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12.9.06

Acidente na Lagoa. E somos todos palhaços

“Após a missa de sétimo dia dos jovens Ivan Rocha Guida, de 18 anos, Manoela de Billy Rocha, de 16, Ana Clara Rocha Padilla e Joana Kuo Chamis, ambas de 17 anos, mortos no acidente com um Honda Civic na Lagoa, na madrugada do último domingo, os pais de Ana Clara e Joana rebateram as acusações da juíza da 1ª Vara da Infância e da Juventude, Ivone Caetano, que, ao comentar a tragédia, chamou os pais de negligentes.

- Ela não nos conhece para fazer este tipo de julgamento. Eu tenho pena das pessoas que serão julgadas por ela – disse o engenheiro Nelson Chamis, pai de Joana, que pensa em interpelar judicialmente a magistrada se ela prosseguir com as declarações.

O pai de Ana Clara, Gabriel Padilla, fez coro com o engenheiro:

- Ela demonstrou que é uma pessoa totalmente desqualificada para exercer a sua função – afirmou.” - http://oglobo.globo.com/rio/mat/2006/09/09/285599447.asp

“Dos cinco jovens mortos anteontem, apenas Joana ainda foi encontrada com vida. Ela foi levada para o Hospital Municipal Miguel Couto, no Leblon, mas não resistiu. O hospital, que tem a principal emergência da zona sul, o número de atendimentos de vítimas do trânsito está aumentando. Em 2004, foram 972 atendimentos. Em 2005, 1.037. Até julho deste ano, os números já ultrapassaram a metade da estatística do ano passado: 555 atendimentos.” - http://www.estadao.com.br/ultimas/cidades/noticias/2006/set/04/338.htm

Joana era minha prima, mas não é por isso que estou escrevendo aqui. Vi apenas 3 ou 4 vezes na vida e não conversei com seu pai, Nelson, depois do acidente. Mas depois de ler essa matéria no globo, não poderia deixar de dedicar um pouco do meu tempo para escrever sobre o assunto.

Estou chocada com a declaração da juíza Ivone Caetano, da 1ª Vara da Infância e da Juventude, responsabilizando e culpando os pais. É muita falta de ética, limite, sensibilidade, humanidade.

Por qual razão ela não teceu comentários sobre o não cumprimento da lei que proíbe menores de idade de beber e de freqüentar boites? Por qual razão ela não questionou o fato da Sky Lounge não ter exigido os documentos dos cinco – e de todos os outros menores que certamente estavam na boite?

O motorista e os outros estavam alcoolizados? Sim. Onde todos beberam? Em um estabelecimento comercial. Onde estão os órgãos que deveriam garantir que esse estabelecimento cumprisse toda a legislação que diz respeito ao seu negócio?

Onde está o policiamento das ruas nas madrugadas, que garantiria aos motoristas parar em sinais? 1.037 atendimentos em um único hospital no ano passado? Isso é conseqüência de negligência dos pais? Ou somos todos negligentes? Não existem campanhas sérias de conscientização; educação no trânsito não faz parte da grade curricular obrigatória das escolas e “cervejinha” pro guarda já virou regra.

Não se fala abertamente sobre dependência química. Não se fala abertamente sobre o fato de que álcool também é droga. Aliás, o que não falta é propaganda de bebida alcoólica com gente jovem, bonita e saudável. Qual a relação dessa imagem com a realidade?

Não estou negando que beberam, que correram, que não colocaram cinto. Mas esse tipo de colocação feita pela juíza, me lembra um outro juiz, que deu ordem, mais de 15 anos atrás, para que o pai da estudante assassinada Mônica Granuzzo fosse retirado do tribunal: a ordem era para que retirassem “esse palhaço” do lugar.

Depois de ler essa matéria, não tenho mais dúvida. Para donos de boites, para o judiciário, para a indústria de bebidas e para agências de publicidade, somos todos palhaços.

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