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5.11.09

Luiz Fernando Prôa

Não há o que dizer, nem para o Prôa, nem para a família e amigos de Bárbara, então segue a carta:

"Meu filho começou na droga pelo álcool, no colégio, esta droga LEGAL com que a propaganda bombardeia nossas crianças e jovens todo dia, escancaradamente, e que produz milhares de mortes no trânsito, destrói lares, pessoas do bem e é, como se sabe, a primeira droga que os jovens experimentam. A maioria segue pela vida em maior ou menor grau se drogando com ela, o álcool, outros acabam provando das ilegais, sendo que uns fogem delas, outros se viciam numa espiral crescente e veloz. Em geral, passam pela maconha, vão na boca adquiri-la, e os comerciantes, felizes, lhes oferecem um variado cardápio, self-service: cocaína, crack, haxixe, êxtase, ácido...

Sei que há seis anos perdi meu filho para o crack, mas apesar das sequelas e problemas, ele nunca deixou de ser carinhoso e educado com todos, o que lhe granjeou um número sempre crescente de amigos.

Ele passou por várias internações - tinha, desde pequeno, outros problemas mentais que se exacerbaram com as drogas. Sempre que saia das internações ficava bem. Até encontrar os amigos, tomar umas cervejas e ai a coisa saía novamente de controle. Nestes tempos o vício, apesar de grave, ainda não tinha produzidos todos seus efeitos devastadores. Mas, com o tempo e a reincidência, o crack foi o devastando. Nos últimos tempos, dizia-se derrotado para o vício, vivia muito deprimido e voltara a frequentar o NA, Narcóticos Anônimos. Tentei de tudo para convencê-lo a se internar, mas vai pedir para um pinguço largar sua garrafa. É inútil. Ele foi cada vez mais descendo a ladeira. De mãos atadas, fiquei esperando pelo pior ou por um milagre, já que segundo os "especialistas", que ditam as políticas públicas para o tratamento de drogas, o drogado tem de se internar por vontade própria.

A reportagem que o Brasil assistiu esta semana, da mãe que construiu uma cela em casa, para tentar salvar o filho viciado em crack, é bem representativa de como as famílias vítimas deste flagelo estão abandonadas pelo Estado, e se virando à própria sorte. É bem possível que ela seja punida por isso. Na mesma reportagem, uma psicóloga inteligente afirmava que o viciado em crack tem de vir voluntariamente para tratamento. Este é o método correto, segundo a maioria dos que estão à frente das políticas para esta área. Será que essa profissional é incapaz de entender o estrago que o crack/cocaína ocasiona nas mentes de seus dependentes? Será que ela é capaz de perceber o flagelo que o comportamento desses doentes causam sobre as famílias?

Um drogado, ou adicto, que já perdeu o senso de realidade e o controle sobre sua fissura, torna-se um perigo para a sociedade, infernizando a família, partindo para roubos, prostituição e até assassinatos, por surto ou por droga. Esperar que uma pessoa com a mente destruída por droga pesada vá com seus próprios pés para uma clínica é mera ingenuidade destes profissionais. O Estado tem de intervir nesta questão para preservar as famílias e os inocentes. A internação compulsória para desintoxicação e reabilitação destes doentes, que já perderam todo o limite, é uma necessidade premente. Ou será que todas as famílias que vivem esse problema terão de construir jaulas em casa?

Se meu filho fosse filhinho de papai, como falaram, eu já teria pago uma ou mais internações. Mas infelizmente o papai aqui não tem grana para isso, assim como a maioria das famílias vítimas deste, que insisto em reafirmar, flagelo.

Hoje vi uma pessoa boa se transformar num assassino, assim como aquele pai de família correto, que um dia bebe umas redondas, dirige, atropela e mata seis num ponto de ônibus.

As drogas, ilegais ou não, estão aí nas ruas fazendo suas vítimas diárias, transformando pessoas comuns em monstros e o Estado não pode ficar fingindo que não vê.

Dizem que vão gastar 100 milhões para equipar a polícia, mas e as vítimas diretas das drogas como ficam? E os jovens humildes atraídos pelos criminosos para seu exército? E os policiais mortos em combate nesta via indireta da guerra do tráfico? Está na hora de acabar a hipocrisia!

Meu filho destruiu duas famílias, a da jovem e a dele, além de a si próprio. Queria sair do vício, mas não conseguia. Eu queria interná-lo à força e não via meios. Uma jovem, a quem ele amava, queria ajudá-lo e de anjo da guarda virou vítima.

Ele irá pagar pelo que fez, será feita justiça, isso não há dúvida. O arrependimento já o assola, desde que acordou do surto do crack deu-se conta do mal que sua loucura havia lhe levado a praticar. Ele me ligou, esperou a chegada da polícia e se entregou, não fugindo do flagrante. Não passarei a mão na cabeça dele, mas não o abandonarei. Ele cumprirá sua pena de acordo com a lei, dentro da especificidade de sua condição.

Infelizmente, só consegui interná-lo pela via torta da loucura, quando já não havia mais nada a fazer, num surto fatal.

Este é um caso de saúde pública que virou caso de polícia.

Que a família da Bárbara possa um dia perdoar nossa família por este ato imperdoável. Chorei por meu filho 6 anos atrás. Hoje minhas lágrimas vão para esta menina, que tentou por amor e amizade salvar uma alma, sem saber que lutava contra um exército que lucra com a proibição (que não minimiza o problema, pelo contrário, exacerba), por um bando de tecnocratas e suas teorias irreais, e para um Estado que, neste assunto, se mostra incompetente."

Luiz Fernando Prôa, o pai

18.10.09

Convicção



Eu acho que eu tenho certeza.

Vinis Mofados, de Ramon Mello

O quê: Lançamento do livro Vinis Mofados, de Ramon Mello

Onde: No Brecho de Salto Alto.
Rua Siqueira Campos, 143, sl. 44/2º andar
Copacabana, Rio de Janeiro, RJ

Quando: Dia 20 de outubro de 2009, terça-feira
às 19h30

Como: Com a playlist de João Paulo Cuenca

VINIS MOFADOS

resolvi organizar
a bagunça na estante:

palavras empoeiradas
fotografias letras de
música vinis mofados

e uma coleção de
romances fracassados



Nesta terça-feira Ramon Mello, meu parceiro de FL@P! e coletivo|RIOSEMDISCURSO, lança seu Vinis Mofados em Copa.

Programação obrigatória: vá!

Te espero lá.

4.9.09

9.9.9. RJ. JB

Quarta que vem, dia 09, participo do Sarau Inaugural da Oficina de Poesia. A organização e apresentação é da Christiana Nóvoa.

Conheci Christiana em 2005 ou 2006 e convidei para o evento de Andrea Paola, na Semana Cultural de Santa, em Santa Teresa. Gosto de sua poesia, suave e relevante.

No Sarau do dia 09 terei as excelentes companhias de Cabelo, Dado Amaral, Juca Filho, Justo Dávila, Paula Cajaty. Bom lembrar do Boato.

O Sarau é de graça e o microfone é aberto. Veja o convite aqui.

Sarau Inaugural da Oficina de Poesia
Organização de apresentação de Christiana Nóvoa
Dia: 09 de setembro de 2009
Hora: 21h
Lugar: espaço-café Lunático. Rua Visconde de Carandaí, nº 6 - Jardim Botânico (primeira à esquerda na Lopes Quintas)
ENTRADA FRANCA

30.7.09



Tenho um enterro hoje, soube a pouco. Meu tio-avô. Fiquei me lembrando do enterro do meu avô, irmão dele, 21 anos atrás. O mesmo céu cinza, a mesma chuvinha fina e chata.

18.7.09

Parto do porto (in)seguro
parto o porto que construo
para quê porto
se o que vale é que sempre parto?

9.7.09

trecho

A gata olhava Maria. Maria nada dizia. O silêncio era tudo que se precisava saber. Qualquer algo mais era excesso. Desnecessário.

Maria olhava a gata. Olhar vago como seu pensamento, que apenas extensão da imobilidade de seus braços, mãos, pernas.

Silêncio de água parada.

O sofá comportava Maria e a gata. Imóveis. O silêncio, movimento sem eco, era pleno. A sala era plena.

Lá fora a rua com motores e buzinas e passantes tagarelas: tolo algo mais.

27.6.09

Mau, muito mau

Nunca fui fã de Michael Jackson, não foi meu ídolo. Mas impossível não ficar no mínimo num clima de "putz...".

E vai além da questão de ter talento ou não, de ser bizarro ou não, comedor de criancinhas ou não. A questão é mais pessoal. Quem da minha idade não dançou MJ nas festas? Não achou Thriller com Vincent Price o máximo? Não pulou na pista com o gritinho de Beat It? É aquele 'putz' de pedacinho da história da gente indo embora.

Tá, tô piegas. Mas pra compensar, ele tá afiadíssimo: Peter Pan é o Caralho! Meu Nome é Charlie's Angel


Mau, muito mau... Adoro!

25.6.09

Por quê?



Por que diabos toda vez que alguém lê um texto que gosta passa pra todo mundo por e-mail atribuindo a autoria ao pobre do Arnaldo Jabor?

17.6.09

Memória olfativa

Quando passa alguém na rua e aquele cheiro põe aquela pessoa na sua frente. Aquela nada desconhecida. Aquela com quem você dormia, com quem ainda sonha às vezes.

O cheiro da fruta, impregnado nas suas mãos, te levando pra tão longe, tão longe mas com sons tão claros.

E aí você lembra das texturas. E do gosto. Gosto de ontem, gosto de outro. Gostar dessa lembrança momento presente. Ninguém passa impune por esse lugar que foi ontem.

13.6.09

Simonal e o Caramelo

Ando sensível demais. Então vou ao cinema. Mas é necessário cuidado extremo com o cinema quando se está à flor da pele. Esclarecimento feito, em frente.

Fui ver o filme do Simonal na terça. Amei. E fiquei devastada. Hoje, dando uma geral no Blowg acabei fazendo um comentário sobre o filme. Me atormentou tanto que, mesmo querendo, resolvi não escrever sobre, vou só reproduzir o que comentei por lá, copy & paste sem pudor:

Pois eu resolvi não esperar o DVD. O filme é bem feito, a abertura é linda e no começo tive que me segurar para não cantar e dançar na poltrona.

Mas o filme avança e, nessa história, ninguém é bom moço.

O Arthur da Távola resume bem o que aconteceu: um linchamento. Só que ele não foi linchado pelo que fez (e se tivesse sido, também não justificaria). Ah, foi feio...

Saí do cinema engasgada, com o rosto pegando fogo. Fazia tempo que um filme não me pegava assim. Não tenho vergonha de dizer que me acabei de chorar no banheiro feminino.

Mas Claudio Manoel e companhia, na minha humilde e inútil opinião, estão de parabéns. Não tem floreio. O filme é bem feito e não dá refresco pra ninguém - nem pro espectador.


Bom, depois do vexame na saída do Simonal, quando me chamaram ontem para ver Três Macacos fiquei receosa. Aceitei, mas no fundo torcendo para os ingressos terem acabado. E tinham!

Mas Caramelo ainda tinha disponível. "Mulheres em beirute... será?"

Resumindo: o filme é delicado, despretensioso e não fala nada que a gente já não saiba. E não deixa de ser um alívio ver que gente, no final das contas, feitas certas concessões culturais, é tudo igual. Aqui, em Beirute, Madagascar ou Kyoto. E saí do cinema em paz.

27.5.09

No corredor

Nina respira fundo, se concentra e, olhos fechados, enfia a chave na fechadura. Abre a porta num supetão de taquicardia, numa efusão de congelado-sorriso-social-semi-histérico sem esquecer – isso é por demais importante - , sem esquecer que tem que chegar de uma passada só até a lixeira, imaculada. E... ai, que susto!

Ele está lá. Descalço, cuecão e sem camisa. Que peitoral, ela pensa. Faço um estrago num desses.

Ele ri, meio constrangido, meio jogando charme. Não é amor, é esporte. Não é sexo, é esporte. Ela segura a gata numa mão, três sacolas na outra e o chaveiro no mindinho da mão esquerda. A mão que segura a gata. Só então ele percebe que está só de cueca. Ela de camisolinha. No corredor, na frente da porta do síndico.

- Quer uma ajuda?

“Quero. Me ajuda a tirar a camisola, depois me ajuda a arrancar a calcinha e aí me ajuda a entender o que é sexo selvagem.”

- Não, obrigada. Você é muito gentil.

- Tem certeza? Qualquer coisa... estou aqui – insiste ele, em franco discurso direto. Direto para os peitos dela.

Ela percebe a cueca. Ele, a camisola.

Rápido constrangimento. Mas o difícil mesmo é manter a língua dentro da boca e não propor:

- Sua casa, eu preparo o jantar, você abre o vinho. Hoje a gente brinca. Amanhã é outro dia.

“Que peitão, que bundão, que tes...”

- Olha, na verdade agradeço se você capturar a gata, que fugiu escada acima.

Ele captura a gata que fugiu escada acima. Na devolução, olhos nos olhos, qual é o seu nome mesmo?

- Pablo, sou argentino. Ninguém é perfeito – e sorri, com aquela boca perfeita.

- Então boa noite.

- Boa noite, então. Dorme bem com a gatinha.

- Dorme bem.

Fecham as portas lentamente. Ela mordendo os lábios sem perceber. Ele com a boca aberta, sem reparar. Hoje tem insônia no prédio.

23.5.09

Quem leva?

"Dos 50 primeiros finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa anunciados, em cerimônia no Consulado de Portugal no Rio, quase a metade está nas mãos de dois dos maiores grupos editoriais do País, Record (13 autores) e Companhia das Letras (12 autores. É um dado importante, considerando que a edição atual do prêmio teve 100 editoras inscritas, das quais apenas 13 chegaram a essa primeira lista de finalistas, da qual fazem parte premiados escritores como Milton Hatoum, colunista do Estado, o português Gonçalo Tavares, além de representantes da nova geração de autores - Daniel Galera e Carola Saavedra -, e um dos maiores nomes das artes plásticas no Brasil, Nuno Ramos, revelado também como autor em Ó, classificado como livro de contos."

"Os independentes finalistas são quase todos poetas. É um gênero cada vez menos presente no prêmio."

Leia completo aqui, na Verdes Trigos. Também na Verdes Trigos a lista dos 50 primeiros selecionados. Aliás, já leram o Rodrigo de Souza Leão? Muito bom.

19.5.09

Vesti Azul

"vesti azul
minha sorte então mudou
vesti azul, minha sorte então mudou..."




"me apareceu um brotinho lindo
que me convenceu, dizendo
que eu devia vestir azul,
que azul é cor do ceu e seu olhar tbm..."


Simonal entoando Nonato Buzar. Não tinha como ser melhor!

12.5.09

Desencontro

O reencontro inesperado.
Os olhares surpresos.
Ele ansioso - para que ela se vá.
Ela constrangida - por ter acreditado.
Meia dúzia de palavras vazias, estéreis; sorrisos polidos; um beijo não se sabe onde.
E se despedem.
Seria frugal, se não tão indigesto.

9.5.09

Hoje, corre que ainda dá tempo!

Hoje, a partir de 19h, no Bar Bukowski (Rua Álvaro Ramos, 270 - Botafogo / RJ), lançamento de pequenasBiografias NÃO-AUTORIZADAS, de Leonardo Marona. Editora 7 Letras. Vai lá.

3.5.09

Ele não anda, desfila.
Passos a meio metro do chão.
Flutua.

E se crê
aristocrático,
fleumático
um Dândi.

Em delírio, um nobre
- que mata por meio cobre
na verdade, tolo Dom Quixote

- só há nobreza em seus gestos nos sonhos
que habitam sua oca cabecinha

E ele pluma
pela rua, leve.
paira
nas alturas.


Decrépito
sombra de um passado
que não foi,
patético.

23.4.09

Da qui prá frente...

Daqui pra frente, tudo vai ser diferente...


Adotei esse trecho da canção de Roberto e Erasmo como meu lema para 2009. Nem que seja para descobrir que eu preferia como era antes. Inclusive os erros. Estamos em abril e, até agora, tudo certo.

Com isso, estou acordando às 6:20 e às 7:00 já estou na academia. Sim, a boêmia de alma agora acorda e malha cedo, muito cedo. Sinceramente? Estou achando esquisitíssimo. As duas da tarde me sinto como se já fosse meia noite e minha cabeça me prega uma peça bizarra: me lembro da aula como se tivesse sido na véspera.

Amores. Diferentes também. Ok, não chegam a ser amores. Peguetes. Aha, sim! Agora eu tenho... Peguetes! E tudo quase ao contrário do meu histórico sentimental. São mais novos, não são lá muito afeitos à leitura, veem Big Brother (e não sabem quem foiGeorge Orwell), gostam de raves, etc. E quer saber? Estou adorando. Não quero discutir a gestalt do objeto, não quero ir ao MAM, não quero discussões inteligentes. Aliás, não quero discussões. Ano sabático no que diz respeito a intelectualices (ui! neologismei ou errei mesmo?). Só quero que a criatura seja espontânea, que me faça rir. E que seja potente, claro. Claro também que continuo a mesma, então tem aquele peguete por quem sou quase apaixonada e aquele amor antigo que ainda me balança. Mas estou firme na decisão de experimentar. E experimentar diferente.

Trabalho. Bem, aí não dá para escolher muito. Pintou a gente pega. Mas, mesmo com contas para pagar, estou evitando aqueles que cheiram a problema.

Aliás, falando em problema e cheiros, estou evitando quem cheira a problema, quem cheira a loucura.

Estou fazendo muito faxina. Jogando fora. E não é só lixo não. Lembranças e pessoas também. Parece cruel? Não, não é não... Jogamos fora e somos jogados também. Tem gente que tem que ficar no passado e lembranças que devem sobreviver só na nossa cabeça. Nada de guardar certas cartas, objetos, presentes. Ok, ok, foto pode. Jogar fora às vezes é apenas um ato de libertação. O que na verdade é o que venho fazendo. Venho me libertando e me liberando. Estou me dando alforria. Certas situações não têm solução. Algumas pessoas não mudam. Ou não mudam em certos aspectos que são justamente os que nos incomodam. Todo mundo é assim. Eu inclusive.

Outro dia um queridíssimo (que anda sumido, será que me jogou fora?) falou: você nunca mais escreveu um poema. Não, querido, escrevi sim. Só não mostrei para você. E não publiquei no blog. Por quê? Porque estou em momento de maturação. Dos poemas, das escolhas.

Porque não basta ser diferente. Tem que ser pra valer.

Daqui prá frente
Tudo vai ser diferente
Você tem que aprender
A ser gente
Seu orgulho não vale
Nada! Nada!...


7.4.09

Tomara que chova
uma chuva bem fininha
prá molhar a sua cama
e voçê dormir na minha
*

quando passa de meia noite ele sai pra jogar o lixo de cuequinha.
adoro quando ele sai pra jogar o lixo.



*Chuva Fininha, de Roberto e Meirinho

25.3.09

politrauma

no politrauma do miguel couto todas aquelas personasgrafitadas e suas algemas fechadas em cadeiras e camas e macas, e aí irmão, dançô também. chão de sangue. segue o rastro, raspão na cabeça. projétil protegido aninhado na cartilagem de um joelho que não vê um dedão - munição arrancou.

sala de ressucitação:lotação esgotada

Raio-x: lotação esgotada

Lotação: incendiada.

no politrauma do miguel couto ninguém entra ninguém sai, fora todo mundo que é visitante, é para sua própria segurança. aí babaca, larga mão da pulseira, fica quieto senão você pode cair, bater com a cabeça e morrer.

aí tia, dá uma água pra mim, na boa, na paz.

tiros, o táxi sai voado, é fechado pelosomi. O puliça da portaria vem carregado. braço estilhaçado, hospital desprotegido. hospital bala perdida. a tia entubada não viu nada.

no politrauma do miguel couto não tem parada. dia animado, clima saudável e ótimas companhias.

17.3.09

Espingardinha

Lembrando da própria infância, comprou pro aniversariante de cinco anos a espingardinha que nunca teve. Ficou tão entusiasmado que ele mesmo abriu o presente, mostrou todos os detalhes, pôs no ombro e começou a marchar de um lado para o outro. Um, dois, um, dois. O aniversariante, olhinhos de tédio, suspira:
- Boboca.

16.3.09

Sesta

Nunca mais encontrei miolo no mercado ou na feira. Miolo frito, à milanesa... no Cervantes ainda tem. Onde se compra miolo hoje nessa cidade?

O único miolo que ainda encontro, mais que frito, passado do ponto, é o meu. Não sai nada dessa cabecinha. Devíamos adotar a sesta até que os dias se tornem mais amenos. Não há como pensar assim. Pensar, escrever, comer, andar, amar, odiar, respirar. Impossível. O ar quente entrando pelas narinas, pulmão al dente no vapor.

Que caia a chuva! Enquanto isso, devíamos adotar a sesta. Das 8h da manhã às 6h da tarde. Embaixo do ventilador. No ar condicionado. No chão de lajota do banheiro. No piso de mármore do corredor. Aboli aquecedor e toalhas. Agora só gelo e varanda. Janelas escancaradas. Vamos adotar a sesta. Abram as redes, os tecidos precisam respirar.

13.2.09

Encefalocardia

Estou preparando o meu primeiro livro individual, e vai aqui uma amostra. O objetivo é mesmo saber como impacta para vocês - não que isso vá necessariamente gerar alguma alteração no projeto. Quem já me conhece, sabe que a mão é delicada, mas firme. Diz o Ramon que a minha poesia é psicossomática. Tenho pensado a respeito. Opinem. E bom fim de semana!

Ah, se encontrarem links quebrados no menu à esquerda é porque estou dando uma geral no blog, jogando fora algumas coisas que já não me dizem nada e que acho que se perderam no tempo. E mudando de lugar outras que ganharam nova posição nessa minha cabeça psicotrópica. Fiquem a vontade.

Encefalocardia
por Priscila Andrade


|equilibrismo|

A Equilibrista

A equilibrista acordou as duas e vinte e duas da manhã
Coração aceleradoaceleradoacelerado
E falta de ar
Não conseguia dormir de novo
Insônia (insônia?)

O Fauno dionisíaco desarrumou seu armário
Tirou do lugar cada um de seus pertences mais vitais
E jogou a lanterna fora

Não havia tempo para rearrumar ou mesmo procurar.
O espetáculo recomeçava
O nome do jogo agora era Risco
Insônia (ansiedade?)

A equilibrista se olhou no espelho
“Bacante...” dizia por suas costas a entourage do circo
“Bacante, libertina.”
Seus olhos falavam a tristeza e o canto da boca
Um quase sorriso sarcástico
E certo deleite

O espelho mostrava as sobrancelhas franzidas
A boca contrariada
O olhar espumante
A moça não gostava de perder o controle

Olhou o armário.
Vara, rede de segurança, cabo espesso de aço:
Nada.

No trailer ao lado
Dormia tranqüilo o Fauno

Olhou a cama
Insônia?
Ansiedade?
Entendeu o que já sabia: desejo.
Desejo no trailer ao lado.

Para satisfazer seu desejo (desejo?)
A equilibrista terá que andar no fio da navalha
Se equilibrar com uma enorme serpente branca
E encarar os holofotes sem rede de segurança.
Será que ela vai? Ela sabe a resposta.


A Equilibrista, Movimentos Arriscados

— Pé ante pé, avanço na corda bamba
A corda é o fio de uma navalha
E a vara que deveria me dar equilíbrio
Uma enorme serpente branca.

Não há rede de segurança
Os holofotes me impedem de ver a platéia:
Apenas ouço seu mastigar aflito de pipoca e algodão-doce
Assim como seus corações torcedores

Torcem, em seu íntimo mais profundo
Para que eu caia
Que a serpente me envolva
Quebre meus ossos e me devore
Que o fio da navalha chova meu sangue

Aguardam ansiosamente minha queda no abismo
- não haverá baque no final
Assim como não existe o final da corda
Apenas escuridão e seu balançar

Mas sigo em frente
Firme e compenetrada
Sentindo o gelo do aço sob meus pés.

A serpente me alisa, me provoca e me bolina
Ao mesmo tempo me enforca e me desequilibra,
Enquanto enfia seu corpo escorregadio entre minhas pernas.

Os holofotes operam no auge de sua luminância.
Minhas pupilas já não são visíveis.

Não me pergunto onde isso vai dar.
Apenas sigo em frente
Firme e compenetrada
Sentindo o gelo do aço sob meus pés.


|Paraeles|

Paraeles

Paraty, não para mim
Para eles, não para nós

Paraty, com sua poesia construída
Me expulsa
Me agride
Esse lugar não me pertence

Devolvo os desaforos
Deixando em cada pedra
Ou fragmento de terra do centro histórico
Um pouco de mim

Fios de cabelo
Pedaços de unhas ruídas
Cutículas arrancadas a dentadas
Fazendo gotejar o sangue

E o sangue se mistura a terra
Estou vingada
Paraty e eu agora somos uma só

Deixo ali minha marca
Meu DNA
Meu sangue literal

Faço o mesmo na cidade dos locais
Na Paraty de verdade
Que não atrai festivas, jornalistas ou turistas
A Paraty pária, vergonha
Subúrbio abortado do Rio

Mas a cidade entende e entra no jogo
E começa a me devorar

Consome meu sono
Rouba-me o calor do corpo
Devora minhas energias

Deixa apenas
Propositalmente
Uma certa melancolia

A cidade me expulsa

Guardo de lá apenas
Beijos roubados
Olhares furtados
Batimentos acelerados
E uma certa falta de ar

Pequenas transgressões
Públicas, íntimas e secretas

Apenas nós, transgressores
E a cidade sórdida, cretina
Apenas nós sabemos

Mas a cidade não pode falar


|natureza|

Fênix

Observo a poeira em suspensão
No feixe de luz que atravessa o quarto.
Assim como eu, mormaço.

Suor escorrendo: tátil.
Feixe de luz: intangível.

Observo a poeira em suspensão
No feixe de luz que atravessa o quarto.
Assumo-o, tomo as rédeas de mim
E me encaro.
Escancaro a janela:
Luzes solares de março.

O cheiro de dama-da-noite no quarto.
De Tangerina, as mãos.
Dos seus cabelos, narinas.

A vida recomeça.


Casulo

Mudo de pele a cada manhã
abandono a alma pelo caminho toda a tarde
e renasço ao fim do dia

Os ânimos dançam uma ciranda louca
tribal e selvagem
E eu apenas sinto
como um reflexo tardio
os seus cabelos nas minhas mãos

E me deixo levar pelo vento
como folha seca em prenúncio de tempestade
Retomo a alma no caminho de casa
Sempre acho que ainda não é tarde.


Da Lua

Me agarro a causas perdidas
Me entrego a amores impossíveis
Busco a bala perdida
Quando só quero vida.

Confusão suicida
Conclusões espermicidas
Relações parricidas
Amizades Fratricidas

E cada passo leva ao abismo
distante com cheiro de absinto
E eu, que nem gosto de absinto?

Sinto muito por toda essa confusão mental
Essa incapacidade de avaliação
Essa leitura equivocada de tudo e de todos.

Meu código de barras se apagou.
Nele não estava o meu preço
Seria fácil demais
Nele estavam minhas coordenadas.

Hoje, observo os ratos que saem dos bueiros
As baratas que avançam na direção de meus pés quase descalços
Sempre cansados
Desvio do mendigo louco, totalmente roto
E me pergunto, quem é o quem aqui?

Os livros na estante esfregam na minha cara:
Conhecimento e leitura só trazem sofrimento.
Não leia! Vá à praia, curta as Paineiras, beije na boca
Caia na noite, viva a balada.

Ansiolíticos, hipnóticos, álcool, ervas.
Consuma sua mente.
Torne-se um computador,
Uma TV
Um rádio: um terminal burro, que apenas defeca informações.
Sem troca, sem interações.

Vamos alimentar os bueiros com ratos e baratas.
Vamos jogar o lixo mal fechado. A indigência precisa comer.
Precisa catar a comida no lixo: é a dignidade que lhe resta.
Caçadores de seus próprios alimentos.

E eu ouço Thelonious. Why Monk?
E eu ouço Tom Waits. Why Waits?
Wait for me, my misery.

Preciso de sapatos novos
Colo, cafuné e uma boa foda.
Preciso de menininhos deslumbrados
Que não perguntem nada.

Apenas me sirvam, me sirvam, me sirvam.
Meus servos
Meus escravos
Com seus cravos, espinhas e ar adolescente.

O vôo de Ícaro.
A poeta se esfacelou no asfalto.
O letrista poetizou, sinalizando a opção por virar estrela.
Diz que optando por dançar, viramos constelação.

Constelações são estrelas.
Estrelas são astros que tiveram luz própria
mortos há séculos e séculos atrás.
Luz falsa, ouro de tolo.

E os cavalos passam por cima de nós
A poeira levanta
E saímos ilesos.

Somos ilusões.
Cerveja, cachaça, Red Label.
Trepada, Ressaca, Luz ofuscante na calçada.

Vamos, meu anjo,
Fazer amor até amanhecer.
Vamos, meu sacana
Foder pela noite, morrer.
Vamos, meu nego
Trepar e adormecer.

O sol não brilha para mim.
O astro rei me diz
E eu já sei
Sou posse da lua.

Por isso ando nua,
crua como carne
Apodrecendo ao luar.
Sempre sua.


Orquídea

Minha pele se rasga da nuca ao cóccix
Dando liberdade a uma gigantesca lâmina
De cartilagem e penugem.

Meu peito se rasga
E dele saem em vôo tumultuado
Um enxame de vespas
Que zunem, zunem, zunem

Minhas veias ultrapassam o limite
Das pernas e se tornam raízes grossas
E firmes, que me prendem ao solo.

Nesse momento, meu tronco se solta
E alço vôo, com meus braços que já viraram asas.

Do alto observo o bailar das nuvens
E o gorjeio dos automóveis

As penas das asas se soltam
Uma a uma
Transformando-se em pétalas de orquídea
Que caem docemente pelo chão.


Outono

Acarinho as cabeças de minha cria natimorta
e ouço seus chorinhos miúdos.
Sinto o leite talhado escorrendo
de meus seios inchados e doloridos.

O rio logo se forma,
com seu chão lodoso
e pequenos redemoinhos
que tentam me sugar.

Meus pequenos natimortos
sugam meu leite talhado.

Pelo rio, boiando, passam
folhas secas, frutos maduros
que o vento derrubou
e algumas flores.

O sol se põe.
Nino a cria.
Adormeço também.


|corpo|

Autofagia

Deviam me amarrar
com as minhas tripas
Em um tronco feito
com meus ossos
Me alimentar apenas
com minhas carnes
Matar minha sede
com meu sangue

Assim,
e somente assim
Me realimentaria
de mim mesma
E voltaria
a me reconhecer
no espelho


Lago Amarelo

Abscesso profundo
Lago espelho amarelo
Onde mergulho
E te espero

Meus tecidos
Esgarçados pelos apóstemas
Transformam meu corpo em vestidos
A cada edema nascido

Boneca de trapo
Vestidos de retalhos
Danço no espelho amarelo
Onde mais uma vez te espero


Arcabouço

Vertebroso e acéfalo
Meu corpo decomposto se arrasta
Se esgueira por vielas
Só para provar meu amor por você

Vértebra a vértebra
Vão todas ficando pelo chão
Caminho de Joãozinho e Maria
Formado não por doces ou pães
Mas por meus restos mortais

Meu amor não
Meu amor por você se mantém
Calcificado, indelével
Aqui neste arcabouço
Onde pretendo te reter


Ponto Morto

Pisar nas feridas
Arrancar as peles soltas
Morder a língua
Arrancar as gazes envoltas

Lamber as feridas
Arrancar os olhos
Chupar o sangue
Regurgitar a bílis

Não toco piano
Toco tendões
Comer a própria carne
É minha única tentação


O Novo

Sístole, assístole
Tum-tum
Tum-tum
Coraçãotaquicardia

Mas isso,
Isso foi ontem...

Hoje, quando te vê
Ele já nem bate

Apenas um leve pulsar delicado,
Doce, tranqüilo e discreto.
Por outro.


Encefalocardia

Vermes em movimentos orgiásticos
Latejam em meu crânio
Substituindo a taquicardia
Encefalocardia
Ecefalolatente
Lateja, latejam
As têmporas expõem o
Movimento interno

O coração, essa bomba hidráulica
Tolamente romantizada
Necrosou

O céu da minha boca nublado
E os olhos de sal
E as intempéries saudosas
Que eu apenas calei.

Calei os braços, as pernas e os cotovelos
De lã era o novelo em que me protegi
No meu silêncio.

Ssssssssssssss

S.i.l.ê.n.c.i.o.


Digestão

Elaboração dos alimentos nas vias digestivas para depois ser deles assimilada a parte útil e expelidos os resíduos.

Útil: que ou quem tem ou pode ter algum uso. Proveitoso.

Expelido, expelir: lançar fora com violência, expulsar, ejetar. Expectorar. Lançar de si. Proferir com ímpeto.

Resíduos: resto. Fezes, borra, sedimento.

Neste momento estou digerindo você.

10.2.09



De quantos silêncios é feita uma solidão?

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Mula

A pele era tão branca quanto o pó que embalava.
Agora azulava. A pele.
Translúcido. Escamas brancas translúcidas de pó,
recheando a inanimada boneca de
cera, carne, sangue e ossos.
Quebrada boneca.
Sobre a mesa de mármore inerte
à espera da autópsia - chegara antes o resultado.
Recheio de boneca. Boneca morta, porque boneca não fala.
Bela embalagem.
Pó, bala e êxtase que não foram para as raves.
Que desperdício...
Bela embalagem que não foi para as raves.
Que desperdício...
Boneca quebrada, embalagem autopsiada, quer na morgue
sua última balada?

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Respondendo ao Feitura do Sartorelli:

Remeto a Vinícios
porque hoje não é mais domingo
não há mais reinícios

porque hoje é sabado
findar com a semana
já é mais do que um hábito

31.1.09

Mocréia ou Mocreia

Porque estou neste lugar chamado Silêncio. E não há tempo, prazo ou espaço. O além é Solidão. Tudo é solidão. Absoluta, brega e cafona.

Então decreto:
Silêncio!

Não sou Adalgisa, com sua prosa Nery Perfeita, poética ótica impactante!
Não sou profeta. Não tenho histórias memoráveis, momentos históricos ou arroubos heróicos.

Sou apenas uma escriba - nem paga! - em tempos de desacordos ortográficos. Alguém ganha! Editoras? Governos? Material, muito material a ser revisado. Principalmente o escolar. Minha parte quero em dinheiro!

- De acordo com o novo acordo ortográfico - disse o mané do boteco - 'mocréia' agora não tem mais acento.

A moça, que de mocréia não tinha nada (com ou sem?) respondeu:
- Idéia também não.
E tiveram as mocinhas a idéia de ir embora.

Sexta à noite, num boteco de franquia... querida: o que se podia esperar do rapaz?

16.1.09

Atualize-se

O blog da FL@P! agora terá atualização constante e o boletim será quinzenal. E as atualizações já começaram:

"Samba do Acordo Ortográfico - por Vinícius Baião
Como sabemos, o novo acordo ortográfico da língua portuguesa entrou em vigor em 1º de janeiro de 2009, gerando muitas dúvidas, polêmicas… e (...)"
.
Leia o post completo aqui.

"Plástico Bolha Online - todas as edições a um clique - por Leandro Jardim
O Plástico Bolha já está com seu site no ar, e funcionando a todo o vapor. O jornal impresso de poesia e literatura que do Pilotis da PUC-Rio foi ganhando as ruas, bares e cafés cariocas - e (...)"
.
Leia o post completo aqui.

"Boca do Baco - por Diana de Hollanda
A partir do dia 17 de janeiro, os sábados na Livraria Odeon estarão cheios de novidades.
Trata-se do evento Boca de Baco, que reunirá literatura, oficinas, lançamentos e (...)."

Leia o post completo aqui.

14.12.08

coletivo | RIOSEMDISCURSO

Para quem ainda não sabe, sou uma das organizadoras da FL@P! RJ e do coletivo | RIOSEMDISCURSO, que, entre outras coisas, organiza o evento. Então hoje é dia de apresentar o coletivo:

riosemdiscurso – o título do poema de João Cabral de Melo Neto traduz com precisão a filosofia do coletivo: garantir a pluralidade de vozes.

Promover o diálogo entre leitores e escritores contemporâneos foi o ponto de partida para a reunião do grupo em 2006, resultando na idealização do evento carioca que o grupo organiza, a FL@P! - Festa Literária Aberta ao Público. O coletivo | riosemdiscurso é Diana de Hollanda, Leandro Jardim, Priscila Andrade, Ramon Mello e Vinicius Baião.

Diana de Hollanda – Diana de Hollanda é escritora e diretora teatral, formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Autora das peças, “, encher-se, esvaziar-se, encher-se,” (2007) e “Sísifo” (2008) e do livro “dois que não o amor” (Ed. 7 Letras - 2007), participou como convidada de diversos festivais literários, tais como FLAP-SP, Tordesilhas (SP), Congresso Brasileiro de Poesia (RS), e Psiu Poético (MG), tendo sido homenageada, ao lado de Leila Mícollis e Alice Ruiz, neste último. Seu trabalho pode ainda ser conferido nas coletâneas “Contos do Rio” (Ed. Bom Texto/Prosa & Verso – 2005), “Contos sobre Tela” (Ed. Pinakotheke – 2005), e em revistas impressas e virtuais, como Poesia Sempre (Ed. Biblioteca Nacional), Inimigo Rumor (Cosac & Naify), Blocos e Bestiário. Hoje trabalha como freelancer na área de editoração, enquanto escreve o segundo livro, ainda sem título e gênero definidos. Para visitá-la, acesse: www.aindahamusica.wordpress.com

Leandro Jardim: poeta, letrista, compositor e comunicador graduado nas habilitações de Publicidade e Jornalismo pela PUC-Rio, com MBA em Engenharia de Produção pela Trilha/Instituto Nacional de Tecnologia. Leandro Jardim é um dos coordenadores da Flap! desde o ano passado. Acaba de lançar pela editora 7Letras seu primeiro livro oficial, Todas as vozes cantam. Em 2006, criou a coleção independente Poesia Presente de “mini-poemas-cartões-de-presente” por onde lançou seus minilivros Gotas e Pétalas e editou, no ano posterior, o Lusco-fusca da autora Nathalie Lourenço. Colaborador em diversos blogs Leandro Jardim centraliza sua criação no www.florespragasesementes.blogspot.com que apresenta links para seus diversos trabalhos.

Priscila Andrade: escritora e produtora de eventos Priscila Andrade é graduada em marketing pelo Centro Universitário da Cidade. Principais eventos: Fórum Social Mundial – Rio com Vida, 20087/2008: produtora; Flap! edições cariocas de 2006/07/08: coordenação, produção e mediação de algumas mesas; Festival Segundas Poéticas, 2005: criação e coordenação.

Manteve por seis meses uma coluna de poesia no site Armazém Literário, tem poemas publicados em vários jornais, revistas e sites reconhecidos de literatura, com o Cronópios (www.cronopios.com.br) e se apresenta regularmente em diversos eventos na cidade, como o Festival Nacional de Poesia, o Poesia Voa, no Circo Voador. Mantém desde 2003 o Dedo de Moça. Foi redatora da revista Mad (2006) e está com um livro de poesia no prelo, Encefalocardia.

Ramon Mello - Jornalista, escritor e ator. Formado em Comunicação Social (Jornalismo) pela UniverCidade (Ipanema/RJ) e em Artes Cênicas pela Escola Estadual de Teatro Martins Pena. Possui experiência em jornalismo cultural através da editoria de sites e blogs, pesquisa para TV, redação de conteúdos, produção e em escritório de assessoria de imprensa. É repórter do Portal Literal e mantém o Blog Sorriso do Gato de Alice (desde 2004) e BLOG CLICK(IN)VERSOS (desde 2006) – especializado em entrevistas com jovens escritores. Autor do livro Tumorgrafias (Editora Cartaz/2006). Atualmente, finaliza o romance All Star bom é All Star sujo e o livro de poesias Vinis Mofados.

Vinicius Baião - Ator, poeta e produtor cultural. Formado em Letras (Português/Italiano/Respectivas Literaturas) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Artes Cênicas pelo Studio Escola de Atores. Pós-graduado em Especialização em produção cultural com ênfase em literatura infanto-juvenil pela CEFET-Química. Integra os grupos Coletivo Subverso e Embaixada poética. Publicou o livro Usucapião, editora Multifoco, e participa das antologias Ponte de Versos, Editora Ibis Libris, e Coletivo Vacamarela. É fundador e membro da Trupe do Experimento e diretor da Cenáculo Cia. Teatral. É professor de Língua Portuguesa das redes pública e particular de ensino.

Rios Sem Discurso, de João Cabral de Melo Neto
A Gabino Alejandro Carriedo

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que se fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele escorria.

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

7.12.08

Poesia e vinho em Laranjeiras. A Estréia? Foi ótima.

Veja a programação completa de dezembro aqui.
Poesia e Vinho em Laranjeiras estreou ontem com Mano Melo na Symposium. E foi ótimo: casa cheia, platéia animada e completamente apaixonada pelo Mano, que trouxe como convidadas as atrizes Cristina Bethencourt e Marta Paret. O poeta Tanussi Cardoso, que estava na platéia, deu uma canja maravilhosa. Intimida pelo Mano, poetei também.

Algumas fotos:


Mano Melo e Marta Paret


O poeta Tanussi Cardoso, presidente do sindicato dos escritores do Rio de Janeiro, dando uma canja.






José Hodara, Cristina Bethencourt, Tanussi Cardoso, Priscila Andrade, Mano Melo e Marta Paret

Fragmentos da FL@P! 2008 - INTERFERÊNCIAS

Sou uma das organizadoras da FLAP!, evento literário anual que acontece aqui no Rio. A FLAP! aqui é uma produção do coletivo|RIOSEMDISCURSO, do qual participo com Diana de Hollanda, Leandro Jardim, Ramon Mello e Vinícius Baião.

Para quem perdeu a última edição, um mini-micro-resuminho feito da platéia:

29.11.08

Novidades! HOJE: Poesia e Vinho em Laranjeiras: Mano Melo


A partir de dezembro começo a organizar noites de poesia na Symposium Vinhos, em Laranjeiras. A estréia é com Mano Melo, hoje, dia 6.

Ana Carolina adaptou e musicou seu poema Madonna. Sucesso imediato, que foi para no seu mais recente CD e DVD, Dois Quartos. Mas para quem já freqüenta os eventos de poesia da cidade, Mano Melo já é sucesso há muito tempo.

Mano a Mano com Mano Melo é um show de bolso onde Mano Melo intercala poemas, seus e de outros autores, clássicos e contemporâneos, com histórias engraçadas e fatos interessantes vividos durante sua trajetória poética.
A poesia como espetáculo e como diversão através de um universo que engloba ícones reais e imaginários. Sem parafernálias cênicas, o que ressalta é a verdade das palavras e a emoção do poeta e ator em contato direto, olho no olho, com seu público. Estruturado como uma Stand Up Poetry, no gênero das Stand Up Comedies americanas, depois de 3 meses em cartaz o espetáculo chega agora ao Symposium Vinhos para uma apresentação única .

Mano a Mano com Mano Melo
Poeta: Mano Melo
couvert artístico: R$15,00
Consumação mínima: NÃO TEM
Dia 06/12/2008, sábado
Local: Symposium Vinhos, Rua Ipiranga, 65 - Laranjeiras
Telefone: (21) 2205-3122
Coordenação: Priscila Andrade

15.11.08

Antologia Ponte de Versos - 8 anos



Amigos, convido para o lançamento da antologia de oito anos da Ponte de Versos, dia 30 de novembro, às 17h, no Museu da República - Rio de Janeiro.

Faço parte da antologia, assim como outros poetas dos quais gosto muito como Olga Savary e Afonso Henriques Neto.

Espero vocês lá.

2.11.08

Portal Literal

Capitaneado por Heloísa Buarque de Hollanda, o Portal Literal passou por uma reformulação radical e se tornou de fato um interlocutor literário, um site em que bons autores contemporâneos são encontrados e em que você pode expor seu trabalho, trocar uma ideia. Fantástico.

Depois vou falar com mais calma sobre o projeto. Por enquanto sugiro aos leitores vorazes que visitem já. E aos que escrevem, que façam seus perfis, postem seus textos e leiam a gente nova que pinta por lá.

Eu já fiz o meu!

E já estão por lá Alariás (prosa leve, quase infantil), Lava-lamp (prosa de mão mais pesada, como gosto) e os poemas Outono e A Equilibrista.

Sugiro ainda os perfil do Leandro Jardim e do Ramon Mello, meus companheiros de FLAP!

Na busca por textos nos bancos, uma das formas de listar os textos é por votação (listar por ordem cronológica, alfabética ou por popularidade também é possível). Então, quando lerem algo que bata, votem.

Participem: façam seus perfis, postem seus textos, dialoguem.

E avente, que a segunda-feira chegou!

11.10.08

"As histórias têm que ser contadas"


Na FLAP! carioca deste ano todas as mesas, apesar dos temas bem definidos, acabaram mudando seu rumo e partindo para a discussão sobre internet, blogs e "autores virtuais", "literatura de internet".


Apesar da mudança de rumo, achei ótimo isso ter acontecido. Mas o que foi dito... bom, vamos lá. É impressionante ver gente que trabalha com comunicação, gente que está na sala de aula e, principalmente, gente que tem site e blog fazendo um discurso tão equivocado sobre internet e blogs.


"onde elas serão contadas e como varia"


Não vou agora escrever e escrever sobre isso, esmiuçar aqui o assunto. Mas vale dizer: é apenas um veículo. Que nunca se propôs a ser uma plataforma para o lançamento de novos autores ou para um (re)descoberta da literatura. Não cobrem isso dos blogs. É apenas uma ferramenta mais acessível que outras. "Quem tem um blog é escritor?" Pode ser. Pode ser que não. Quem publica um livro é escritor? Nem sempre, nem sempre. Muita calma nessa hora. Hoje a maioria das editoras cobra dos autores. E muitas não selecionam o material, apenas recebem o cheque. Então, para mim, o livro publicado não torna a criatura um escritor. Na internet tem uma infinidade de abobrinhas, diários e textos pavorosos? Tem. Assim como nas livrarias e nas bancas de jornal. Que discussão estéril. O assunto dá mesmo pano pra manga. Mas o fato é que certo está o Marcelino Freire em sua fala da platéia: "idiota tem em qualquer lugar". Daí a culpar o veículo...


"mas o maravilhoso é que elas sejam contadas"


A Fal Azevedo lançou agora, pela Rocco, o Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite. Maravilhoso. E sim, manteve o blog - amém!


Em entrevista para o Amálgama ela diz:


"Eu tenho dois caminhos na escrita. O primeiro se deu antes de eu ter blog, antes de eu sequer saber que os blogs existiam. Eu escrevi meu primeiro livro em 1998, e já nesse tempo eu usava essa linguagem fragmentada, escrevia textos curtos, fazia esses continhos de poucas linhas. Eu caí na internet em 1997, mas não soube dos blogs até, uia, 2002. E daí eu me achei. Era isso que eu nem sabia que queria. E aí meu segundo caminho começou. Eu me adaptei tão bem nesse meio, porque eu já escrevia assim. Eu só fui me ajeitando, ficando mais espertinha, aprendendo os macetes. Tenho o maior orgulho de ser cria da internet, de ser blogueira, de fazer disso um caminho. Nosso meio é a internet, são os blogs. Outras gerações tinham como ninho o folhetim, os saraus, as redações de jornal, as agências publicitárias. As histórias têm que ser contadas, onde elas serão contadas e como varia, mas o maravilhoso é que elas sejam contadas. Nós contamos, também, nos nossos blogs. Eu acho isso o máximo."


Está certa ela.


Aliás, comprem já o livro. É maravilhoso.

26.9.08

Ela amanhece todos os dias,
olhos nublados. Calça os chinelos,
escova os dentes, cai no batente.

O batente da porta que não abre, está torta, curvada, emperrou.
Emperrou todo o trânsito a carreta que virou na curva da rua da escola,
que fica do lado da creche, que fica em frente ao mercado,
que não fica perto do açougue. Que custa os olhos da cara.

Cara feia medo não me dá,
deu-tá-dado, se lambuza
quem nunca comeu melado.

Pára! Pára o ditado,
o lugar comum, o clichê.
Mas ela não quer ser o singular,
o original, o exclusivo.

Ela só quer se adequar.
Ser classe média como todo mundo.

E casar. E comprar uma casa.
E ter dois filhos e um cachorrinho,
um papagaio e um periquito.

E passar no concurso público.
E virar mega loura-Hebe
pra carregar os netos no colo.

Mas por enquanto ela só amanhece, nublada.
Ressaca. Ressaca e Engov não combinam
com louro-Hebe, netos e Anais Anais.

Então ela calça o tamanco,
amarra o top, vai pro boteco.
O Hoje é Rabo de galo,
ovo amarelo e algum desencanto.

28.8.08

Fal Azevedo

(...) Os dias são atravessados, as contas são pagas (mais ou menos), o cão faz seu xixizinho, a janela abre e fecha e ovos são fritos, mas não de verdade. Não de verdade. Não cabe também nenhum clichê, nada do tipo "é um ciclo que se encerra", céus, nós adoramos cliclos, especialmente quando eles se encerram, mas não, não é um ciclo e ah, não se encerra, é vida real, mais real impossível, mais real impossível, cheia de explosões impensadas e de racionalismos, cheia de cores, de notícias espantosas, de medo, de corpos desmembrados, de sonhos que nunca existiram, de gatinhos envenenados, de amigos que vão para o Uruguay, de pores do sol, de conversas idiotas, de cãezinhos que andam de carro com a carinha para fora da janela, de rituais estraçalhados.(...)


Vai lá e lê inteiro. E não é literatura. É realidade pura.

Mas tem literatura também:

11.8.08

FLAP! Rio 2008 - Interferências




Em sua terceira edição carioca, a FLAP! assume o tema INTERFERÊNCIAS.

Em dois dias - 20 e 21 de setembro - a PUC será o palco de 4 debates, 2 saraus e a exibição de dois curtas.
Abaixo segue parte da programação - apenas os nomes que já confirmaram. A medida em que as confirmações forem chegando, vamos avisando.

Mais informações sobre o evento e seus participantes podem ser vistas no blog (http://flaprj.wordpress.com).

Comunidade no Orkut: http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=49632280
dia 20 de setembro

14h30 - Geração Espontânea

Geração Mimeógrafo, 00, 80, 90... Uma estratégia de venda ou um retrato, um instantâneo de um momento literário? Quem define, o que difere? Para situar ou para estigmatizar? São válidos esses rótulos?
Mediadora: Heloísa Buarque de Hollanda (editora da Aeroplano e professora da UFRJ)
Flávio Izhaki (poeta)
Viviane Mosé (poeta)

16h20 – Sarau Movimento InVerso - Clauky Saba

16h50 – Empório de palavras
Sebos, livrarias de bairro, virtuais, grandes redes. Produções artesanais vendidas em portas de teatro, e-books disponíveis em sites e blogs. Busdoors propagandeando – e vendendo! - o mais novo título de auto-ajuda. Quem é o leitor de literatura brasileira? Qual o caminho para os novos autores? Poesia não vai para as vitrines porque não vende ou não vende porque não vai para as vitrines?
Mediador: Tanussi Cardoso (poeta e editor de poesia)
André Garcia (site Estante Virtual)
Eucanaã Ferraz (poeta)
Claufe Rodrigues (poeta e jornalista)
Vitor Paes (poeta e editor da Confraria do Vento)


18h40 - Exibição do curta 'PROCURANDO MAUTNER', de Rodrigo Bittencourt
19h – Encerramento


dia 21 de setembro


14h30 - Palavras nos meios. Tecnologia e Miscigenação.
Vídeos, CD'S, blogs, sites colaborativos, compartilhamento na web.
O diálogo da literatura entre mídias é uma evidente característica da produção contemporânea. Mas até que ponto os diferentes suportes interferem diretamente na escrita? De que maneira essa interação se torna positiva ou valoriza o texto que não se sustenta? Como está escrevendo a geração de escritores que utiliza a internet como principal ferramenta de publicação?
Mediador: Ramon Mello (escritor e jornalista)
Rodrigo Bittencourt (poeta, compositor e cineasta)



16h20 – Sarau Castelinho do Flamengo - João Pedro Roriz


16h50 - Vanguarda
Artistas de vanguarda protagonizaram movimentos marcantes como a Semana de Arte Moderna de 22 e a Poesia Concreta, rompendo com alguns padrões e características estéticas de sua época e re-significando outros. Mas, em 2008, o que é possível encontrar de novo? Ainda existe a possibilidade de vanguarda na literatura atual?
Mediador: Leandro Jardim (poeta e letrista)
Dado Amaral (poeta, ator e cineasta)

Paulo Henriques Britto (poeta, contista, tradutor e professor da PUC-Rio)
Paulo Henriques Britto (poeta, tradutor, professor da PUC-Rio)



18h40 – Exibição do curta 'POR ACASO GULLAR', de Rodrigo Bittencourt



19h – Encerramento



Flap!Rio
Coordenação:
Leandro Jardim, Priscila Andrade, Thiago Ponce
Colaboradores: Diana de Hollanda, Clauky Saba, João Pedro Roriz, Ramon Mello, Vinícius Baião
Site Parceiro: Alma de Poeta

22.7.08

FLAP! Rio. Informe-se e receba o boletim

A edição carioca da Flap! de 2008 acontecerá nos dias 20 e 21 de setembro, na PUC.

No blog do evento (http://flaprj.wordpress.com) você encontra informações sobre esta edição e as anteriores, sobre os participantes e sobre as edições de Sampa.

Através desta lista em que pode se inscrever abaixo, você recebe informações pontuais sobre esta edição.

Inscreva-se e seja bem vindo!

Acesse a página http://groups.google.com.br/group/boletim-da-flap/about?hl=pt-BR e inscreva-se no grupo para receber o boletim.

Flap!Rio
Coordenação: Priscila Andrade, Leandro Jardim, Thiago Ponce
Colaboradores: Diana de Hollanda, Clauky Saba, Ramon Mello, Vinícius Baião

15.6.08

Carpinejar

Meus irmãos colecionavam selos, moedas,
borboletas e revistas.
Eu, silêncios.

A brisa se mistura ao cheiro das lembranças.
É como se eu estivesse regressando.

Posso brincar lá fora?

O pampa é meu pátio.
Como dói a porta fechada por dentro.
Não ter para onde ir é uma forma de sempre chegar.


Biografia de uma árvore

29.5.08

O gambá

Morar em Laranjeiras não é só a tortura de não ter ônibus depois das nove da noite ou a vida social inexistente - nem vem que pra mim restaurantes e bares que fecham no máximo meia-noite não constituem vida noturna!

Se você mora nos apartamentos de fundos de ruas sem saída você é um privilegiado que vê, dia sim, dia também, gambás, micos e passarinhos entrando desavisados sala a dentro. Ou cozinha. Eu adoro. Esses dias recebemos a visita de um filhote de gambá na casa de minha mãe. O computador ficou interditado, já que ninguém tinha coragem de chegar perto. O bichinho se instalou do lado da caixa de som. O cachorro ficou louco, ofendidíssimo com aquela invasão.

Do jeito que entrou, saiu: ninguém viu. Não, do jeito que entrou não, porque saiu deixando de presente um belo cocô na janela. Tá, concordo, o cocô foi um abuso. Mas com tanta merda que a gente encara todo dia, um cocôzinho de gambá não faz mal a ninguém.

27.4.08

07 de maio: Adriana Monteiro de Barros

Mais um lançamento que vale ir. Comprar o livro então é questão de bom senso.




TUBO DE ENSAIO

Às vezes me sinto uma estrangeira
como se minha arma não fosse a palavra.
É que trago em mim uma poção mais letal
que qualquer tapa na cara.
Meu sangue é vermelho
de um vermelho perverso e maldito
e meu surto é um susto
acostumada que estou aos sobressaltos do corpo.
Mas não há dor nem arrependimentos
apenas dias em que me observo
como lâmina a cortar o espelho
onde já me admirei
e hoje não me reconheço.
Estou com prazo de validade vencido
como vencida está a minha tolerância
aos preconceitos e à ignorância humanas.
Mas quando me defronto com estas tiranias
sem o peso da vaidade
consigo ultrapassar os limites da carne
e viver além do fim.

de Adriana Monteiro de Barros

26.4.08

21.4.08

há tempos que habito esse não-espaço, que o por vir é a rotina e que o silêncio se tornou estéril.

um preto e branco sem grandes sutilezas, sem o charme do granulado acidental que conta os segredos de cada retícula.

um excesso de realidade banal tão violento que dá às horas um aspecto onírico, levando sem resistência essa mente tola para os descaminhos dos devaneios e dos sonhos ruins. realidade de ponteiros gigantescos e modorrentos, um q u a s e
  p  a   r    a     r

29.3.08

Resposta a Marla

Querida Marla,

Minha casa de dentro transpôs os limites de minha pele, meus poros e me represou; caçadora me tornou presa, refém.

Porque tola, porque fraca, porque amando ainda as dores do amor que não é mais, que nunca foi, que nunca fui.

Porque é fácil, porque louvo o passado, temerosa do porvir.

Mas minha casa de dentro ainda tem cantos a decorar. Janelas a descortinar. Então me entrego entorpecida ao desperdiçar do tempo com essa tarefa estéril.

Quando as cortinas estiverem lavadas e a mesa posta, trago os explosivos, acendo na base da estrutura e saio, nua, rumo ao dia de amanhã.

Momentos Críticos na Futilidade do Salão

Entre o pé e a depilação, abro uma Cláudia (Uma, Marie Claire ou qualquer bosta que o valha).

Já começa mal, porque de cara tem uma carta de Fernanda Young (Oh, God!) para o Ano Novo - a revista é de novembro ou dezembro de 2007.

Aí vejo que tem uma matéria de Kika Seixas(como?) sobre o Mal de Alzheimer e como ele serviu de "acerto de contas" entre ela e sua mãe.

Putz, claro, matéria para vender o livro, aproveitam-se 10 frases no máximo. Mas nessas 10 frases, esqueço o "target" da revista, perfil de anunciantes e o título de escritora de Kika Seixas (ok, amanhã irei numa livraria. E juro, sem deboche, que se encontrar um livro dela e for bom... cara, vou ganhar o fim de semana. e vou ler). Esqueço tudo isso e, pensando em minha avó, me atenho ao trecho em que ela fala sobre o ódio, a raiva, os sentimentos baixos que o Alzheimer provoca em familiares e amigos próximos do doente.

Identificação pura.

Minha avó não tem Alzheimer - ate onde eu sei. Mas aos 95, o processo de degeneração da identidade que a bosta da doença traz, ela já abraçou sem pudores. Em especial fisicamente.

Minha avó era uma mulher alta, mais de 1,75. Hoje é significativamente mais baixa que eu, que tenho 1.61 - e meio.

Era extremamente vaidosa, quase uma fashion victim quando o termo ainda nem existia. Hoje, compra roupas no camelô. Não é falta de dinheiro, não. O senso estético se foi.

Era forte, determinada, uma líder nata, autoritária até. Hoje senta encolhida, chora, sofre, não entende o que acontece ao redor.

Eu? Alguns momentos de angústia. Na maior parte do tempo, assim como a Sra. Seixas, fico é muito puta mesmo. Caralho, dá uma raiva fudida! Não sabe mais quem é como, não diferencia a de b, e leva qualquer filha da puta como anjo, se o cretino tiver um bom discurso.

De mulher poderosa, grande, altiva, se tornou um pinguinho de gente apavorado, que estremece com qualquer palavra em tom mais alto.

Quer saber? Isso dói.

Por mais racionais que sejamos, por mais acesso à ciência, educação, informação... quando o bicho pega no nosso quintal... o que fica é a visão e a percepção da memória afetiva.

Aquela mulher ali não é a minha avó. Minha avó não existe mais.

Aceitar isso é que é a grande foda mal dada da porra da história toda. E a grande "sabedoria", diria O Evoluído.

Mas nesse momento, não sou nada evoluída. Nesse momento estou apenas me entregando ao meu luto antecipado, numa tentativa desesperada de me recompor a tempo de dar a ela um mínimo de amor e carinho que tenho de sobra, que ela merece e que está aqui, represado pelo espanto e pela negação.

24.3.08

A Equilibrista

Pé-antepé, avanço na corda bamba
A corda é o fio de uma navalha
E a vara que deveria me dar equilíbrio
Uma enorme serpente branca.

Não há rede de segurança
Os holofotes me impedem de ver a platéia:
Apenas ouço seu mastigar aflito de pipoca e algodão-doce
Assim como seus corações torcedores

Torcem, em seu íntimo mais profundo
Para que eu caia
Que a serpente me envolva
Quebre meus ossos e me devore
Que o fio da navalha chova meu sangue

Aguardam ansiosamente minha queda no abismo
- não haverá baque no final
Assim como não existe o final da corda
Apenas escuridão e seu balançar

Mas sigo em frente
Firme e compenetrada
Sentindo o gelo do aço sob meus pés.

A serpente me alisa, me provoca e me bolina
Ao mesmo tempo me enforca e me desequilibra,
Enquanto enfia seu corpo escorregadio entre minhas pernas.

Os holofotes operam no auge de sua luminância.
Minhas pupilas já não são visíveis.

Não me pergunto aonde isso vai dar.
Apenas sigo em frente
Firme e compenetrada
Sentindo o gelo do aço sob meus pés.

15.3.08

Poesia, Semana de santa, Falada ou Escrita

Debandada geral dos poetas na Semana de Santa. E uma discussão que corria a boca miúda já faz tempo, se torna, finalmente, um debate de proporções desejáveis.
O poeta deve ser remunerado, deve ter seu trabalho respeitado - e condições de trabalho - e, principalmente, há ou não e por que público para poesia.
Chacal, em seu blog, levanta alguns pontos:

"o rio arde nesse dia do poeta - 14 de março. uma festa que rola em Santa Teresa por ocasião da semana santa gera o maior conflito. contatados alguns dos vários grupos de poesia do rio, apresentaram propostas de trabalho e cachê. a grana, apesar de patrocinadores de peso, segundo a organização, foi encurtada e os projetos receberiam metade do que pediram. a partir do filé de peixe, um a um os coletivos foram se retirando."

"(...) poesia, de uma forma geral, não tem público suficiente para interessar ao mercado. é artesanato e não indústria cultural.
difícil se estabelecer uma tabela como acontece na música, no cinema,
onde associações e sindicatos defendem os direitos dos filiados."

"creio que uma boa causa agora é lutar para a poesia chegar aos alunos de primeiro e segundo grau. a música está entrando novamente no currículo escolar. por que não a poesia contemporânea ? abrir frentes, apresentar projetos de recitais às secretarias de educação. se aliar aos grêmios e a grupos de teatro como o CEP 20.000 fez com o Pedro II e o Colégio Estadual André Maurois."

"sem renovarmos o público de poesia, em breve assinaremos seu atestado de óbito por falta de leitores ou ouvintes."

Leia o texto completo aqui, vale a pena.

Como já disse na troca de e-mails que está comendo solta entre vários poetas e organizadores de eventos de poesia, os dois últimos pontos me falam mais alto: renovação do público e inserção na grade currícular - como está acontecendo com a música. Para mim, dos vários incêndios, esses estão entre os mais devastadores.

Aí vejo surgir entre as várias discussões a velha oposição poesia falada x poesia escrita.

Honestamente, acho que no momento, definitivamente não é uma questão prioritária. Se não tivermos público... que diferença faz?

E realmente prefiro jogar esse papo um pouco mais pra frente.

Mas aqui, fora do debate, no meu espaço públicoparticular, aproveito para dizer que o poeta não tem, obrigatoriamente que ser performático. E que gosto das duas possibilidades. E não acho que um poema bem decorado e apresentado diminua o trabalho de um poeta tímido, que prefere se apresentar apenas nas prateleiras, revistas, sites ou blogs.

Então, vou procurar e colocar aqui já já, um vídeo ótimo, em que Drummond, sem nenhum talento para performances, lê um de seus poemas.

O outro, coloco agora: mostra uma animação ótima de Quadrilha, com narração do poeta. A animação é trabalho de um curso de literatura. Os créditos sobem ao som de Chico, mostrando que poesia não gera só performance. Podemos ir bem além disso. Ou não.



Gosto igualmente das duas. Na verdade, acho essa discussão desestimulante. Mas isso rende outro post, escrito com mais paciência e detalhamento. Boa chuva para todos!

9.3.08

Nossos planos

Aquele café improvisado na beira d'água, aquela manhã linda, linda, lembra? Que não tomamos? E as viagens que não fizemos e os vinhos que não bebemos? E aquela vez que não te fiz um jantar surpresa, lembra? E que você não adorou, você não esperava! E aquela estante que não compramos juntos, que não combinou com a nossa sala e que depois já não cabiam os nossos livros...

E a estante, o jantar, os vinhos, as viagens ficaram pra trás porque eram desimportantes já que os filhos não vieram. Lembra, que lindo, o quartinho que não fizemos? E que não escolhemos juntos cada detalhezinho, cada móbile, cada foto? E o primeiro álbum, lembra? Com as fotos que não fizemos do primeiro banho e da primeira mamada que não aconteceram?

A primeira escritura! Nossa, ainda lembro da roupa que eu estava usando no dia em que não assinamos a primeira escritura do apartamento que não compramos!

Lembra quando não sonhamos, quando não planejamos, quando não realizamos?

Está um dia lindo lá fora. Como o daquele primeiro café improvisado que não tomamos. Verifico se todas as janelas estão fechadas, todas as luzes apagadas. E vou embora, entregando as chaves do apartamento em que não vivemos para o próximo morador.

8.3.08

A porra da vidinha de merda

Joguei a mochila no chão, me esparramei no sofá e apoiei de propósito os pés na mesinha de centro. Por que diabos alguém tem mesinha de centro? Pelo prazer das canelas roxas? Por que é isso, a mesinha de centro é como um quebra-molas no meio da sala. Quebra-canelas. Uma merda. Não sei o que é pior, se a mesinha de centro “assinada” e que por isso ninguém pode chegar perto sem que dona da casa enfarte, ou se a mesinha de centro que serve como suporte para enormes livros de arte que ninguém lê, cuidadosamente escolhidos pelo decorador para que nenhuma visita tenha dúvidas: aquela com certeza é a casa de alguém sofisticado, com cultura. “Com cultura”. Cultura de quê? Vírus?

Apoiei de propósito os pés na mesinha de centro e fiquei esperando ela chegar, eu já não disse pra não por os pés na mesinha de centro, isso não é uma mesinha de centro qualquer, isso é uma Saarinem, ela falou puta. Todo dia eu boto o pé na mesinha de centro e todo dia ela reclama puta por que isso não é uma mesinha de centro, isso é uma Saarinem.

Isso não é uma porra de um museu, eu disse, isso é a minha casa. Todo dia eu respondo a mesma merda. Todo dia a mesma discussão idiota, ela disse, ela não sabia que eu gostava de ter todo dia a mesma discussão idiota porque ela ficava irritada e eu adorava ver ela irritada, era o meu único prazer, então eu me permitia ter esse prazer todo dia.

Isso não é uma porra de um museu, eu sabia que o "porra" era fatal. Ela agüentava que eu me esparramasse no sofá, ela agüentava que eu botasse os pés na maldita saarinem, ela agüentava que eu respondesse com ar de desdém. O que ela não suportava era aquele ‘porra’ no meio da frase, dito preguiçosamente, reforçando o desdém. Porque o ‘porra’ era a confirmação do descontrole dela. Ela não falava porra. Ela berrava porra, ela esguelava porra com a cara vermelha, as veias do pescoço saltadas, olhos esbugalhados, salivando e socando a mesa. O porra, para ela, era a confirmação de que havia perdido a razão e a discussão, aquela partida não era dela, perdeu. Então quando eu falava porra calmo, devagar, olhando o jornal ou limpando uma unha, aquilo era a morte: não era um palavrão, era uma afronta.

15.2.08

Transparência Opaca

Porque eu não trabalho de graça.

Pérolas aos porcos, disse ele. Porque ele entendeu tudo.

A gata, enlouquecida, destrói o apartamento enquanto eu digito, fingindo que não é comigo.

Reminiscências sobre flebites e afins depois de ler a Daniela. Que bom que passou. Até hoje, quando vejo a criatura vibrante e veemente, me emociono. Sim, milagres acontecem e são diários. Apenas não são espetaculares. Não vêm acompanhados de gelo seco e holofotes. Eles simplesmente acontecem e assim os dias são possíveis e a vida segue.

8.2.08

Ação!

Naquela volta frustrada de Salvador, enquanto o avião pensava seriamente em dar um mergulho no mar eu, prestes a morrer (tá, era o que eu acreditava na hora) olhava pela janela e só conseguia pensar uma coisa: “Cara, não acredito que eu vou morrer gorda!” Depois minha irmã confessou que olhava pela janela e pensava: “Cara, não acredito que eu não devorei tudo aquilo no jantar pra não engordar!”

No final de tudo, o que pesa, o que fica, é o que não se fez. E foi assim, pensando que poderia ter morrido gorda (pode chamar de fútil, andei) que decidi me separar. Foi bem mais que uma separação: ali, naquele rompimento, eu renasci – e de quebra perdi quase 20 kg e ganhei um belo namorado. Priscila adverte: maridos pústulas engordam e fazem mal a saúde.

E foi ali também que se consolidou minha crença em que jogos, entrelinhas e subtextos são perda de tempo.

Então, para bem ou para mal, vivo, faço e falo.

Recomendo, viu? Garanto que faz bem.

26.1.08

Fórum Social Mundial - Rio com Vida: chat online, hoje

Pessoas do mundo inteiro estão convidadas a participar do chat online do Rio Com Vida –Fórum Social Mundial, que acontecerá no Rio de Janeiro, Brasil. O evento é neste sábado, 26 de janeiro, no Aterro do Flamengo.

Serão 5 palcos e 8 tendas incluindo artes cênicas e visuais, hip hop, musica e poesia. Outro palco onde pessoas de diferentes tribos serão ouvidas além de outras 4 tendas: antropofágica, trocas, ideias e conexões.

Como vem sendo divulgado o Forum Social Mundial decidiu que no dia 26 de Janeiro, em vez de um evento centralizado, haverá um dia de mobilização global. Esta decisão foi tomada para ajudar na ideia de que uma mobilização mundial deve ser manifestada no mesmo dia do Forum Econômico Mundial que acontece todos os anos em Davos na Suíça.

E você pode participar de qualquer lugar do planeta, basta acessar o link: http://www.riocomvida.org.br/modules.php?name=News&file=article&sid=36


People all over the world are invited to participate in an online chat of the World Social Forum – Rio Com Vida in Rio de Janeiro, Brazil. The event will be held Jan 26th at Aterro do Flamengo.

There will be 5 stages and 8 tents including visual arts, hip hop, poetry and music performances. Other stage where people from different backgrounds will lift their voices and four other tents: Anthropophagic, Trades, Ideas and Connections.

As has been released The World Social Forum has decided that Jan 26th, instead of a WSF centralized event, it will have a global day of mobilization. This decision was taken to help the idea of a global worldwide mobilization to emerge and the choice of date to coincide with the World Economic Forum held every year in January in Davos, Switzerland.

And you all over the world must participate at
http://www.riocomvida.org.br/modules.php?name=News&file=article&sid=36