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30.7.09



Tenho um enterro hoje, soube a pouco. Meu tio-avô. Fiquei me lembrando do enterro do meu avô, irmão dele, 21 anos atrás. O mesmo céu cinza, a mesma chuvinha fina e chata.

18.7.09

Parto do porto (in)seguro
parto o porto que construo
para quê porto
se o que vale é que sempre parto?

9.7.09

trecho

A gata olhava Maria. Maria nada dizia. O silêncio era tudo que se precisava saber. Qualquer algo mais era excesso. Desnecessário.

Maria olhava a gata. Olhar vago como seu pensamento, que apenas extensão da imobilidade de seus braços, mãos, pernas.

Silêncio de água parada.

O sofá comportava Maria e a gata. Imóveis. O silêncio, movimento sem eco, era pleno. A sala era plena.

Lá fora a rua com motores e buzinas e passantes tagarelas: tolo algo mais.

27.6.09

Mau, muito mau

Nunca fui fã de Michael Jackson, não foi meu ídolo. Mas impossível não ficar no mínimo num clima de "putz...".

E vai além da questão de ter talento ou não, de ser bizarro ou não, comedor de criancinhas ou não. A questão é mais pessoal. Quem da minha idade não dançou MJ nas festas? Não achou Thriller com Vincent Price o máximo? Não pulou na pista com o gritinho de Beat It? É aquele 'putz' de pedacinho da história da gente indo embora.

Tá, tô piegas. Mas pra compensar, ele tá afiadíssimo: Peter Pan é o Caralho! Meu Nome é Charlie's Angel


Mau, muito mau... Adoro!

25.6.09

Por quê?



Por que diabos toda vez que alguém lê um texto que gosta passa pra todo mundo por e-mail atribuindo a autoria ao pobre do Arnaldo Jabor?

17.6.09

Memória olfativa

Quando passa alguém na rua e aquele cheiro põe aquela pessoa na sua frente. Aquela nada desconhecida. Aquela com quem você dormia, com quem ainda sonha às vezes.

O cheiro da fruta, impregnado nas suas mãos, te levando pra tão longe, tão longe mas com sons tão claros.

E aí você lembra das texturas. E do gosto. Gosto de ontem, gosto de outro. Gostar dessa lembrança momento presente. Ninguém passa impune por esse lugar que foi ontem.

13.6.09

Simonal e o Caramelo

Ando sensível demais. Então vou ao cinema. Mas é necessário cuidado extremo com o cinema quando se está à flor da pele. Esclarecimento feito, em frente.

Fui ver o filme do Simonal na terça. Amei. E fiquei devastada. Hoje, dando uma geral no Blowg acabei fazendo um comentário sobre o filme. Me atormentou tanto que, mesmo querendo, resolvi não escrever sobre, vou só reproduzir o que comentei por lá, copy & paste sem pudor:

Pois eu resolvi não esperar o DVD. O filme é bem feito, a abertura é linda e no começo tive que me segurar para não cantar e dançar na poltrona.

Mas o filme avança e, nessa história, ninguém é bom moço.

O Arthur da Távola resume bem o que aconteceu: um linchamento. Só que ele não foi linchado pelo que fez (e se tivesse sido, também não justificaria). Ah, foi feio...

Saí do cinema engasgada, com o rosto pegando fogo. Fazia tempo que um filme não me pegava assim. Não tenho vergonha de dizer que me acabei de chorar no banheiro feminino.

Mas Claudio Manoel e companhia, na minha humilde e inútil opinião, estão de parabéns. Não tem floreio. O filme é bem feito e não dá refresco pra ninguém - nem pro espectador.


Bom, depois do vexame na saída do Simonal, quando me chamaram ontem para ver Três Macacos fiquei receosa. Aceitei, mas no fundo torcendo para os ingressos terem acabado. E tinham!

Mas Caramelo ainda tinha disponível. "Mulheres em beirute... será?"

Resumindo: o filme é delicado, despretensioso e não fala nada que a gente já não saiba. E não deixa de ser um alívio ver que gente, no final das contas, feitas certas concessões culturais, é tudo igual. Aqui, em Beirute, Madagascar ou Kyoto. E saí do cinema em paz.

27.5.09

No corredor

Nina respira fundo, se concentra e, olhos fechados, enfia a chave na fechadura. Abre a porta num supetão de taquicardia, numa efusão de congelado-sorriso-social-semi-histérico sem esquecer – isso é por demais importante - , sem esquecer que tem que chegar de uma passada só até a lixeira, imaculada. E... ai, que susto!

Ele está lá. Descalço, cuecão e sem camisa. Que peitoral, ela pensa. Faço um estrago num desses.

Ele ri, meio constrangido, meio jogando charme. Não é amor, é esporte. Não é sexo, é esporte. Ela segura a gata numa mão, três sacolas na outra e o chaveiro no mindinho da mão esquerda. A mão que segura a gata. Só então ele percebe que está só de cueca. Ela de camisolinha. No corredor, na frente da porta do síndico.

- Quer uma ajuda?

“Quero. Me ajuda a tirar a camisola, depois me ajuda a arrancar a calcinha e aí me ajuda a entender o que é sexo selvagem.”

- Não, obrigada. Você é muito gentil.

- Tem certeza? Qualquer coisa... estou aqui – insiste ele, em franco discurso direto. Direto para os peitos dela.

Ela percebe a cueca. Ele, a camisola.

Rápido constrangimento. Mas o difícil mesmo é manter a língua dentro da boca e não propor:

- Sua casa, eu preparo o jantar, você abre o vinho. Hoje a gente brinca. Amanhã é outro dia.

“Que peitão, que bundão, que tes...”

- Olha, na verdade agradeço se você capturar a gata, que fugiu escada acima.

Ele captura a gata que fugiu escada acima. Na devolução, olhos nos olhos, qual é o seu nome mesmo?

- Pablo, sou argentino. Ninguém é perfeito – e sorri, com aquela boca perfeita.

- Então boa noite.

- Boa noite, então. Dorme bem com a gatinha.

- Dorme bem.

Fecham as portas lentamente. Ela mordendo os lábios sem perceber. Ele com a boca aberta, sem reparar. Hoje tem insônia no prédio.

23.5.09

Quem leva?

"Dos 50 primeiros finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa anunciados, em cerimônia no Consulado de Portugal no Rio, quase a metade está nas mãos de dois dos maiores grupos editoriais do País, Record (13 autores) e Companhia das Letras (12 autores. É um dado importante, considerando que a edição atual do prêmio teve 100 editoras inscritas, das quais apenas 13 chegaram a essa primeira lista de finalistas, da qual fazem parte premiados escritores como Milton Hatoum, colunista do Estado, o português Gonçalo Tavares, além de representantes da nova geração de autores - Daniel Galera e Carola Saavedra -, e um dos maiores nomes das artes plásticas no Brasil, Nuno Ramos, revelado também como autor em Ó, classificado como livro de contos."

"Os independentes finalistas são quase todos poetas. É um gênero cada vez menos presente no prêmio."

Leia completo aqui, na Verdes Trigos. Também na Verdes Trigos a lista dos 50 primeiros selecionados. Aliás, já leram o Rodrigo de Souza Leão? Muito bom.

19.5.09

Vesti Azul

"vesti azul
minha sorte então mudou
vesti azul, minha sorte então mudou..."




"me apareceu um brotinho lindo
que me convenceu, dizendo
que eu devia vestir azul,
que azul é cor do ceu e seu olhar tbm..."


Simonal entoando Nonato Buzar. Não tinha como ser melhor!

12.5.09

Desencontro

O reencontro inesperado.
Os olhares surpresos.
Ele ansioso - para que ela se vá.
Ela constrangida - por ter acreditado.
Meia dúzia de palavras vazias, estéreis; sorrisos polidos; um beijo não se sabe onde.
E se despedem.
Seria frugal, se não tão indigesto.

9.5.09

Hoje, corre que ainda dá tempo!

Hoje, a partir de 19h, no Bar Bukowski (Rua Álvaro Ramos, 270 - Botafogo / RJ), lançamento de pequenasBiografias NÃO-AUTORIZADAS, de Leonardo Marona. Editora 7 Letras. Vai lá.

3.5.09

Ele não anda, desfila.
Passos a meio metro do chão.
Flutua.

E se crê
aristocrático,
fleumático
um Dândi.

Em delírio, um nobre
- que mata por meio cobre
na verdade, tolo Dom Quixote

- só há nobreza em seus gestos nos sonhos
que habitam sua oca cabecinha

E ele pluma
pela rua, leve.
paira
nas alturas.


Decrépito
sombra de um passado
que não foi,
patético.

23.4.09

Da qui prá frente...

Daqui pra frente, tudo vai ser diferente...


Adotei esse trecho da canção de Roberto e Erasmo como meu lema para 2009. Nem que seja para descobrir que eu preferia como era antes. Inclusive os erros. Estamos em abril e, até agora, tudo certo.

Com isso, estou acordando às 6:20 e às 7:00 já estou na academia. Sim, a boêmia de alma agora acorda e malha cedo, muito cedo. Sinceramente? Estou achando esquisitíssimo. As duas da tarde me sinto como se já fosse meia noite e minha cabeça me prega uma peça bizarra: me lembro da aula como se tivesse sido na véspera.

Amores. Diferentes também. Ok, não chegam a ser amores. Peguetes. Aha, sim! Agora eu tenho... Peguetes! E tudo quase ao contrário do meu histórico sentimental. São mais novos, não são lá muito afeitos à leitura, veem Big Brother (e não sabem quem foiGeorge Orwell), gostam de raves, etc. E quer saber? Estou adorando. Não quero discutir a gestalt do objeto, não quero ir ao MAM, não quero discussões inteligentes. Aliás, não quero discussões. Ano sabático no que diz respeito a intelectualices (ui! neologismei ou errei mesmo?). Só quero que a criatura seja espontânea, que me faça rir. E que seja potente, claro. Claro também que continuo a mesma, então tem aquele peguete por quem sou quase apaixonada e aquele amor antigo que ainda me balança. Mas estou firme na decisão de experimentar. E experimentar diferente.

Trabalho. Bem, aí não dá para escolher muito. Pintou a gente pega. Mas, mesmo com contas para pagar, estou evitando aqueles que cheiram a problema.

Aliás, falando em problema e cheiros, estou evitando quem cheira a problema, quem cheira a loucura.

Estou fazendo muito faxina. Jogando fora. E não é só lixo não. Lembranças e pessoas também. Parece cruel? Não, não é não... Jogamos fora e somos jogados também. Tem gente que tem que ficar no passado e lembranças que devem sobreviver só na nossa cabeça. Nada de guardar certas cartas, objetos, presentes. Ok, ok, foto pode. Jogar fora às vezes é apenas um ato de libertação. O que na verdade é o que venho fazendo. Venho me libertando e me liberando. Estou me dando alforria. Certas situações não têm solução. Algumas pessoas não mudam. Ou não mudam em certos aspectos que são justamente os que nos incomodam. Todo mundo é assim. Eu inclusive.

Outro dia um queridíssimo (que anda sumido, será que me jogou fora?) falou: você nunca mais escreveu um poema. Não, querido, escrevi sim. Só não mostrei para você. E não publiquei no blog. Por quê? Porque estou em momento de maturação. Dos poemas, das escolhas.

Porque não basta ser diferente. Tem que ser pra valer.

Daqui prá frente
Tudo vai ser diferente
Você tem que aprender
A ser gente
Seu orgulho não vale
Nada! Nada!...


7.4.09

Tomara que chova
uma chuva bem fininha
prá molhar a sua cama
e voçê dormir na minha
*

quando passa de meia noite ele sai pra jogar o lixo de cuequinha.
adoro quando ele sai pra jogar o lixo.



*Chuva Fininha, de Roberto e Meirinho

25.3.09

politrauma

no politrauma do miguel couto todas aquelas personasgrafitadas e suas algemas fechadas em cadeiras e camas e macas, e aí irmão, dançô também. chão de sangue. segue o rastro, raspão na cabeça. projétil protegido aninhado na cartilagem de um joelho que não vê um dedão - munição arrancou.

sala de ressucitação:lotação esgotada

Raio-x: lotação esgotada

Lotação: incendiada.

no politrauma do miguel couto ninguém entra ninguém sai, fora todo mundo que é visitante, é para sua própria segurança. aí babaca, larga mão da pulseira, fica quieto senão você pode cair, bater com a cabeça e morrer.

aí tia, dá uma água pra mim, na boa, na paz.

tiros, o táxi sai voado, é fechado pelosomi. O puliça da portaria vem carregado. braço estilhaçado, hospital desprotegido. hospital bala perdida. a tia entubada não viu nada.

no politrauma do miguel couto não tem parada. dia animado, clima saudável e ótimas companhias.

17.3.09

Espingardinha

Lembrando da própria infância, comprou pro aniversariante de cinco anos a espingardinha que nunca teve. Ficou tão entusiasmado que ele mesmo abriu o presente, mostrou todos os detalhes, pôs no ombro e começou a marchar de um lado para o outro. Um, dois, um, dois. O aniversariante, olhinhos de tédio, suspira:
- Boboca.