Encefalocardia

    Estou preparando o meu primeiro livro individual, e vai aqui uma amostra. O objetivo é mesmo saber como impacta para vocês - não que isso vá necessariamente gerar alguma alteração no projeto. Quem já me conhece, sabe que a mão é delicada, mas firme. Diz o Ramon que a minha poesia é psicossomática. Tenho pensado a respeito. Opinem. E bom fim de semana!

    Ah, se encontrarem links quebrados no menu à esquerda é porque estou dando uma geral no blog, jogando fora algumas coisas que já não me dizem nada e que acho que se perderam no tempo. E mudando de lugar outras que ganharam nova posição nessa minha cabeça psicotrópica. Fiquem a vontade.

    Encefalocardia
    por Priscila Andrade


    |equilibrismo|

    A Equilibrista

    A equilibrista acordou as duas e vinte e duas da manhã
    Coração aceleradoaceleradoacelerado
    E falta de ar
    Não conseguia dormir de novo
    Insônia (insônia?)

    O Fauno dionisíaco desarrumou seu armário
    Tirou do lugar cada um de seus pertences mais vitais
    E jogou a lanterna fora

    Não havia tempo para rearrumar ou mesmo procurar.
    O espetáculo recomeçava
    O nome do jogo agora era Risco
    Insônia (ansiedade?)

    A equilibrista se olhou no espelho
    “Bacante...” dizia por suas costas a entourage do circo
    “Bacante, libertina.”
    Seus olhos falavam a tristeza e o canto da boca
    Um quase sorriso sarcástico
    E certo deleite

    O espelho mostrava as sobrancelhas franzidas
    A boca contrariada
    O olhar espumante
    A moça não gostava de perder o controle

    Olhou o armário.
    Vara, rede de segurança, cabo espesso de aço:
    Nada.

    No trailer ao lado
    Dormia tranqüilo o Fauno

    Olhou a cama
    Insônia?
    Ansiedade?
    Entendeu o que já sabia: desejo.
    Desejo no trailer ao lado.

    Para satisfazer seu desejo (desejo?)
    A equilibrista terá que andar no fio da navalha
    Se equilibrar com uma enorme serpente branca
    E encarar os holofotes sem rede de segurança.
    Será que ela vai? Ela sabe a resposta.


    A Equilibrista, Movimentos Arriscados

    — Pé ante pé, avanço na corda bamba
    A corda é o fio de uma navalha
    E a vara que deveria me dar equilíbrio
    Uma enorme serpente branca.

    Não há rede de segurança
    Os holofotes me impedem de ver a platéia:
    Apenas ouço seu mastigar aflito de pipoca e algodão-doce
    Assim como seus corações torcedores

    Torcem, em seu íntimo mais profundo
    Para que eu caia
    Que a serpente me envolva
    Quebre meus ossos e me devore
    Que o fio da navalha chova meu sangue

    Aguardam ansiosamente minha queda no abismo
    - não haverá baque no final
    Assim como não existe o final da corda
    Apenas escuridão e seu balançar

    Mas sigo em frente
    Firme e compenetrada
    Sentindo o gelo do aço sob meus pés.

    A serpente me alisa, me provoca e me bolina
    Ao mesmo tempo me enforca e me desequilibra,
    Enquanto enfia seu corpo escorregadio entre minhas pernas.

    Os holofotes operam no auge de sua luminância.
    Minhas pupilas já não são visíveis.

    Não me pergunto onde isso vai dar.
    Apenas sigo em frente
    Firme e compenetrada
    Sentindo o gelo do aço sob meus pés.


    |Paraeles|

    Paraeles

    Paraty, não para mim
    Para eles, não para nós

    Paraty, com sua poesia construída
    Me expulsa
    Me agride
    Esse lugar não me pertence

    Devolvo os desaforos
    Deixando em cada pedra
    Ou fragmento de terra do centro histórico
    Um pouco de mim

    Fios de cabelo
    Pedaços de unhas ruídas
    Cutículas arrancadas a dentadas
    Fazendo gotejar o sangue

    E o sangue se mistura a terra
    Estou vingada
    Paraty e eu agora somos uma só

    Deixo ali minha marca
    Meu DNA
    Meu sangue literal

    Faço o mesmo na cidade dos locais
    Na Paraty de verdade
    Que não atrai festivas, jornalistas ou turistas
    A Paraty pária, vergonha
    Subúrbio abortado do Rio

    Mas a cidade entende e entra no jogo
    E começa a me devorar

    Consome meu sono
    Rouba-me o calor do corpo
    Devora minhas energias

    Deixa apenas
    Propositalmente
    Uma certa melancolia

    A cidade me expulsa

    Guardo de lá apenas
    Beijos roubados
    Olhares furtados
    Batimentos acelerados
    E uma certa falta de ar

    Pequenas transgressões
    Públicas, íntimas e secretas

    Apenas nós, transgressores
    E a cidade sórdida, cretina
    Apenas nós sabemos

    Mas a cidade não pode falar


    |natureza|

    Fênix

    Observo a poeira em suspensão
    No feixe de luz que atravessa o quarto.
    Assim como eu, mormaço.

    Suor escorrendo: tátil.
    Feixe de luz: intangível.

    Observo a poeira em suspensão
    No feixe de luz que atravessa o quarto.
    Assumo-o, tomo as rédeas de mim
    E me encaro.
    Escancaro a janela:
    Luzes solares de março.

    O cheiro de dama-da-noite no quarto.
    De Tangerina, as mãos.
    Dos seus cabelos, narinas.

    A vida recomeça.


    Casulo

    Mudo de pele a cada manhã
    abandono a alma pelo caminho toda a tarde
    e renasço ao fim do dia

    Os ânimos dançam uma ciranda louca
    tribal e selvagem
    E eu apenas sinto
    como um reflexo tardio
    os seus cabelos nas minhas mãos

    E me deixo levar pelo vento
    como folha seca em prenúncio de tempestade
    Retomo a alma no caminho de casa
    Sempre acho que ainda não é tarde.


    Da Lua

    Me agarro a causas perdidas
    Me entrego a amores impossíveis
    Busco a bala perdida
    Quando só quero vida.

    Confusão suicida
    Conclusões espermicidas
    Relações parricidas
    Amizades Fratricidas

    E cada passo leva ao abismo
    distante com cheiro de absinto
    E eu, que nem gosto de absinto?

    Sinto muito por toda essa confusão mental
    Essa incapacidade de avaliação
    Essa leitura equivocada de tudo e de todos.

    Meu código de barras se apagou.
    Nele não estava o meu preço
    Seria fácil demais
    Nele estavam minhas coordenadas.

    Hoje, observo os ratos que saem dos bueiros
    As baratas que avançam na direção de meus pés quase descalços
    Sempre cansados
    Desvio do mendigo louco, totalmente roto
    E me pergunto, quem é o quem aqui?

    Os livros na estante esfregam na minha cara:
    Conhecimento e leitura só trazem sofrimento.
    Não leia! Vá à praia, curta as Paineiras, beije na boca
    Caia na noite, viva a balada.

    Ansiolíticos, hipnóticos, álcool, ervas.
    Consuma sua mente.
    Torne-se um computador,
    Uma TV
    Um rádio: um terminal burro, que apenas defeca informações.
    Sem troca, sem interações.

    Vamos alimentar os bueiros com ratos e baratas.
    Vamos jogar o lixo mal fechado. A indigência precisa comer.
    Precisa catar a comida no lixo: é a dignidade que lhe resta.
    Caçadores de seus próprios alimentos.

    E eu ouço Thelonious. Why Monk?
    E eu ouço Tom Waits. Why Waits?
    Wait for me, my misery.

    Preciso de sapatos novos
    Colo, cafuné e uma boa foda.
    Preciso de menininhos deslumbrados
    Que não perguntem nada.

    Apenas me sirvam, me sirvam, me sirvam.
    Meus servos
    Meus escravos
    Com seus cravos, espinhas e ar adolescente.

    O vôo de Ícaro.
    A poeta se esfacelou no asfalto.
    O letrista poetizou, sinalizando a opção por virar estrela.
    Diz que optando por dançar, viramos constelação.

    Constelações são estrelas.
    Estrelas são astros que tiveram luz própria
    mortos há séculos e séculos atrás.
    Luz falsa, ouro de tolo.

    E os cavalos passam por cima de nós
    A poeira levanta
    E saímos ilesos.

    Somos ilusões.
    Cerveja, cachaça, Red Label.
    Trepada, Ressaca, Luz ofuscante na calçada.

    Vamos, meu anjo,
    Fazer amor até amanhecer.
    Vamos, meu sacana
    Foder pela noite, morrer.
    Vamos, meu nego
    Trepar e adormecer.

    O sol não brilha para mim.
    O astro rei me diz
    E eu já sei
    Sou posse da lua.

    Por isso ando nua,
    crua como carne
    Apodrecendo ao luar.
    Sempre sua.


    Orquídea

    Minha pele se rasga da nuca ao cóccix
    Dando liberdade a uma gigantesca lâmina
    De cartilagem e penugem.

    Meu peito se rasga
    E dele saem em vôo tumultuado
    Um enxame de vespas
    Que zunem, zunem, zunem

    Minhas veias ultrapassam o limite
    Das pernas e se tornam raízes grossas
    E firmes, que me prendem ao solo.

    Nesse momento, meu tronco se solta
    E alço vôo, com meus braços que já viraram asas.

    Do alto observo o bailar das nuvens
    E o gorjeio dos automóveis

    As penas das asas se soltam
    Uma a uma
    Transformando-se em pétalas de orquídea
    Que caem docemente pelo chão.


    Outono

    Acarinho as cabeças de minha cria natimorta
    e ouço seus chorinhos miúdos.
    Sinto o leite talhado escorrendo
    de meus seios inchados e doloridos.

    O rio logo se forma,
    com seu chão lodoso
    e pequenos redemoinhos
    que tentam me sugar.

    Meus pequenos natimortos
    sugam meu leite talhado.

    Pelo rio, boiando, passam
    folhas secas, frutos maduros
    que o vento derrubou
    e algumas flores.

    O sol se põe.
    Nino a cria.
    Adormeço também.


    |corpo|

    Autofagia

    Deviam me amarrar
    com as minhas tripas
    Em um tronco feito
    com meus ossos
    Me alimentar apenas
    com minhas carnes
    Matar minha sede
    com meu sangue

    Assim,
    e somente assim
    Me realimentaria
    de mim mesma
    E voltaria
    a me reconhecer
    no espelho


    Lago Amarelo

    Abscesso profundo
    Lago espelho amarelo
    Onde mergulho
    E te espero

    Meus tecidos
    Esgarçados pelos apóstemas
    Transformam meu corpo em vestidos
    A cada edema nascido

    Boneca de trapo
    Vestidos de retalhos
    Danço no espelho amarelo
    Onde mais uma vez te espero


    Arcabouço

    Vertebroso e acéfalo
    Meu corpo decomposto se arrasta
    Se esgueira por vielas
    Só para provar meu amor por você

    Vértebra a vértebra
    Vão todas ficando pelo chão
    Caminho de Joãozinho e Maria
    Formado não por doces ou pães
    Mas por meus restos mortais

    Meu amor não
    Meu amor por você se mantém
    Calcificado, indelével
    Aqui neste arcabouço
    Onde pretendo te reter


    Ponto Morto

    Pisar nas feridas
    Arrancar as peles soltas
    Morder a língua
    Arrancar as gazes envoltas

    Lamber as feridas
    Arrancar os olhos
    Chupar o sangue
    Regurgitar a bílis

    Não toco piano
    Toco tendões
    Comer a própria carne
    É minha única tentação


    O Novo

    Sístole, assístole
    Tum-tum
    Tum-tum
    Coraçãotaquicardia

    Mas isso,
    Isso foi ontem...

    Hoje, quando te vê
    Ele já nem bate

    Apenas um leve pulsar delicado,
    Doce, tranqüilo e discreto.
    Por outro.


    Encefalocardia

    Vermes em movimentos orgiásticos
    Latejam em meu crânio
    Substituindo a taquicardia
    Encefalocardia
    Ecefalolatente
    Lateja, latejam
    As têmporas expõem o
    Movimento interno

    O coração, essa bomba hidráulica
    Tolamente romantizada
    Necrosou

    O céu da minha boca nublado
    E os olhos de sal
    E as intempéries saudosas
    Que eu apenas calei.

    Calei os braços, as pernas e os cotovelos
    De lã era o novelo em que me protegi
    No meu silêncio.

    Ssssssssssssss

    S.i.l.ê.n.c.i.o.


    Digestão

    Elaboração dos alimentos nas vias digestivas para depois ser deles assimilada a parte útil e expelidos os resíduos.

    Útil: que ou quem tem ou pode ter algum uso. Proveitoso.

    Expelido, expelir: lançar fora com violência, expulsar, ejetar. Expectorar. Lançar de si. Proferir com ímpeto.

    Resíduos: resto. Fezes, borra, sedimento.

    Neste momento estou digerindo você.